No dia 4 de setembro, o sol pôs-se para o fenómeno televisivo da RTP que apanhou todos de surpresa neste verão e pensou-se que a noite seria para sempre. Contudo, o eco que Pôr do Sol teve nos espectadores foi tanto que o canal público não teve outro remédio senão pedir mais uma leva de episódios desta mininovela que entretanto se agigantou. Para Manuel Pureza, uma das mentes criativas por detrás do projeto e o responsável pela realização, esta renovação “é uma coisa muito sinistra”, visto que raramente acontece em Portugal e muito menos como se desenrolou com esta sátira às tradicionais telenovelas.

A renovação de Pôr do Sol foi anunciada no dia 16 de setembro, no encerramento da apresentação da grelha da RTP. Depois de uma atuação dos Jesus Quisto, a banda que os portugueses não sabiam que precisavam, José Fragoso, diretor de Programas do canal público, subiu ao palco e revelou que o sucesso televisivo deste verão iria regressar aos ecrãs em 2022 com novos episódios. A notícia rapidamente se espalhou pelos órgãos de comunicação e pelas redes sociais, que, mais uma vez, se encheram de publicações alusivas às muitas frases e expressões desta novela que é tudo o que uma novela é e não é.

“Santas tardes, classe operária!” passou a ser uma frase ouvida e lida com regularidade e deve haver até quem já tenha avistado por aí um boné ou uma t-shirt que pergunta “Quem matou o Narciso?”. Este é o reflexo do alcance de Pôr do Sol, que deu origem a merchandising inspirado na série e ainda à adição das músicas dos Jesus Quisto a plataformas como o Spotify, ou seja, “um reconciliar da cultura pop com uma série nacional”, refere Manuel Pureza. Apesar de estar “surpreendidíssimo” com a forma como estas expressões entraram para a gíria, o mesmo não se pode dizer sobre a renovação do projeto.

Em conversa com o Séries da TV, o realizador revela que esta decisão surgiu tanto da “adesão do público” e do “crescimento sustentado” ao longo da emissão dos episódios, como do interesse da RTP em dar continuação à história. “A malta gostou tanto de ver, que a RTP ouviu os espectadores.” De facto, acrescenta, o que torna este acontecimento em algo quase inédito é ter acontecido por reação e não por contrato já estabelecido entre o canal e a produção. E a comprovar isso mesmo está o alcance histórico da série na última semana de exibição: 528 mil espectadores assistiram ao 12.º capítulo, de acordo com o Espalha Factos. A par desse feito, é também a série mais vista de sempre na RTP Play, em formato streaming, segundo revela José Fragoso ao Público.

Contudo, o novo conjunto de episódios traz uma responsabilidade acrescida aos criadores e produtores, e Manuel Pureza está bem ciente disso. “É muito fácil cair. Subir a fasquia é muito difícil. E para subir a fasquia é preciso ter calma.” A vontade de toda a equipa, atores incluídos, era começar imediatamente a nova temporada, mas essa euforia é, afirma o realizador, “inimiga do critério e objetividade”. Para “ganhar aquela linha tramada entre o exagero e o underground” são necessários ensaios, preparação e escolha. Escolha essa que também passa pela seleção do elenco ideal, feita a par com a diretora de atores Rita Tristão. Manuel Pureza elogia a profissional, salientando que o seu papel é fundamental para manter o equilíbrio num projeto onde uma dose maior de humor pode ser o suficiente para que tudo se desmorone. “O pior erro é o ator achar-se piada. Se o ator se achar piada já foste.”

Ainda assim, e segundo consta, só o brainstorm inicial da 2.ª temporada já provocou mais gargalhadas na equipa do que a 1.ª temporada inteira. Portanto, o que será que espera os fãs em 2022? Por enquanto, ainda está tudo no segredo dos deuses, mas aquilo que Manuel Pureza pode assegurar é que a 2.ª temporada de Pôr do Sol será feita com tempo, para que possam criar “humor sem ser brejeiro”. Tempo este que nunca seria possível sem “a confiança e a aposta da RTP”, garante. “Esta geração de gente está ávida de mostrar que sabe fazer e é preciso confiar nestas pessoas muito mais. Vale a pena arriscar do que estar sempre preso às mesmas certezas.”

Beatriz Caetano