A 2.ª temporada de Gen V, da Prime Video, foi o perfeito exemplo de uma série em crescendo. Começou morna, arrastada, um bocado aborrecida até, mas acabou por ganhar força e terminar em grande, deixando finalmente aquela sensação de que ainda pode haver futuro neste spin-off do universo de The Boys. Curiosamente, o mesmo tinha acontecido na 1.ª temporada, portanto, se não mais, pelo menos são consistentes.
Logo de início percebeu-se que a série estava a sofrer do clássico síndrome de 2.ª temporada. Perdeu a frescura e a novidade que tinha na estreia, já não havia aquele impacto inicial de ver super-heróis em ambiente estudantil com caos hormonal e violência pelo meio. Em vez disso, os primeiros episódios ficaram presos num ciclo de drama teen: lágrimas, perdas, discussões e trauma repetido vezes sem conta. A infeliz morte do ator Chance Perdomo na vida real mexeu claramente com a produção, que teve de reescrever a história e justificar a saída do seu personagem. No entanto, a série deixou-se afundar demasiado tempo nisso, como se não soubesse muito bem para onde ir a seguir.
A irreverência que era marca do ADN também perdeu aqui alguma força. Parecia que a criatividade ficou limitada a dois trunfos: tudo a nu e fluídos adjacentes. Já percebemos que este universo gosta de choques visuais e temas tabu, mas abusar da mesma cartada retira-lhe impacto. Ser extremo não é problema. Ser repetitivo é. Depois há o outro elefante na sala: saturação do género de super-heróis. Já estamos há mais de dez anos a levar com capas e poderes para todo o lado e o público está mais difícil de impressionar. Gen V ainda por cima é uma derivada, o que lhe corta, ainda mais, margem de manobra. Não só compete com o cansaço geral do género, como vive constantemente na sombra de The Boys, que por sua vez também começou a mostrar algum desgaste criativo na sua 4.ª temporada.
Mas aqui está o lado positivo: apesar de tudo isto, a temporada cresce. O tom fica mais tenso, a intriga ganha peso e a série entra naquele modo que faz este universo ser tão viciante: caos controlado com crítica social à mistura. O twist não é propriamente de explodir cabeças, era relativamente previsível e a série passou demasiado tempo a fingir que não era óbvio, mas ainda assim resultou. Foi talvez um pouco preguiçoso na construção, sim, mas abriu caminho para um último episódio cheio de ação, adrenalina e decisões que deixam marcas. E isso é o que conta.
Os crossovers com The Boys foram bem melhor utilizados nesta temporada. Em vez de simples piscadelas de olho, a maioria teve impacto real na história e criou uma ponte sólida para o que vem aí – seja na temporada final de The Boys ou numa eventual 3.ª temporada de Gen V (ainda por confirmar), até porque uma das revelações pode ser um game changer no panorama geral e não só nesta série em particular.
Honestamente, se me perguntassem no início se valia a pena continuar, diria que não. Agora já não tanto, mas, claro, fica também a dúvida se o universo de The Boys não está a esticar-se demasiado, ainda mais com as próximas séries planeadas: The Boys: Mexico e a prequela Vought Rising. Há risco de fadiga total, como se passa com as da Marvel, por exemplo. No entanto, se conseguirem manter a evolução e apostar mais na história do que no choque gratuito, Gen V ainda pode justificar a sua existência.
Todos os episódios desta 2.ª temporada de Gen V já se encontram disponíveis na Prime Video, juntando-se à primeira, assim como às quatro temporadas de The Boys.
Melhor episódio:
Episódio 8 – Trojan – Aqui a tensão finalmente dispara e a série acelera para o nível que devia ter tido desde o início. Intenso, caótico e viciante, é aquele episódio que faz pensar: ok, afinal isto vale mesmo a pena. Se fosse sempre assim, e me conseguisse provocar sempre estas reações, podiam vir mais temporadas e nem precisavam de Cate (Maddie Phillips) para me convencer a escrever isso.
Personagem de destaque:
Cipher (Hamish Linklater) – Acabou por ser o personagem mais interessante desta temporada precisamente por se manter um enigma quase do início ao fim. Todo o desconhecimento à volta dele, não sabermos o que era exatamente, nem o que queria exatamente, foi o que o tornou tão interessante.