Há personagens que, logo ao início, mostram aquilo que são e não mudam muito. O que não é necessariamente mau, nem necessariamente bom. No entanto, é inevitável considerar interessante quando os personagens nos mostram camadas diferentes da sua personalidade, quando crescem e revelam ser muito mais do que aquilo que inicialmente pareciam. É claro que as surpresas em termos de personagens nem sempre acontecem pela positiva, mas as minhas escolhas para esta crónica são nesse sentido. Há aqui personagens de quem gosto bastante, mas na generalidade não são os meus favoritos e o destaque vai mesmo para o crescimento que tiveram e para o quanto se revelaram boas surpresas.

Bonnie Carlson (Big Little Lies): Ficava surpreendida se me dissessem que tinha sido só eu a achar que Bonnie se tornou uma personagem muito mais interessante na 2.ª temporada de Big Little Lies. Está longe de ser a minha personagem favorita da série (esse lugar pertence a Madeline, com Renata a ficar em segundo lugar), mas Bonnie teve muito mais destaque do que anteriormente e uma das histórias mais cativantes da 2.ª temporada. Quer dizer, ela já tinha tido um papel muito importante anteriormente, ao livrar o mundo de um sacana como Perry quando ele se preparava para voltar a fazer mal a Celeste, mas foi só depois que me conquistou verdadeiramente. Bem, se há coisa que aprendemos – eu, Madeline e provavelmente mais uma série de espectadores – é que a vida aparentemente perfeita de Bonnie estava longe de o ser. A morte de Perry afetou-a muito e o facto de Bonnie e as outras, Celeste, Madeline, Renata e Jane, guardarem o segredo do que aconteceu também não ajudou em nada. Então, as outras quatro são basicamente as únicas pessoas com quem Bonnie se pode abrir e a verdade é que ela se fecha para as outras pessoas na sua vida e o seu casamento com Nathan ressente-se imenso. Nathan que, pelos vistos, ela nunca amou verdadeiramente. Porque o trauma de ter uma mãe abusiva foi algo que Bonnie nunca conseguiu deixar para trás e toda a sua vida e as suas relações foram condicionadas por isso. Não estava à espera de nenhuma destas coisas e muito menos imaginava que a Bonnie de espírito livre da 1.ª temporada se revelasse uma mulher que carregava o peso do mundo nos ombros.

Bram Bowman (Colony): Bram passou a 1.ª e a 2.ª temporadas a envolver-se em problemas. As suas intenções eram boas e queria fazer alguma coisa pela Resistência, mas a sua juventude e a sua inexperiência estavam sempre a colocá-lo em situações limite e não é exagerado dizer que é uma sorte que o personagem tenha chegado vivo à última temporada da série, mas ainda bem que chegou. O personagem, que eu considerava bastante irritante (para ser sincera, na generalidade, os adolescentes irritam-me), viu-se obrigado a crescer quando os pais perderam completamente o rumo depois de terem perdido Charlie, o filho do meio. Como mais velho, Bram passou então a assumir o papel de pessoa responsável na vida da irmã, Gracie. Apesar de ainda ser muito novo, Bram tornou-se um homem com H grande ao estar presente quando os pais estavam quase sempre ausentes, fosse física ou emocionalmente. O jovem deu então um rumo à sua vida, fez os possíveis por arranjar um bom trabalho que lhe permitisse levar uma vida confortável e dar estabilidade à irmã. É uma pena que, ao perderem um filho, Katie e Will quase se tenham esquecido que tinham mais dois que continuavam a precisar deles, em especial se tivermos em conta que Gracie ainda era muito novinha. No entanto, Bram mostrou-se mais do que à altura e foi o melhor irmão mais velho que uma menina podia desejar.

