Estreou a semana passada na Apple TV a minissérie Cape Fear, inspirada no livro The Executioners, de John D. MacDonald, que já tinha dado origem a duas adaptações, mas ao cinema, em 1962 e 1991. Não li o livro, nem vi nenhum dos filmes, portanto esta história é completamente nova para mim e estou a tentar digeri-la porque este primeiro episódio tem um certo tom perturbador capaz de deixar o espectador desconfortável. Não no sentido de ter medo, mas… É uma vibe creepy, para a qual muito contribuiu o departamento de som e a prestação de Javier Bardem. O ator é ótimo nestes papéis e reconheço-lhe o talento, mas não sou propriamente uma fã. Pelo contrário, adoro o trabalho de Amy Adams, mas não achei que tivesse brilhado aqui.
A trama centra-se em Anna (Adams) e Tom Bowden (Patrick Wilson), um casal de advogados que, há vários anos, contribuíram para a prisão de Max Cady. Anna era a advogada de Max e tudo o que conseguiu foi evitar-lhe a pena de morte, enquanto Tom era o procurador do lado da acusação. Atualmente, Anna dedica-se a ajudar a tirar da prisão pessoas que foram condenadas injustamente, mas a sua vida e a da família é seriamente perturbada quando Cady sai em liberdade, algo pelo qual Anna não foi responsável.
O primeiro episódio de Cape Fear, desde o início, transmite um certo desconforto. Mesmo antes de alguma coisa remotamente desagradável ter acontecido, percebe-se que os personagens não estão em segurança e que algo de muito mau irá abater-se sobre eles. A banda sonora diz-nos isso, os alarmes sempre a disparar sem nenhum motivo aparente também… E a própria família parece ser feliz, mas não estou nada convencida de que o seja. Só que essa suposta vida normal tem os dias contados com a libertação de Cady, que é muito o arquétipo do vilão.
Cape Fear tem muito de cinematográfica. Não sei explicar a sensação (embora Martin Scorsese e Steven Spielberg sejam produtores executivos), mas estava a ver o episódio e a pensar: isto parece um filme! Acho que nunca me tinha acontecido, mas foi uma sensação que me acompanhou durante boa parte dos 50 e tal minutos de episódio. Houve outra coisa que me deixou desconfortável: o quanto Noa, colega de Anna (e mentora?), estava descontraída com a libertação de Max. Como é que ela não achou que uma coisa dessas poderia ser perigosa ou, pelo menos, intimidante? Apesar de um bom elenco e banda sonora, a série não me conseguiu prender ao ecrã. Não senti uma ligação aos personagens e não fiquei com curiosidade em perceber como tudo se vai desenrolar. Ficar com zero interrogações depois de ver uma série destas é sinal suficiente para mim para me deixar ficar por aqui. A última cena é bastante boa, mas perde um bocado o impacto porque se passa o episódio à espera de algo extremo e trata-se apenas dessa concretização.