A Colecionadora, a nova série de terror e fantasia da RTP1, com este primeiro episódio acerta no ambiente e no tom, mas infelizmente não no resto. A ação decorre numa aldeia situada na raia entre Portugal e a Galiza, um cenário perfeito para este tipo de narrativa. É uma região que, pelo isolamento, pelas magníficas paisagens montanhosas, pela aldeias típicas e pelas florestas densas parece feita à medida para histórias de mistério, lendas e sobrenatural.
Tendo família transmontana, cresci a ouvir histórias sobre fadas, princesas encantadas, sinos transformados em pedra que ainda tilintam, fim do mundo e toda uma série de lendas populares que fazem parte do imaginário da região. Por isso, para além de ser um aficionado de séries de mitologia, terror e fantasia, este folclore local fascina-me ainda mais. Nesse aspeto, a produção está bem conseguida. Os cenários, a fotografia e o ambiente permanentemente sombrio conseguem transportar-nos para esse mundo e criar a atmosfera certa.
O problema surge depois, quando entramos verdadeiramente na história. As atuações raramente se destacam e existe muito pouco desenvolvimento das personagens. São todas demasiado superficiais e unidimensionais. Até João Arrais, de quem gostei bastante em Soldado Milhões, acaba por não deixar grande marca. Isso leva-me a acreditar que o principal problema não está propriamente no elenco, mas sim no argumento.
As motivações das personagens e o desencadeamento dos acontecimentos nunca ficam totalmente claros. Muitas situações parecem simplesmente acontecer porque o guião assim o exige. Tudo soa demasiado fabricado e previsível. O grande twist final falha em dois aspetos fundamentais: primeiro, porque dificilmente pode ser considerado uma verdadeira reviravolta, já que é bastante fácil percebê-lo logo nos primeiros minutos; segundo, porque a decisão de o guardar até ao final acaba por retirar peso a tudo o que acontece antes. Em vez de enriquecer a narrativa, enfraquece-a.
Cada episódio contará uma história diferente, tendo apenas em comum a estranha loja de artefactos gerida por uma figura misteriosa, por isso não sei como serão os restantes episódios. No entanto, este primeiro deixa uma sensação de oportunidade perdida. Há uma premissa interessante, um excelente cenário e uma produção competente, mas falta-lhe o essencial: personagens cativantes, uma narrativa envolvente e a capacidade de surpreender.
É pena, porque desde o Coisa Ruim que esperava ver uma nova incursão portuguesa neste universo de mitologia popular. A Colecionadora tinha todos os ingredientes para isso, mas, pelo menos neste arranque, nunca consegue verdadeiramente agarrar ou sequer convencer-me a voltar para mais.
A Colecionadora estreia hoje o primeiro episódio, às 22h30, na RTP1, e fica também disponível na RTP Play.
Créditos da imagem: Coral Europa