Casa-Abrigo: Entrevista ao realizador e elenco
| 29 Out, 2025

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O Séries da TV teve a oportunidade de fazer algumas perguntas a Márcio Laranjeira, o criador, argumentista e realizador de Casa-Abrigo, bem como às cinco protagonistas, e aqui fica o resultado. Relembramos que o drama estreou esta semana o primeiro episódio na RTP1, mas que já podes ver a série completa na RTP Play.

Séries da TV: Antes de mais, excelente escolha de tema. É este o tipo de histórias que às vezes parecem faltar na ficção nacional. Temas importantes, socialmente relevantes e delicados de abordar. E que, neste caso, vêm de “uma história pessoal que se desdobra em outras histórias”. Quer explicar melhor como surgiu a ideia para a série e como foi todo o processo? Já tinha uma ideia da história que queria contar quando começou a escrever ou tudo tomou forma à medida que ia avançando?

Márcio Laranjeira: Assim que percebi que contar uma história pessoal num filme deixava de fora as outras histórias (tanto as que se passavam à minha volta como as que eu desconhecia), entendi que precisava de contar esta história noutro formato, porque a violência doméstica é, infelizmente, um tema episódico, não se fecha numa situação isolada. Mas no processo de escrita e pesquisa compreendi que não queria violentar as personagens, queria contar a história invisível de resiliência que as mulheres vivem depois da difícil decisão de abandonarem as suas próprias vidas para começarem do zero, num lugar que desconhecem, onde não têm quaisquer laços afetivos, o suporte familiar está longe e ninguém sabe onde elas estão. Foi um processo imersivo. Durante dois anos só li livros escritos por mulheres, conheci casas de abrigo, falei com mulheres que partilharam o seu testemunho e quando estamos num processo destes percebemos como este tema está tão presente anonimamente em rede em cada um de nós, descobrimos como faz parte de um tecido cultural que herdamos e continuamos a viver em silêncio. Os números que conhecemos são uma amostra do real. A realidade da violência doméstica é avassaladora e estou muito seguro de que vamos encontrar um eco de nós nas personagens. Por isso o casting foi tão precioso, tão importante encontrar as atrizes certas para estes papéis. Foi um processo delicado que agora é possível ver, sentir, acompanhar e que nos comovemos com elas. Mas também nos tornámos, como elas, mais resilientes. Ninguém ficará indiferente à Casa-Abrigo.

SdTV: Em Glória também deu vida a uma mulher vítima de violência doméstica. Como é entrar na pele destas personagens com uma carga emocional pesada? E como é voltar à vida normal? É fácil ‘despegar-se’ das Sofia e das Veras que interpreta ou é algo que fica consigo?

Maria João Pinho: Entrar na pele destas personagens é um ato de generosidade e respeito por todas que vivem, infelizmente, esta situação. Exige um estudo do texto, exige pesquisa e no set tenho de estar hiper focada para poder naquele momento juntar tudo que recolhi e com a contracena poder aproximar-me do que acho que é estar naquele lugar. Durante o processo de estudo e rodagem, a “personagem” acompanha-me, mas não deixo que influencie demasiado. Tento!

SdTV: Numa série em que os laços entre mulheres são uma parte essencial da narrativa, é importante transparecer essa química para este lado do ecrã. Como foi criar esse “laço afetivo”? Sabemos que tiveram projetos anteriores em comum, mas já se conheciam bem?

MJP: É, a meu ver, fundamental que o elenco crie empatia e confie uns/umas nos outros/outras. Tudo flui de uma forma mais natural, menos representada. Nem sempre acontece… mas nesta série foi química pura entre nós e isso sente-se.

Filomena Gigante: Nunca tinha tido projetos em comum com as minhas colegas, mas, logo no primeiro encontro para leitura dos episódios, senti que íamos criar uma cumplicidade durante as filmagens. Efetivamente, foi isso que aconteceu. Criámos uma ótima amizade e cumplicidade. Em grande parte, dado o tema e o estarmos a representar histórias verídicas de mulheres como nós. É um tema premente e, infelizmente, cada vez mais na ordem do dia. Não foi fácil retratar o recomeço destas mulheres e isso criou uma união entre todas.

Ana Sofia Martins: Foi fácil criar este laço afetivo com mulheres que admiro muito, desde a Leonor Silveira, a Rita Cabaço, a Filomena Gigante. Já tinha trabalhado com a Maria João Pinho em Glória e já tínhamos criado laços. Foi fácil porque todas nós entendemos rapidamente a missão que tínhamos em mãos e a única maneira de fazer isso transparecer é nós próprias sentirmos a responsabilidade e percebermos que só com grande sentido de união e de sororidade se consegue transmitir o ambiente que se vive numa casa abrigo.

Rita Cabaço: Parece-me que apesar de algumas de nós já nos conhecermos, a ligação que transparece no ecrã nasceu por “culpa” das personagens e das suas histórias. Foram as personagens que nos aproximaram e não o contrário. A abordagem ao processo proposta pelo Márcio também ajudou. Desde uma fase embrionária do projeto que estamos envolvidas no destino destas mulheres e na forma como se relacionam entre elas. Nós as cinco somos pessoas e atrizes com características muito diferentes, acho que o Márcio soube aproveitar isso de forma a jogar e a enriquecer os diferentes tons da série.

Leonor Silveira: Foi um processo muito natural. O laço afetivo entre nós não foi algo que precisou ser forçado – ele foi surgindo de forma muito orgânica. Já nos conhecíamos, algumas, de outros trabalhos, mas a base de respeito e de admiração foi um alicerce. Mas, nesta série, o contacto diário e a intensidade das cenas acabaram por criar uma relação ainda mais próxima e ajudou a construir uma confiança que se reflete nos personagens. A verdade é que, quando existe afeto real, o público sente. A série fala de temas muito sensíveis: de apoio, de resistência, de como as mulheres se sustentam umas às outras em contextos difíceis. Foi fundamental a relação que estabelecemos entre nós e toda a equipa.

SdTV: Há alguma mensagem em concreto que gostavam que as vossas personagens transmitissem aos espectadores?

MJP: Desejo só que as pessoas sejam mais cuidadosas e empáticas umas com as outras. Precisamos tanto disso! 

FG: Gostaria que as pessoas ficassem mais atentas a este tipo de violência, muitas vezes física, mas também psíquica, e sentissem que é necessário a nossa sociedade educar as pessoas a pensarem, neste caso, nas mulheres como iguais aos homens, com os mesmos direitos, e não como seres inferiores que lhes “pertencem”.

ASM: A mensagem que quero que fique para os telespectadores é que é sempre importante denunciar e é importante perceber que a violência não é só física, também é psicológica e que todos nós enquanto sociedade temos responsabilidades de uns para os outros, com os outros. Longe vão os tempos em que ‘entre marido e mulher não se mete a colher’. No presente é importante cuidarmos uns dos outros e termos atenção às mensagens, mesmo que silenciosas, que as vítimas nos possam transmitir.

RC: Acho que a série pode comunicar de variadíssimas formas com o público e espero que o faça, mas se nos puder aproximar a todos de realidades que nem sempre têm espaço para ser abordadas de uma forma séria e aprofundada, acredito que sairíamos todos a ganhar.

LS: Que pedir ajuda e apoiar-nos umas às outras é fundamental. Que ter voz, outra vez, é sempre um direito. É sobre empatia, solidariedade e força e a importância de quebrar o silêncio, as vergonhas e matar o medo. Que a série seja mais uma ajuda a quem precisa!

Créditos das imagens: RTP

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