Jo Wilson (Grey’s Anatomy): É Wilson ou ainda é Karev o apelido de Jo? Acho que voltou a ser Wilson. Tenho de confessar que durante uma série de temporadas não achava piada nenhuma a Jo. Ela estava longe de ser uma interna interessante – esse papel era de Stephanie – e destacou-se sobretudo como interesse amoroso e eventual namorada de Alex, mas também como amiga da própria Steph. Era uma daquelas personagens que eu não via como tendo grande identidade, mas sempre associada às suas relações com os outros. Eventualmente, as coisas mudaram muito para Jo. A personagem começou a crescer bastante como médica e teve direito a histórias que se revelaram algumas das melhores nos últimos anos de Grey’s Anatomy. Jo não teve uma vida fácil. Esteve desde muito cedo entregue a ela própria, viveu no carro, foi vítima de violência doméstica… Foi quando começámos a mergulhar no passado de Jo que a personagem passou a ter profundidade. Toda a história de ela ter tido que voltar a encarar o seu agressor foi boa e uma excelente oportunidade para a série pegar em questões socialmente relevantes, mas o melhor ainda estava para vir, quando Jo partiu à procura de respostas sobre o seu passado e conheceu a mãe que a tinha abandonado. Depois disso, surgiu uma nova fase muito complicada na vida da personagem, mas foi igualmente interessante vê-la a lidar com os seus fantasmas e com a depressão, para depois se reerguer mais forte do que nunca. Nunca esperaria dizer que alguns dos episódios mais relevantes da série médica nestas últimas temporadas se deveram a Jo e às suas storylines. Ela revelou ter imensas camadas e uma resiliência incrível que me faz admirá-la e a forma como foi capaz de lidar com o repentino fim que a sua relação com Alex teve só me fez ter ainda mais respeito por ela. Espero que Jo continue a surpreender-me pela positiva nesta 17.ª temporada, porque ainda estou a tentar perceber se estou curiosa ou não em relação a um possível envolvimento dela com Jackson. 

Mia Warren (Little Fires Everywhere): Confesso que no início não gostei nada de Mia. Não consigo explicar porquê e acho que se tratou mais de uma sensação do que qualquer outra coisa. Continuo a não gostar especialmente da personagem, mas conhecer o seu passado, ver a sua relação com Pearl e a forma como estabeleceu uma ligação com Izzie e como ajudou Lexie quando esta precisou fizeram-me vê-las com outros olhos. Ok, ela tem defeitos e talvez pudesse ter feito certas coisas de forma diferente, mas acho que ela fez aquilo que realmente achava que era o melhor. Sob a minha perspetiva, foi precisamente isso que a levou a ajudar Bebe a tentar recuperar a bebé, provavelmente movida também pela sua própria experiência enquanto jovem mãe numa situação difícil. Penso que seria ingénuo ignorar que Mia também queria comprar uma guerra contra Elena, mas é claro que esta última faz as coisas segundo as suas próprias motivações e pouco lhe importa pôr-se no lugar dos outros ou fazer as coisas pelas razões certas, contrariamente a Mia, que tem o coração no sítio certo, mesmo quando as decisões não são as melhores.

