Já deste por ti a visualizar uma cena e a sentir de tal forma fascínio com a atuação que a história que está a ser apresentada, ainda que possa ter bastante impacto na perceção do que estamos a ver, quase que passa a ser secundária e parece que tudo o que consegues apreciar é aquele maravilhoso momento de interpretação? E mesmo que o personagem (ou até mesmo quem o interpreta) nunca te tivesse chamado muito a atenção (ou até mesmo que não gostasses dele ou da sua história), a atuação naquele momento foi tão boa que começaste a apreciar ainda mais o ator/atriz ou a vê-lo(a) com outros olhos? É com base nisto que vos apresentamos alguns momentos de interpretação nas séries que, por serem tão bons, consideramos que merecem todo o reconhecimento do mundo.

[Contém spoilers]

Marcia Clark lida com a humilhação causada pela imprensa – 01×06 – American Crime Story: The People v. O. J. Simpson: Nunca é demais dizer o quão fantástica Sarah Paulson é, mas se há série que lhe permite brilhar enquanto atriz, é esta. Basicamente qualquer momento dela enquanto Marcia Clark é genial, mas este destaca-se por ser dotado de uma grande carga emocional. Esta cena mostra-nos uma mulher forte num momento de vulnerabilidade quando a imprensa decide humilhá-la publicando fotos suas privadas. Não é suposto que uma procuradora seja matéria de interesse para os tabloides, mas envolvida num dos mais famosos julgamentos de todos os tempos, Marcia acaba por ser uma vítima da exposição mediática. Aliado a isso, está o sentimento de traição por uma pessoa que fez parte da vida dela ter sido capaz de a ‘vender’ aos jornais. A forma como ela se explica ao chefe, tendo em conta que a sua vida pessoal não coloca em causa o seu desempenho enquanto profissional e que não é responsável pelo que aconteceu, é só o início da sua humilhação, porque o pior está para vir, quando Marcia tem de enfrentar todos os presentes no julgamento, sejam eles os advogados da outra parte, o juiz, o público ou o próprio colega, que com aquele simples gesto de conforto a faz ir-se abaixo. Este episódio, mas em especial esta cena, mostram muito mais do que a humilhação de Marcia e é um retrato de uma sociedade machista que alinha em joguinhos que sabemos que nunca seriam feitos se naquele lugar estivesse um homem. Sarah Paulson transmite na perfeição a sensação de impunidade de Marcia, a sua incapacidade de lidar com aquilo naquele momento e as suas dificuldades em ser parte integrante do circo mediático formado à volta do julgamento de O. J. Simpson.

Jim Gordan confronta Jerome Valeska sobre o assassinato da sua mãe – 01×16 – Gotham: Apesar do argumento de Gotham ter tido os seus altos e baixos, é inegável a quantidade de momentos de interpretação outstanding que nos foram sendo mostrados ao longo das cinco temporadas – o que faltava em argumento, as atuações, sem sombra de dúvida, compensavam. Destacam-se, especialmente, os momentos proporcionados por Cory Michael Smith no seu papel de The Riddler e Robin Lord Taylor no papel de Penguin. Inclusive, alguns deles podiam estar também nesta crónica (ou até num artigo próprio). Contudo, os momentos proporcionados por Cameron Monaghan no seu papel de Jerome/Jeremiah Valeska, que, embora não lhe tenha sido atribuído taxativamente o nome, personificava Joker, conseguem-se, particularmente, destacar ainda mais. Que papelão foi aquele! Apesar de haver imensas cenas deste personagem (tanto como Jerome quer como Jeremiah) que podíamos ter escolhido, sentimos que não podíamos escolher outra que não esta. Foi neste exato momento que a perceção que tínhamos do personagem, e especialmente do ator, mudaram completamente. Jerome inicialmente aparentava ser um bom rapaz em sofrimento pela perda da sua mãe; contudo, Jim Gordan acaba por descobrir que quem a matou foi o próprio Jerome e quando este é confrontado, não só com isso, mas também com o facto de Cicero ser seu pai, acaba por não se conter mais e a sua psicopatia vem ao de cima. A mudança foi tão acentuada e tão brusca que até o próprio Jim (e acreditamos que todos nós) ficou perplexo com o que estava a ver. Aquela transição entre o choro e o riso não só foi muito bem conseguida (e um pouco creepy também), como marcou muito bem a diferença entre o personagem por quem Jerome se estava a fazer passar e a pessoa que verdadeiramente era. E que diferença abismal! Ainda que o personagem nunca deixasse de ser Jerome, parecia que estávamos a ver pessoas totalmente diferentes. Essa mudança de registo e a forma excecional como foi feita por Cameron merece, sem dúvida, todo o reconhecimento do mundo.

