Estreou ontem na RTP o primeiro episódio da nova série portuguesa Amadeo, que retrata a vida de Amadeo de Souza-Cardoso, um dos mais importantes pintores portugueses e um dos pioneiros da arte moderna no nosso país. O primeiro episódio deixou-me com uma boa impressão. Já tinha ouvido falar dele, claro, e tinha uma noção geral da sua importância no panorama artístico da época, mas sabia muito pouco sobre a sua trajetória. Nesse sentido, a série conseguiu despertar a minha curiosidade.
A narrativa recorre a vários saltos temporais para contar a história de Amadeo. Conhecemos os seus primeiros anos como estudante em Paris, onde privou com alguns dos maiores nomes da arte moderna, como Modigliani e Picasso. É interessante perceber que, numa época em que Paris fervilhava artisticamente e onde nasciam alguns dos movimentos que iriam mudar a história da arte, um pintor português fazia parte desse meio.Gostei particularmente do contraste visual entre essa Paris vibrante, cheia de cor e de vida, e o regresso forçado a Portugal devido ao início da Primeira Guerra Mundial. A fotografia parece utilizar essa diferença cromática como um reflexo do estado de espírito de Amadeo, trocando a exuberância parisiense por uma atmosfera muito mais cinzenta e melancólica.
Outro aspeto que achei especialmente interessante foi a forma como Amadeo e o também pintor Eduardo Viana acabam envolvidos num caso de suspeitas de espionagem, motivado pela proximidade que mantinham com o casal de artistas Sonia e Robert Delaunay, refugiados em Portugal durante a guerra. Desconhecia completamente este episódio da vida de Amadeo e fiquei curioso para perceber como a série irá desenvolver essa parte da história.
Em termos de interpretações, Rafael Morais destaca-se no papel de Amadeo. A sua representação é bastante natural e consegue transmitir bem as diferentes fases emocionais do pintor ao longo do episódio. Também a realização merece elogios. Não é fácil recriar o início do século XX de forma convincente, mas a fotografia, os cenários, os figurinos e o enquadramento ajudam bastante a transportar-nos para aquela época, achei particularmente interessante o jogo de planos mais longos ou mais fechados, ou uso de sons e de efeitos práticos, para nos levar até onde queria, sem ter de mostrar muito, não comprometendo assim o realismo da época.
No geral, gostei deste primeiro episódio. Achei-o interessante, bem executado e, acima de tudo, despertou-me a curiosidade para conhecer melhor uma figura marcante da cultura portuguesa de quem, afinal, sabia bastante menos do que pensava. Provavelmente, vou acompanhar o resto da série.
O primeiro episódio de Amadeo já está disponível na RTP Play. Os restantes episódios serão exibidos às segundas-feiras na RTP1 e ficarão também disponíveis na RTP Play.