Zelena (Once Upon a Time): Eu adoro vilãs e Zelena era certamente uma, mas a verdade é que ela chegou a Once Upon a Time destinada a infernizar a vida de Regina, coisa que me cai sempre mal. Enquanto Regina me conquistou completamente enquanto Evil Queen desde o primeiro minuto, precisei de ver Zelena começar a mudar completamente e a mostrar-nos um outro lado para começar a gostar dela. Já não me recordo do momento de viragem em que a personagem me começou a conquistar, mas a verdade é que ela se tornou a minha segunda favorita da série. Há semelhanças entre o percurso de Regina e Zelena, com as duas a serem muito marcadas, embora de formas completamente diferentes, pelas ações da mãe, Cora, e a traçarem um longo caminho de redenção para se tornarem pessoas melhores. Zelena nunca teve ninguém. É poderoso o que isso pode fazer a alguém e Zelena ficou literalmente verde de inveja em relação à irmã, de quem se ressentia por ter tido aquilo que ela nunca teve. Acho que até é mais fácil uma pessoa sentir empatia por aquilo que Zelena passou. Ela era uma menina que cresceu a desejar simplesmente ser amada. Não desculpa as coisas que fez, mas diz-nos que ela não é verdadeiramente má. Se há coisa que Zelena é, é verdadeiramente divertida. E aquele sotaque! A certa altura é impossível não gostar dela. Vê-la a desenvolver uma relação com a irmã, vê-la a lidar com o abandono da mãe, a lidar com o facto de que estava a esforçar-se para se tornar uma pessoa melhor foi muito interessante. Vê-la a apaixonar-se por Hades e ser capaz de sacrificar esse amor por ser o que estava certo foi imensamente satisfatório. Zelena teve ainda o mérito de ser uma das melhores coisas na terrível última temporada da série.

Nathan Scott (One Tree Hill): Este miúdo era um verdadeiro sacana e estava bem encaminhado para se tornar num imbecil igual ao pai, mas teve a sorte que uma rapariga chamada Haley James tivesse entrado na vida dele. Não se pode tirar créditos a Nathan pela sua própria transformação num ser humano tão melhor, mas Haley também não pode ser esquecida nesta questão, porque foi o motivo pelo qual ele quis passar a ser uma pessoa diferente. De puto convencido, arrogante, que tratava a namorada, Peyton, como se esta não valesse nada, Nathan passou a ser o rapaz que estava disposto a mostrar as suas vulnerabilidades e a enfrentar o pai para ser alguém com quem Haley teria orgulho em estar. A relação dos dois avançou muito depressa e poderia ter sido uma enorme precipitação, mas acho que os dois sabiam o que estavam a fazer. Que Nathan, sobretudo, sabia o que estava a fazer. Haley foi, provavelmente, a primeira coisa que ele amou verdadeiramente, para além do basquetebol, e percebeu que não queria viver sem ela. A partir daí, o antigo Nathan morreu e uma versão muito melhorada surgiu. Tornou-se um bom namorado, um bom marido, um bom pai e até um amigo melhor, construiu uma relação com o irmão e, no geral, livrou-se das coisas tóxicas da sua vida. Tivemos um vislumbre do antigo Nathan mais à frente, numa altura em que este estava a passar por um momento sombrio, depois de ter sofrido um acidente grave que o deixou agarrado a uma cadeira de rodas, mas acho que ninguém duvidou que o Nathan bom voltaria a vir à tona, só precisava de perceber que as coisas e as pessoas mais importantes da sua vida continuavam ali. No entanto, essa fase foi uma daquelas histórias de que One Tree Hill não precisava. Não porque isso manchou a imagem da pessoa em quem Nathan se tornou, mas porque não fez sentido depois de todo aquele crescimento. Perdoemos os argumentistas, porque nem One Tree Hill é perfeita.

Elektra (Pose): Pode-se dizer que Elektra é aquilo que a maioria das pessoas consideraria uma verdadeira… hum, bitch? Eu concordo, certamente. No entanto, cliché dos clichés – mas há clichés bons e que existem porque resultam e este é um deles -, a verdade é que a bitch não é só isso. Acho que não é suposto gostar-se muito de Elektra, mas é difícil não a admirar, depois da forma como levou para a frente a cirurgia que a tornou numa mulher em todos os aspetos, apesar de ter passado por isso sozinha. No entanto, apesar de esta ter sido a transformação de que Elektra precisava na sua vida, acho que foi o aproximar de Blanca que a transformou numa pessoa melhor. Blanca tem o condão de ser aquele tipo de pessoa que faz sobressair o melhor nos outros e isso resultou com Elektra. Saber que, mesmo agindo como se desprezasse o mundo inteiro, havia pessoas que estariam lá para ela, fez com que ela se abrisse um pouco e suavizasse a sua postura e atitude. É claro que Elektra não deixa de ser insultuosa, indelicada, um bocado agressiva com as palavras e continua a achar que é a rainha do mundo, mas não é assim tão má quanto isso. E a verdade é que também tem imensa piada e ninguém pode dizer que não é realmente a rainha dos ballrooms

