Classificação

6.5
Interpretação
6.5
Argumento
7
Realização

[Pode conter spoilers]

Como não-ávido leitor e um mero “menino” no que toca a conhecimento de banda desenhada, é uma estreia para mim poder falar de uma série cujo material de origem foi previamente devorado em livro. Y: Last Man foi mesmo a primeira comic que me propus a ler e em boa hora o fiz. Estará a série do FX on Hulu (que em Portugal estará disponível no Disney+ a 22 de setembro) ao mesmo nível?

Y: The Last Man, de Brian K. Vaughan e Pia Guerra, começou a ser lançada em 2002, e logo aí esta adaptação já corre com uma perna coxa. A ideia de explorar um mundo de apocalipse é, por esta altura, tão rotineira como haver um gémeo mau nas novelas: já não surpreende/choca ninguém. Até há uma série de comédia que se chama The Last Man on Earth! O timing é então terrível, se a isso somarmos uma saturação em relação à temática da pandemia.

A história foca-se em Yorick (Ben Schnetzer), o único homem cisgénero que sobrevive a um evento cataclísmico que mata todos os indivíduos com cromossoma Y do mundo, sejam humanos ou animais. Yorick não podia estar mais longe da definição de herói e apenas a ajuda de uma mulher especial permitirá que sobreviva num mundo em que a balança do poder de género foi para sempre invertida. Na maior parte do tempo, a história foca-se então em Yorick, Agente 355 e o fiel Ampersand, aparentemente o outro único macaco capuchinho macho vivo.

Apesar de prometer a mim mesmo que não iria ser uma daquelas pessoas que diz que o livro é melhor, vai ter de ser. Será no entanto para salientar aquilo que a série faz menos bem na minha opinião: o Yorick da BD é um trapalhão com mania que é engraçado, sem qualquer aptidão especial a não ser o uso esporádico de truques de magia para se soltar de amarras. A sua inaptidão para lidar com o mundo é a sua piada. Na série não resistiram a usar um ator mais bonitinho que, ao fim dos três primeiros episódios só consegue ser talentoso a choramingar.

No entanto, a minha maior crítica, para já, vai para o facto de a série parecer tender para o drama fácil. Na obra original, Yorick viaja pelo mundo, encontra diferentes situações, diferentes fações e diferentes modos de como um mundo sem homens impacta a sociedade. A mãe de Yorick, a senadora Jennifer Brown, tem um papel quase marginal e esporádico. Na série, Diane Lane é mais protagonista que o filho e há demasiado drama com jogadas de bastidores entre a senadora e Kimberly Cunningham (Amber Tamblyn). É possível fazer um drama protagonizado por mulheres, escrito e realizado por mulheres, e não ser um dramazinho que já vimos em tantos outros lados. Compreendo que em tempos de (real) pandemia não sejam permitidas outras aventuras na produção, mas há uma clara falta de ambição aqui. Parece que meteram a banda desenhada numa misturadora e no fim aproveitaram os caroços.

Talvez esta crítica seja injusta ao final de apenas três episódios, mas hoje em dia quem tem paciência para dar tempo a séries que não nos prendem logo? Em muitos aspetos, Y: The Last Man não consegue dar motivos suficientes para nos entusiasmar, não consegue explorar o que os comics têm de melhor, nem consegue demarcar-se de tantas outras séries do estilo. Talvez num mundo sem The Walking Dead e outras dúzias de séries, num mundo sem COVID, esta fosse uma série mais memorável. Assim, ficará rapidamente esquecida.

Podes acompanhar semanalmente Y: O Último Homem no Disney+ a partir de 22 de setembro.

O Melhor: A única esperança é que a Agente 355 (Ashley Romans) faça valer a pena aturar este Yorick…

O Pior: Não era mesmo necessária uma cena de um cão a morrer. Amber Tamblyn não tem culpa, mas a sua presença na série era completamente desnecessária.

Vítor Rodrigues