Quem matou Laura Palmer?

No início da década de 90, David Lynch, autor de filmes como The Elephant Man ou BlueVelvet, juntou-se ao escritor e argumentista Mark Frost para apresentar um projeto que mudaria para sempre o conceito de contar uma história em televisão. Começou por ser um projeto para um filme, mas a estação televisiva ABC resolveu produzir uma série com a ideia dos criadores. Assim nascia Twin Peaks no dia 8 de abril de 1990. Pela voz do já falecido ator Jack Nance, intérprete do personagem Pete Martell, ouvimos a frase “She’s dead”. Desde esse momento, toda a gente se perguntava quem matou Laura Palmer.

A história começa com o corpo da jovem Laura Palmer a ser encontrado junto a um riacho. Laura era a princesinha da pequena localidade de Twin Peaks, onde todos se conhecem, mas todos mantêm segredos. O primeiro episódio apresenta-nos detalhadamente todos os personagens que, a partir daquele momento, passaram a ser suspeitos da morte de Laura. Todos os personagens são muito bem estruturados. Têm “sumo”, se me é permitida a expressão. Desde a carismática e provocadora Audrey Horne; ao rebelde Bobby Briggs; a bela Shelly Johnson; o pai de Laura, Lelland; Ed; Donna, entre tantos outros que fazem parte do universo. A personagem principal da história é o detetive Dale Cooper, interpretado por Kyle MacLachlan. Mesmo quem nunca viu a série já deve ter ouvido falar de Cooper. É um agente do FBI, enviado para investigar a morte de Laura; junta-se ao xerife Truman na busca pelo assassino. Cooper é tão peculiar como cada filme de Lynch. Adora café e está sempre a relatar tudo para um pequeno gravador, referindo-se para o mesmo como se estivesse a falar com uma tal Diane. Isto poderia servir como relato do que é a história de Twin Peaks, mas estamos a falar de David Lynch.

Tudo em Lynch é maravilhoso, é diferente e é, no mínimo, estranho. Twin Peaks não foge à regra. Os personagens vão-se revelando estranhos e com diálogos diferentes do até então habitual em televisão; diria que a palavra certa será mesmo esquisitos. Nunca me hei de esquecer de ver Audrey começar a dançar do nada no meio do Double R Diner, o café onde todos paravam. Quem conhece o trabalho de Lynch sabe que o surrealismo faz parte da maneira como este conta histórias. Twin Peaks é tão surreal que cada vez que se vê fica-se com uma perspetiva diferente. É surreal, mas real ao mesmo tempo, o que só um génio como Lynch, juntamente com Frost, conseguia fazer. Talvez sejam mesmo uma das melhores duplas da história da televisão.

A primeira temporada foi um sucesso tremendo. Toda a gente tinha uma teoria sobre quem teria assassinado Laura Palmer. Oito episódios e nenhuma resposta deixaram os fãs ansiosos por uma nova temporada. Ela apareceu com grande apoteose, mas continuava a dúvida sobre a identidade do assassino. A pressão era tenta que a ABC obrigou Lynch e Frost a revelar o culpado. Mais tarde, os criadores disseram que o objetivo era nunca revelar a identidade do assassino, pois, como Lynch diz muitas vezes, não temos de revelar tudo ao público. Temos de os deixar a pensar. Surreal? Claro! Não fosse Lynch adorar brincar com a mente das pessoas.

A identidade do assassino de Laura Palmer é revelada no episódio 9 da 2.ª temporada. Não vou revelar quem é, pois, o meu objetivo é que quem ler este artigo espreite a série e fique, tal como eu fiquei quando mergulhei neste universo, preso ao enredo.

A partir da grande revelação, a série entrou em declínio. O assassino estava descoberto e Lynch e Frost um pouco dececionados com a pressão feita pela estação. Foram-se afastando da série que continuou com as histórias dos restantes habitantes da cidade. No final da 2.ª temporada, depois de uma constante quebra de audiência, a estação televisiva decidiu cancelar a série. Lynch e Frost voltaram para os últimos episódios e deram um dos maiores e mais enigmáticos finais da televisão. Provavelmente o maior cliffhanger de que há memória. Até porque teríamos de esperar vinte e cinco anos pela 3.ª temporada.