Wendy Case (Sons of Anarchy): Bem, os personagens de Sons of Anarchy são complicados. Estão quase sempre todos metidos em problemas ou não fosse esta a história de um clube de motoqueiros envolvidos em atividades ilegais e perigosas e há em muitos deles uma lealdade cega que tantas vezes os impede de fazer a coisa certa. Bobby, Piney e Nero eram bons homens, Wayne era o tipo que andava por ali a tentar manter a paz, mas as suas vidas, para o bem e para o mal, orbitavam à volta do clube. Passaram-se muitos anos desde que retomei a 2.ª temporada, depois de inicialmente me ter ficado pela primeira, e a única coisa que me lembrava acerca de Wendy é que era mãe de Abel e que se drogava. Ela esteve fora de cena durante muito tempo, mas sabia que, eventualmente, voltaria. Ainda bem que o fez! Não me vou pôr com paninhos quentes e fingir que Wendy não esteve ausente da vida do filho nos primeiros anos de vida dele. No entanto, a verdade é que também ninguém a queria por perto e enquanto ela não resolvesse os seus próprios problemas não seria capaz de tomar conta dela mesma, quanto mais de uma criança e ser mãe. Portanto, ela voltou quando achou que tinha condições para o fazer, sóbria, com um trabalho decente e a vida organizada. Foram alguns anos, mas a verdade é que Abel ainda era bastante novinho quando ela regressou, achei que era justo considerar que ainda vinha a tempo de fazer parte da vida dele. Aquilo que admiro em Wendy é o facto de ela ser uma das poucas personagens da série que consegue manter um distanciamento seguro em relação ao clube. É claro que ela já não tem uma relação com Jax, mas acho que teria sido fácil ela agarrar-se ao mundo que já conhecia e não o fez. Ela voltou para tentar fazer parte da vida de Abel, mas não se impos e apesar de ter sido arrastada para as guerras de Gemma e Tara e de Jax, num dos seus golpes mais baixos, a ter drogado, soube sempre gerir muito bem as situações e tentou manter-se à margem de problemas. Quando não pôde, escolheu o lado certo, mostrou ser uma mulher de garra e que a sua única preocupação era manter o menino dela, mas também Thomas, o irmãozinho mais novo dele, seguros. Não há uma ponta de maldade em Wendy. Ela não manipulou nem magoou ninguém ou fez joguinhos, revelou ser alguém fiável, uma mãe com quem aquelas crianças poderão contar.

Phoebe (The Kominsky Method): É suposto que Phoebe seja um verdadeiro desastre como pessoa, uma adulta de 40 e tal anos que dá aos pais as mesmas dores de cabeça que uma adolescente rebelde e que se debate com problemas de dependência que já lhe valeram uma série de internamentos em clínicas de reabilitação. Contudo, quando é dada profundidade à personagem e vemos a sua vulnerabilidade por detrás da imagem de party girl e o seu esforço em emendar os erros e em fazer as pazes com aqueles que desiludiu ao longo do tempo, o seu crescimento é notório. Alan é uma pessoa complicada, talvez não tenha sido fácil crescer como filha dele. Talvez não tenha sido fácil lidar com o facto de o pai estar sempre à espera do pior dela. Talvez simplesmente tenha sido difícil para Phoebe afastar-se dos maus caminhos, independentemente dos seus pais. Isso nunca vamos saber. O que é sabido é que Phoebe fez um verdadeiro esforço e está a fazer tudo ao seu alcance para se afastar da vida que levava.

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Diana Sampaio