Classificação

9
Interpretação
9
Argumento
8.7
Realização
8.9
Banda-Sonora

Contém SPOILERS:

Aquele brilhozinho nos olhos de uma ressaca de Mr. Robot já começava a incomodar! Eis que chegou o último episódio da temporada da maior surpresa deste verão. Começamos com uma pequena cena, numa bonita casa de tapas na baixa nova-iorquina onde Krista (psicóloga de Elliot) se encontra com uma cara que não é desconhecida, ainda que demore o meu tempo a associar de onde a conheço: é Michael! O ex-namorado da psicóloga que Elliot desmascarou no início da temporada! Bem… está com um ar abatido e muito pouco simpático. A razão por que chamou Krista é bastante simples: Michael quer vingança e precisa de alguém que o ajude. A cena aparece um pouco descontextualizada em relação aos eventos que se seguem, mas não deixa de ser intrigante assim que vemos Michael a chegar a casa, frustrado pela rejeição de Krista, e ao ligar a televisão, depara-se com um cenário apocalíptico nos noticiários. Está oficialmente em movimento a operação da fsociety.

As ruas estão repletas de apoiantes da organização criminal de Mr. Robot que finalmente conseguiu destruir o império da Evil Corp. Elliot acorda no carro de Tyrrell, completamente alheio das situações que têm decorrido ao seu redor, e ainda mais confuso e perturbado do que o seu dito “normal”. É então que descobre que esteve desaparecido por três dias e não há sinais de Tyrrell em lado nenhum e, portanto, Elliot procura saber o que lhe aconteceu. Angela entrou oficialmente na Evil Corp (ainda não estou bem ciente de qual é o valor significativo da personagem… mas tenho fé que me expliquem na próxima temporada) e assim que o caos no seu novo local de trabalho se instala, ela presencia uma situação enfadonha em plena televisão (um “high-five” aos produtores por terem adiado o final de temporada em respeito às vítimas do incidente em Virginia). Porque Mr. Robot é uma série que todos devem saborear e tirar as suas próprias conclusões, até porque as perspetivas em relação à história variam de pessoa para pessoa, vou deixar de parte o enredo do episódio e falar um pouco da minha própria visão da série.

Mr. Robot é a série sensação do verão e tem todos os elementos necessários para se tornar numa das melhores do momento. Isto porque surge numa altura em que a sociedade é dominada pelos telemóveis, internet e redes sociais e, de certa forma, por uma consciencialização de que somos controlados pelo governo quando acedemos no nosso dia-a-dia a plataformas online. Não basta criar um argumento plausível com base numa premissa atual… é necessário alimentar um enredo que dure por algumas temporadas e que mantenha a narrativa fresca e Sam Esmail, o criador, soube manipular esta ideia de forma sublime. Recrutando um elenco talentoso, com claro destaque para Rami Malek que é absolutamente soberbo e resgatando um Christian Slater “manchado” pelas mais recentes apostas no cinema, Mr. Robot é uma viagem intensa e magnífica de um indivíduo que procura no seu imaginário por um amigo em quem confiar. Não é por nada que Esmail coloca Elliot a falar diretamente com o espectador, porque isso cria uma empatia que o agarra desde o início à temática, fazendo-o sentir-se incluído na história. Martin Wallström também está em destaque, visto que a sua prestação tem recebido imensos elogios do público, e que é facilmente comparado a um Joker dos tempos modernos. Tendo um protagonista perturbado e um vilão que equilibra a restante narrativa, Mr. Robot é um caso invulgar de televisão criativa e intensa como já não se vê há algum tempo.

Em “Zero Day”, o capítulo final da temporada, Esmail já não precisa de entregar mais respostas aos seus fãs (os grandes episódios de revelações chegaram semanas antes) mas precisa de catapultar a história para a temporada seguinte. Apesar de se ter tornado num final algo confuso e de criar ainda mais dúvidas e questões na mente dos seus espectadores, Mr. Robot acaba por adequar à sua personagem principal uma certa “maquinização humana”, ou seja, vemos Elliot a ter alguns “breaks” e “glitches” da sua própria personalidade complexa. Não só é esta atitude louvável por parte do argumento, como confere um carisma ainda maior ao seu núcleo de atores que são desafiados a qualquer cena, a qualquer minuto. Elliot e Mr. Robot estão ligados como se se tratassem de um computador infetado, e que o prazo de validade está a chegar ao fim. A luta interior de Elliot funciona como o tema principal, fazendo com que nos esqueçamos do caos pós-apocalíptico que decorre nas ruas. É aqui que a série triunfa e que nos deixa impacientes para o ano que vem e para que as nossas questões e dúvidas obtenham as respostas que necessitam.

Sendo que, depois dos créditos, ainda se pode presenciar uma pequena cena intrigante, “Zero Day” termina com uma música fúnebre proveniente de uma harpa que reflete o estado em que a América se encontra no momento. BD Wong promete ter um destaque maior e muitas revelações ainda estão por chegar e eu vou ter saudades de sentir a minha mente desafiada pelos twists formidáveis e pela complexidade da narrativa que não se vê em qualquer outro exercício de televisão. Com uma banda-sonora extraordinária e uma equipa talentosa, Mr. Robot é definitivamente a melhor série do ano.

Jorge Lestre