Classificação

8.5
Interpretação
8
Argumento
7
Banda Sonora
8
Realização

Esta nova comédia de meia hora da Showtime é, a par com The L Word: Generation Q, uma das suas novas apostas dentro do universo LGBTQ e foi escrita com firmeza e inteligência por Abby McEnany e Tim Mason. Da equipa criativa fez também parte Lilly Wachowski, de The Matrix, que usou a sua experiência no campo de ficção científica/ação para ajudar a manter as coisas relativamente leves.

Com filmagens em Chicago, Work in Progress segue a vida da comediante Abby McEnany que interpreta uma versão exagerada de si mesma. Ela é uma personagem de 45 anos que se identifica como sendo gorda, estranha, suicida e com Transtorno Obsessivo Compulsivo, cujo infortúnio e desespero inesperadamente a levam a um relacionamento vibrante com um homem trans muito mais jovem.

Com um humor amanteigado e irónico, esta série procura a solidão e o isolamento que uma pessoa diferente pode sentir nesta vida de capitalismo, onde é estigmatizada por uma série de coisas que tornam a vida quotidiana cansativa. Por exemplo, Abby sente que é uma pessoa inacabada, que todo mundo está satisfeito menos ela, que nunca será magra, amada ou remotamente ligada a alguém.

Nesta versão fictícia de si mesma e neste piloto, McEnany foi capaz, a meu ver, de navegar por tópicos pesados ​​com leveza e humor e de uma maneira diferente do que estava habituado a ver. Isto talvez aconteceu porque como está a dirigir a narrativa, não só nos bastidores mas também nas câmaras, pôde ser autodepreciativa, explorando os vários tons de auto-aversão que vêm com um corpo e mente que não se encaixa nos padrões impossíveis da sociedade.

Eu gostei bastante do facto de a personagem principal ser ela mesma, claro que numa versão aumentada, mas mesmo assim ainda bem que há atores e escritores que realmente se amam – pelo menos o suficiente para fazer um programa de TV hilariante sobre a sua própria vida. Ela demonstrou que conhece a sua própria voz, sabe que é engraçada e, no entanto, não tem medo de admitir do que não gosta. Não teve medo de deixar a sua psique completamente aberta em Work In Progress, e estou feliz por ela o ter feito. Se mais escritores fizessem o mesmo, a televisão talvez estivesse ainda melhor. Abby, a personagem, pode não se considerar desejável, mas o seu programa é.

Não se deixem enganar pelo título, traduzindo fica ‘trabalho em andamento’, pois a série não está imperfeita e inacabada como o título quer parecer. Pelo menos para primeiro episódio foi bastante consistente, engraçado e fora do comum, basicamente deixou indícios de que, se o nível se mantiver, poder vir a ser uma grande série. Os relacionamentos entre as personagens foram totalmente credíveis e com profundidade. Ter isso no piloto é geralmente sinal de que o programa será muito bom. Veremos se assim o será.

Claro que, por cima disto tudo, tem uma missão clara de mostrar como a vida é complexa e multifacetada para várias gerações de pessoas LGBTQ. Para quem não gosta de ver este tema ser abordado em demasia em séries, talvez Work In Progress não seja para vocês, mas se não se importam e o que mais gostam é de rir e passar um bom tempo deviam aproveitar para espreitar e ver o quão original está… 30 minutos passam rápido!

Filipe Tavares