Taystee discursa para os meios de comunicação depois da morte de Poussey – 05×05 – Orange Is the New Black: Preferências à parte, Taystee é, muito provavelmente, a maior pérola que Orange Is the New Black nos proporcionou. Depois da morte de Poussey às mãos de um guarda e do motim que se seguiu, Taystee fala para as câmaras, que estão muito mais interessadas em saber se Judy King está bem do que em qualquer outra coisa. No entanto, Tasha bem podia ser a voz do movimento Black Lives Matter. As vidas das pessoas negras importam e Tasha não vai permitir que isso seja esquecido. A indignação e a paixão que Danielle Brooks consegue colocar nesta cena são incríveis. Indignação pelo tratamento especial que foi dado a Judy King, pela morte completamente absurda da amiga, pelas injustiças que todos aqueles que não são brancos e privilegiados sentem na pele. Paixão pela luta pela igualdade, pela mudança de que o mundo precisa para ser um lugar melhor. Tasha foi o rosto desta luta que devia ser de todos e quem melhor do que ela para isso? Uma mulher com um coração enorme, com uma grande capacidade de resistência, com uma alegria contagiante em tantos momentos. Uma mulher que provavelmente poderia ter feito grandes coisas se tivesse tido mais sorte na vida. A importância desta cena vai muito para além de Orange Is the New Black, porque retrata um problema muito atual e sem fim à vista, o que lhe confere uma emoção muita crua.

Jax desabafa com Nero – 07×11 – Sons of Anarchy: Charlie Hunnam não é um daqueles nomes com prémios no currículo, mas a sua interpretação de Jax Teller merecia ter tido o devido reconhecimento. Nesta altura da série, já não era muito fácil torcer por Jax, mas ele nunca esteve tão perdido como aqui. A morte violenta de Tara abalou-o profundamente, mas o que podia ser pior do que descobrir que tinha sido a própria mãe dele a cometer o crime? A dor que sente, a forma como se tenta aguentar até que já não consegue mais e se deixa ir abaixo são tão pungentes! Sabemos o quanto a família é importante para ele, embora as suas prioridades nem sempre tenham sido as certas, e sabemos que no mundo dele estas coisas se pagam com a vida. E é precisamente a morte da mãe, às mãos dele, que está a ser equacionada. “I still love her, you know? She’s my mom.”, seguida de “How she could do this to Tara?” são palavras difíceis de esquecer e toda a cena é difícil de ver, há que confessar. Jax chora pelas coisas que perdeu, mas também pelos bocados dele que morreram com a morte de Tara e com o que se seguiu e todo aquele sofrimento passa, na perfeição, para este lado do ecrã.

Joyce tenta perceber o que se está a passar de errado com Will – 02×04 – Stranger ThingsAinda que Eleven, interpretada de forma excecional por Millie Bobby Brown, nos tenha roubado o coração desde o primeiro momento na série, o personagem Will e a interpretação maravilhosa de Noah Schnapp, especialmente neste momento, também conquistaram, fazendo com que a nossa admiração se dividisse bastante entre os dois. O que mais fascinava, para além da história das personagens, era o facto de, mesmo sendo tão novos, as suas atuações serem simplesmente esplêndidas, de fazer inveja a atores adultos com mais anos de experiência. Apesar de existir bastante opção de escolha quanto às cenas que comprovam isso mesmo, esta é a que acaba sempre por nos vir à mente, particularmente no momento em que Will começa a chorar sendo que tudo o que conseguíamos pensar era no quão boa a atuação de Noah era. É verdade que já dava para o perceber antes, mas esta cena destacou ainda mais isso. Para além de o momento ser extremamente emocionante e nos deixar de coração apertado e com uma lágrima no canto do olho ao ver o sofrimento e o desespero de Will, não sentimos que seja algo forçado, o que muitas vezes acontece nestas situações. A atuação é tão real que quase nos faz esquecer que se trata realmente disso, representar.

Para a semana, não percas a segunda parte desta crónica!

Cármen Silva e Diana Sampaio