Em homenagem ao Dia da Mulher, que se celebrou no início da semana, quero falar de uma série pouco conhecida cá em Portugal, mas da qual gosto muito, Call the Midwife, e que ao longo dos últimos nove anos se tem dedicado a contar uma infinidade de histórias relevantes sobre mulheres, sobretudo.

A trama passa-se nos anos 50 e 60, no East End londrino, e centra-se num grupo de enfermeiras parteiras, várias delas Irmãs de uma ordem religiosa anglicana, e suas pacientes. East End está longe de ser uma zona abastada e são vários os problemas presentes nesta comunidade, mas muitos deles são comuns a qualquer outro sítio: há pobreza, há racismo, há solidão, há prostituição, há violência, há alcoolismo… Call the Midwife aborda todos os temas de uma forma delicada, ponderada, e consegue sempre tocar e emocionar o espectador, mas sem cair em sentimentalismo barato. Ainda agora há questões que continuam a ser tabu, mas que nem por isso deixam de existir, tal como já existiam há 60 ou 70 anos. Havia pessoas que amavam outra do mesmo sexo e tinham se esconder, porque ninguém podia desconfiar. Neste caso, se se fosse mulher, menos mal, porque não era ilegal. Os homens não gozavam da mesma sorte e podiam ser presos por isso. Havia mulheres que não podiam ou não queriam ter filhos e que não podiam recorrer ao aborto da forma como o podemos fazer hoje em muitos países. Portanto, tentavam resolver a questão da forma como podiam e que, não raras vezes, podia resultar na sua morte ou deixá-las seriamente doentes. Foi precisamente a pensar neste tema em específico que decidi escrever esta crónica, mas não vou direta ao assunto, porque há muitas mais coisas a dizer sobre a relevância de Call the Midwife enquanto série que retrata a realidade de se ser mulher, seja qual for a década em que se nasceu.

Apesar de ser uma série que nos dá a conhecer bastante sobre a época em que é passada, com a criação do Sistema Nacional de Saúde britânico, a introdução da pílula contracetiva, a questão da vacinação, a descoberta dos malefícios do tabaco e o medo de uma guerra nuclear, quando a lembrança da Segunda Guerra Mundial ainda estava tão presente, Call the Midwife é, acima de tudo, uma história em que o verdadeiro foco são as pessoas e as relações humanas. A sério, acho que em nenhuma outra série me deparei com um grupo tão genuíno de seres humanos, mulheres e homens, verdadeiramente bons, daqueles que nos fazem acreditar que o mundo podia realmente ser um lugar melhor se existissem mais como eles. Nunca de uma forma condescente, nunca de uma forma forçada. São pessoas que, pela natureza da sua profissão, pelo que simboliza a Nonnatus House, o sítio para o qual trabalham (e onde vivem também, como uma família), têm a generosidade e a bondade no seu ADN. Estas enfermeiras/parteiras são o melhor que qualquer paciente poderia esperar. Além de profissionais competentes e diligentes, não julgam as vidas das outras pessoas, seja qual for a situação, e o seu trabalho vai muito além de fazer bebés nascer ou tratar enfermidades, passando também por assegurar o bem-estar emocional e as necessidades das suas pacientes. É justo dizer que as pacientes são parte integrante da família alargada da Nonnatus House e esqueçam aqui o cliché de as freiras serem severas e com códigos de conduta moral muito rígidos.

Tal como já referi, a série tem debatido imensos temas fortes e relevantes, tendo acertado no tom com que o faz. No entanto, tenho que destacar a abordagem feita recentemente à questão do aborto. Estava longe de imaginar que o episódio de estreia da 8.ª temporada (a cada início de temporada antecede-se um especial de Natal) me arrasasse completamente, algo que é sempre bom, porque não há nada como estarmos a ver algo e sentirmos as emoções à flor da pele. O episódio deu que falar pela positiva (mas não só) e adorava partilhar um vídeo que mostrasse algumas das melhores cenas, mas não encontrei nada no YouTube, portanto tudo o que posso fazer é descrever a situação e o quanto Call the Midwife deixa uma pessoa a refletir sobre determinadas questões. É assim que as séries são relevantes e esta é-o desde o primeiro dia.

Vamos então ao tal episódio, que acho que recordarei sempre como o melhor de toda a série. A protagonista desta grande história é Cath Hindman (interpretada por Emily Barber, de The Alienist), a irmã de uma das pacientes da Nonnatus House. No entanto, a verdade é que a própria Cath também estava grávida e tinha feito um aborto. Já não me lembro exatamente das circunstâncias, mas creio que Cath era solteira e todos sabemos o quanto a sociedade dificultava a vida de uma mulher que estivesse grávida e não tivesse um marido. Seja como for, por algum motivo, ela recorreu a alguém para fazer um aborto. Só que, como tantas vezes nestes casos, o aborto foi mal feito. Cath percebeu-o, sabia que alguma coisa estava errada, mas não pediu ajuda por medo de ser presa. Estamos a falar de há muito tempo atrás, mas há países, não tão longe de nós quanto isso, em que estas coisas continuam a acontecer e deixa-me revoltada. Não se permite a uma mulher que decida aquilo que quer fazer com o seu corpo, com a sua vida, e ainda se decide puni-la por tomar a decisão que ela viu como a única saída de uma situação complicada. Se não fossem estas parteiras (uma delas uma jovem de uma idade aproximada da minha; outra, uma freira mais velha), Cath teria morrido, com toda a certeza. E não morreu, mas passou por um sentimento atroz, físico e emocional. Cath teve a sorte, que muitas não têm, de ter tido com ela pessoas que, tal como a Irmã Julienne referiu, têm como papel estar ao lado das mulheres. Sem julgamentos. Um julgamento que os apoiantes dos movimentos pró-vida ainda se sentem no direito de fazer (movimentos pró-vida na questão do aborto, mas defensores da pena de morte, muitas das vezes). Sim, porque o episódio incomodou muita gente. Quando assim é, sabemos que está a ser feita boa televisão.

É sinal de uma história bem contada, mas a verdade é que Call the Midwife é aquele tipo de série de deixar uma pessoa com um sorriso pateta de tão doce e instigadora de esperança que é. E poucas são as séries que me deixam assim!

Esta história muito específica pareceu servir de mote um pouco para o resto da temporada, quando descobrimos que a avó de uma das parteiras, precisamente Valerie, que ajudou Cath, tem feito abortos ilegais. Também aqui se levantam muitas questões. OK, talvez algumas destas mulheres que praticam abortos queiram ajudar quem as procura, mas a verdade é que muitos destes abortos acabam mal. Trata-se de carnificina, mas para muitas não há outra opção. O que, para mim, me diz tudo o que preciso sobre o aborto. Haverá sempre quem recorra a ele, por isso não devia ser obrigação de qualquer sociedade garantir que são feitos em segurança e que nenhuma mulher é tratada como uma criminosa por tomar a decisão de abortar?

Diana Sampaio