As séries estão repletas dos mais variados tipos de relações entre personagens, mas hoje quero dar destaque aos melhores mentores do pequeno ecrã. Entre outras definições, o dicionário diz do mentor que se trata de uma “pessoa experiente que encaminha e aconselha outra” e é precisamente esse o feito destes personagens, a capacidade de passarem a sua sabedoria, os seus conhecimentos, sem esquecer que, em muitos dos casos, servem também de bússola moral e inspiração. Muitas destas relações acabaram por se traduzir também em grandes amizades e são a prova de que os mentores também podem ter algo a aprender com os seus ‘aprendizes’.

Cordelia Goode [American Horror Story: Apocalypse]: Cordelia evoluiu muito enquanto personagem desde os tempos de Coven, onde era a responsável máxima pela Miss Robichaux’s Academy. No entanto, já nessa altura era claro o sentido de proteção que tinha para com as meninas ao seu cuidado. Há nela uma força e vulnerabilidade que coexistem apesar do seu estatuto enquanto supreme. No entanto, Cordelia é o total oposto da mãe, Fiona, que nunca soube aceitar a sua mortalidade nem o facto de que um dia teria de ceder o seu lugar a outra supreme. Cordelia esteve sempre ciente do seu destino e, com o coração no sítio certo, foi a líder de que a coven precisava. No entanto, quando chegou a hora de ver a sua sucessora ascender ao cargo, fê-lo com uma graça de que a maioria das pessoas não seriam capazes. Em vez de se agarrar ao inevitável, ela ajudou Mallory a florescer e a tornar-se uma witch imensamente poderosa que significava o futuro da coven. Cordelia é uma daquelas raras pessoas que marcam aqueles que se cruzam com ela ao longo da vida, mas Mallory é uma sucessora mais do que adequada, também ela dotada de um bom coração e capacidades extraordinárias. 

Temperance ‘Bones’ Brennan [Bones]: Zack era um estagiário de Brennan no Jeffersonian e um dos mais brilhantes. Apesar disso, Zack é inseguro, mas Brennan está bem ciente das suas capacidades no campo da antropologia forense. É sabido que Brennan tem uma certa dificuldade em estabelecer uma ligação com as outras pessoas e que mantém uma relação muito profissional com os seus estagiários, mas não há dúvida de que tem um carinho especial por Zack. Há admiração mútua entre eles e a mentora não hesita em falar de forma positiva acerca do seu antigo aprendiz quando este se vê em graves apertos perante a justiça, atestando o seu bom carácter e o quanto foi fundamental para ajudar a prender dezenas de criminosos. Tendo em conta que Brennan só testemunha acerca de factos, falar a favor de Zack enquanto pessoa é algo extraordinário e prova que a antropóloga protege os seus.  

Mrs. Patmore [Downton Abbey]: Ao início, Mrs. Patmore estava sempre a implicar com Daisy, a sua ajudante na cozinha. No entanto, implicar é um traço da personalidade da cozinheira e ela não faz por mal, simplesmente não o consegue evitar. À parte essas pequenas picardias, Mrs. Patmore e Daisy têm uma relação muito boa e é inegável que a mulher mais velha é uma espécie de figura maternal para a jovem. Daisy aprende muito com Mrs. Patmore em termos culinários, mas recebe também um grande apoio dela nos mais variados aspetos da sua vida, nomeadamente em termos de estudos. Daisy também defende a ‘chefe’ com unhas e dentes e não há como esquecer a vez em que sabotou o jantar preparado por outra cozinheira como forma de proteger Mrs. Patmore de ser substituída. 

Treinador Eric Taylor [Friday Night Lights]: Há uma grande tendência para, na ficção, os treinadores serem figuras muito importantes na vida dos seus atletas e Eric Taylor (Kyle Chandler) não podia personificar isso de uma forma melhor. Como treinador, ele é duro, mas procura também um sentido de justiça que nem sempre os seus atletas são capazes de compreender, mas é também inspirador e um líder nato. As vitórias são importantes, mas nada é mais importante para ele do que o trabalho de equipa, o empenho e a garra que os seus jogadores mostram. No entanto, o que distingue verdadeiramente o Coach Taylor é a sua capacidade de fazer com aqueles jovens cresçam para se tornarem pessoas boas e decentes. Para alguns deles, o treinador é a sua única figura ou referência paternal e a verdade é que ele ajudou a moldar jovens como Matt Saracen, Smash Williams ou Tim Riggins. 