Em 2017, Twin Peaks regressou, para felicidade dos fãs. A série passou para o canal Showtime e David Lynch e Mark Frost encarregaram-se de todos os novos episódios. Os 18 episódios da nova temporada trouxeram novos mistérios, novas personagens, velhas personagens e acima de tudo uma magia há muito perdida. Provavelmente pouca gente viu a 3.ª temporada. Só quem for fã é que deu por ela, mas Twin Peaks foi provavelmente a melhor temporada de uma série de televisão dos últimos tempos. Sim, é a minha opinião. Claro que Game of Thrones, This Is Us ou Westworld têm marcado os últimos tempos, mas ver Twin Peaks é ver um recital de poesia televisiva.

Em Portugal, infelizmente a série teve pouco sucesso. Deu na RTP na altura em que saiu, mas pouco mais se ouviu falar. Espera-se agora uma decisão sobre a existência ou não de uma 4.ª temporada.

Porque é que devem ver Twin Peaks?

Quem me conhece sabe que se há série que sugiro é esta. Antes de dar a minha opinião mais artística, por assim dizer, quero falar de como Twin Peaks influenciou o convencionalismo da televisão como hoje a conhecemos. Antigamente as séries tinham uma abordagem onde cada episódio tinha uma história diferente. Não existia, por assim dizer, um plot para uma temporada ou para uma história. Com Twin Peaks isso mudou. A história de Laura Palmer não se estendia por 40 minutos, mas sim por temporadas. Claro que o choque e a espera levaram a que rapidamente as pressões da indústria obrigassem a dar uma resposta, mas a verdade é que, desde então, as séries têm optado por este padrão. Até mesmo os criadores das mesmas dizem que Twin Peaks os influenciou. Séries como The X-Files, que explodiu praticamente depois, foram muito influenciadas por ela. Hoje em dia é fácil encontrar referências; a maior, por exemplo, será Riverdale, que funciona como uma adaptação adolescente de Twin Peaks.

Pessoalmente acho que já perceberam, sou fascinado por David Lynch. Para mim é um génio sem comparação. Twin Peaks mudou a minha vida. Desde sempre que quis contar histórias e Twin Peaks mostrou-me um caminho interessante para o fazer. É uma série surreal, mas brilhante. Vive dos seus personagens, das suas histórias e dos seus segredos. É um respirar poético por uma sociedade envolta em mistério. É um viver apaixonado pelo inexplicável. E é, sem dúvida, uma fonte de perguntas e nem tantas respostas. Ninguém fica indiferente após ver Twin Peaks. A série, repetidamente, lança uma premissa que diz que vivemos dentro de um sonho. Será que sim? Será que não? Filosoficamente falando, a vida é uma questão de perspetiva. O mal e o bem são definidos por quem? Pelas aparências ou pelas atitudes? Pelos erros ou pelas aprendizagens? Será que o fogo caminha dentro de nós? Será que as forças do universo nos puxam por caminhos perversos? Ou isso apenas faz parte do que é ser humano? Eu não tenho resposta, Twin Peaks também não. E certamente que se perguntarmos a David Lynch e este a souber, esboçará um sorriso e nada contará. Twin Peaks é uma mistura cósmica do pensamento que não deixa de ser entretenimento. Twin Peaks somos nós e ninguém ao mesmo tempo. Ao som da incrível banda sonora de Angelo Badalamenti, a morte de Laura Palmer tornou-se numa das maiores e mais extraordinárias histórias; influenciou gerações e continuará a causar suspense por muitas mais.

Resta-me dizer que existe um filme, lançado em 1991, após o cancelamento da série, que conta a história dos últimos sete dias de vida de Laura Palmer. O filme é bastante bom, aconselho! Tal como a série, o filme é hoje considerado uma obra de culto. Além dele, podemos encontrar um diário da Laura Palmer, escrito por Jennifer Lynch, filha de David Lynch, que conta em primeira pessoa a vida de Laura desde os 12 anos de idade até ao dia em que morreu. Eu li e devo dizer que é um livro que nos apresenta Laura como ninguém e, apesar de chocante, percebemos a dor da jovem. Também existe uma ‘bíblia’ escrita por Mark Frost que conta algumas histórias mais detalhadas dos personagens. Ainda não li, mas está na minha lista.

Espero que tenham gostado desta crónica. Gostava que vissem a série e digam o que acharam. É normal que as opiniões não sejam iguais à minha, mas é isso que torna interessante a discussão. Para mim, Twin Peaks e David Lynch despertaram a vontade de ser diferente, de contar histórias de um modo surreal. Ensinaram-me a pensar, a viver para lá do sonho. Com certeza que trará algo de bom a tantas outras pessoas que se deixarem envolver pela história. Por isso, peguem num café e numa fatia de tarte e toca a ‘maratonar’ as três temporadas de Twin Peaks.

Carlos Real