Classificação

8.5
Interpretação
8
Argumento
6
Realização
6
Banda Sonora

[Não contém spoilers]

Já está disponível o mais recente serviço de streaming português OPTO SIC e a estreia faz-se com uma nova série: A Generala. Esta produção televisiva é inspirada na vida de Maria Teresinha, uma mulher que fingiu, durante quase 20 anos, ser um general com o nome de Tito da Paixão Gomes. Aos 16 anos, Maria Teresinha fugira da Madeira para Lisboa, onde arranjou uma réplica de uma farda e adotou o nome de um irmão falecido. A verdade só foi descoberta em 1992, depois de várias pessoas terem sido vítimas de burla por parte da ‘generala’. Estaremos perante mais uma grande aposta ficcional da televisão portuguesa que vai além do conhecido formato das novelas?

Baseada em factos reais, A Generala apresenta-nos neste Episódio 1 a infância e adolescência da personagem principal, Maria Teresinha. Os seus primeiros anos de vida ficaram marcados por uma tragédia que assolou a família e da qual a sua mãe, Celeste, nunca recuperou. Ao longo do episódio, pautado por um ritmo lento, como as séries portuguesas nos têm habituado, e por cenas marcadas pelo silêncio, vamos vendo a evolução de Maria Teresinha, que passa de uma criança a uma jovem mulher castigada por algo simplesmente estar viva.

A história começa na Madeira, na década de 1950. Não que estivesse à espera que o fizessem, mas por um lado gostei que não fossem incluídos sotaques. Já há várias provas por essa televisão fora em como pedir aos atores para fazerem sotaques que não têm não costuma dar bom resultado. As paisagens são de cortar a respiração e os cenários e caracterizações adequados à época não têm nada a apontar-se-lhe.

Contudo, tenho de confessar que a narrativa não me agarrou tanto quanto gostaria. Pelo menos neste primeiro episódio. Tudo parece estar lá: um argumento cativante, um elenco excelente, parte técnica on point, mas… Falta algo. Não consigo precisar o quê, talvez um ritmo mais acelerado, talvez uma tonalidade diferente nas cenas (de forma geral, parece tudo muito “baço”, se me faço entender), talvez uma realização que se aproxime mais da contemporaneidade.

A comparação de A Generala e deste Episódio 1 com as mais recentes apostas ficcionais da RTP é inevitável, uma vez que este tem sido o único canal português a lançar nos últimos anos conteúdo ficcional televisivo que vai além das telenovelas. Apesar de o canal público também ter feito um forte investimento em séries de época baseadas em factos reais, o feeling que sinto em relação a A Espia ou O Atentado é diferente do que senti com A Generala. Todas três têm o mesmo passo lento na evolução da história que contam e todas se passam mais ou menos em meados do século XX, mas A Generala simplesmente não encaixa no mesmo saco que as outras duas. Não que tivesse necessariamente de encaixar, pertencendo a outro canal/streamer e sendo realizada por outra pessoa, ainda assim, e sem descurar todo o trabalho envolvido na produção da série, fica aquém das expectativas.

De ressalvar que esta opinião é dada tendo por base somente o primeiro episódio da série. A probabilidade de os episódios que se seguem mudarem esta perspetiva é elevada e assim espero que aconteça. Como referido anteriormente, todos os ingredientes estão lá. A história de uma rapariga que cresceu reprimida de poder ser quem era e tomou a identidade de nada mais nada menos do que um general do exército e viveu durante duas décadas na pele de um homem tem tudo de intrigante. Tenho muita curiosidade em descobrir como se desenrolou a vida de Maria Teresinha depois de sair da Madeira e como chegou ao fim a sua farsa. Desta forma, não há dúvida que vou continuar a ver a série e aconselho-vos a fazerem o mesmo. Portugal tem agora mais um serviço de streaming nacional que traz mais hipóteses às séries portuguesas e ao que de bom se faz por cá.

Quero apenas acrescentar que os grandes momentos da chegada de A Generala e do Episódio 1 foram as cenas entre mãe e filha, interpretadas por Anabela Moreira e Carolina Carvalho. A mãe implacável, austera, consumida pelo luto que não tem dó nem piedade pela filha e a filha que cresceu a ouvir a mãe gritar com ela por tudo e por nada, que a teme e que ainda assim a quer fazer sentir-se orgulhosa. Nos próximos episódios é possível que não haja tantas cenas ou até quase nenhumas entre as duas, uma vez que a protagonista vai para Lisboa, mas os diálogos entre as duas no piloto sem dúvida que foram um dos pontos fortes desta estreia.

Beatriz Caetano