Arizona Robbins [Grey’s Anatomy]: Há excelentes mentores em Grey’s Anatomy e poderia ter feito uma crónica só com eles, mas como a minha ideia era colocar apenas um por série, acho que é merecido dar o destaque a Arizona Robbins pelo trabalho que fez com Alex e pela forma como o moldou enquanto médico, cirurgião e pessoa. É sabido que Alex era arrogante e cheio de bazófia e que queria especializar-se em Cirurgia Plástica, atraído pelo dinheiro que poderia fazer com essa profissão, mas o seu jeito para os miúdos não escapou ao olhar atento de Arizona, que viu nele potencial para se tornar cirurgião pediátrico. Alex percebeu também que Arizona o levava a sério enquanto profissional e sentir que alguém acreditava realmente nele ajudou a tornar o personagem alguém diferente e a encontrar a sua verdadeira vocação. Para além da relação entre mentora e ‘aluno’, Arizona e Alex desenvolveram uma amizade sólida e quando a médica viu a sua perna ser amputada na sequência do acidente de avião que vitimou Mark e Lexie, Alex ficou por perto para olhar por ela, sentindo-se culpado porque deveria ter sido ele e não ela a entrar naquele avião. No entanto, racionalmente, ambos sabiam que foi um acidente, que não foi culpa de ninguém, mas ter alguém para ‘culpar’ foi importante para Arizona numa altura em que ela precisava de descarregar a sua raiva. E Alex, que se preparava para ir embora daquele hospital antes do acidente, arranjou assim uma forma de se expiar por ter escondido de Arizona que se ia embora.

O treinador de squash de Marisol [Little America]: Esta série da Apple TV+ foi cancelada ao fim de uma temporada. Cada episódio conta uma história diferente centrada num imigrante em solo americano e este segundo, The Jaguar, conta a história de uma adolescente cuja vida é completamente mudada através do squash e do seu treinador. A ligação da adolescente ao squash dá-se por acaso, mas o treinador vê alguma coisa nela, investe o seu tempo a ensinar-lhe a modalidade e, quando acha que ela está preparada, põe-na a competir. O episódio termina numa nota mais do que positiva, com Marisol a alcançar alguns feitos na sua vida e a marca daquele treinador estará lá, para sempre, como uma parte muito importante no que às suas conquistas diz respeito.

Ernie Fontaine [Lodge 49]: Dud estava deprimido e sentia-se sem propósito depois da morte do pai e do colapso do negócio familiar, até que descobriu o lodge 49, uma de muitas sedes da Ordem dos Linces por todo o mundo. Não se trata de uma ordem secreta, mas encontra-se envolvida num certo misticismo e esconde alguns segredos. Aí conhece Ernie, um veterano membro da ordem, e não tarda a fazer dele seu amigo inseparável. A diferença de idades é grande, mas o companheirismo entre os dois é bastante bom e a amizade de Ernie ajuda Dud a ultrapassar aquele momento complicado da sua vida. Muito importante também é o sentido de pertença que Dud sente no seio da ordem e junto daquelas pessoas que dela fazem parte.

Mr. Shaibel [The Queen’s Gambit]: Beth foi introduzida ao mundo do xadrez por um relutante Mr. Shaibel, o contínuo do orfanato para onde Beth foi levada depois da morte da mãe. A ligação entre os dois parece resumir-se ao xadrez, mas descobrimos, muito mais tarde na história, que Mr. Shaibel seguiu a carreira de Beth no xadrez, o que demonstra que se preocupava genuinamente com ela. É também justo dizer que o xadrez foi uma espécie de escape para Beth durante a sua infância e Mr. Shaibel proporcionou-lhe isso.

Harry Quebert [The Truth About the Harry Quebert Affair]: Marcus foi aluno de Harry na faculdade e daí surgiu uma amizade que marcaria as vidas de ambos. Harry é um conceituado autor, responsável por um daqueles grandes e raros romances que ficam para a história. Marcus era um aspirante a escritor que acabou também por encontrar o sucesso (e a riqueza) muito jovem, com o seu primeiro livro, e que posteriormente se vê à nora, completamente bloqueado em termos criativos. Decide então entrar em contacto com o antigo professor e mentor, em busca de conselhos, e ruma até à sua idílica casa, no Maine. No entanto, aí descobre verdades sobre o passado de Harry que deixariam, no mínimo, qualquer um de pé atrás, mas a confiança de Marcus em Harry é total e mostra que, para além da relação mentor/aluno, há uma amizade forte.

Grace Rasmussen [Unbelievable]: Karen é uma polícia que se vê a trabalhar com uma agente mais velha num caso de violação que depois se descobre estar relacionado com uma série de outros. As duas são bastante diferentes, com Karen a representar o idealismo de quem é apaixonada por aquilo que faz, e Grace e ser a voz da experiência. Contudo, são igualmente profissionais e dedicadas ao seu trabalho, em descobrir a verdade e fazer justiça e formam uma dupla muito equilibrada, mas quando se dá uma importante reviravolta no caso, Grace deixa que seja Karen a fazer a detenção do suspeito. Os anos não tornaram Grace indiferente à tragédia que está tantas vezes associada ao seu trabalho, mas ela sente (e o espectador também) que Karen precisa de uma espécie de uma ‘vitória’ e a detenção simboliza precisamente isso. Apesar da diferença de idades e de experiência, é também seguro dizer que ambas tiveram muito a aprender com a outra.

Diana Sampaio