Noutros anos, por esta altura, The Handmaid’s Tale já tinha estreado a sua temporada, mas o ano passado a série chegou apenas em junho e neste ainda teremos de esperar mais tempo, mas as saudades já apertam e a expectativa em relação ao que está para vir é muita. Esta é uma série de emoções fortes, às quais é impossível ficar-se indiferente, e são inúmeros os momentos que ficam na memória muito depois de os episódios terem terminado. Enquanto a 4.ª temporada não chega, vamos recordar alguns dos momentos mais memoráveis que a série nos proporcionou até agora.

[Os vídeos das cenas em questão podem ser vistos através das hiperligações]

Janine dá à luz a bebé Charlotte (01×02): Gilead é um regime insano criado por mentes perturbadas que viram como solução para a humanidade um sistema que é, em tudo, inumano. Ao mesmo tempo, é fascinante irmos percebendo, ao longo da série, todos os pequenos rituais, todas as regras e leis que fazem de Gilead o lugar perigoso que é. O ritual dos partos é particularmente ridículo. É certo que o nascimento de um bebé saudável é importantíssimo, mas qual é a necessidade de toda aquela fantochada, com a wife a simular que também está em trabalho de parto? Este teatro, estas representações quase coreografadas, mostram a insanidade deste regime que faz das mulheres férteis escravas sexuais. Estas handmaids são violadas, obrigadas a produzirem filhos para os seus comandantes e esposas e depois da tarefa cumprida partem para outra casa, onde se espera que gerem nova criança. Revolta-me – embora com ênfase para o ridículo da situação – que as wives se reúnam junto de Naomi, a ajudá-la como se ela estivesse realmente em trabalho de parto, quando todo o trabalho está a ser feito por Janine, que, por sua vez, tem junto dela as restantes handmaids. Um parto é, portanto, um evento extremamente público em Gilead. Outra coisa que me faz imensa confusão é ver o quanto todas se sentem extremamente aliviadas quando a bebé chora finalmente. Quando o mundo enlouquece não é melhor pararmos de insistir em povoá-lo? Angela crescerá enquanto filha de um comandante e provavelmente terá uma vida de privilégios, mas o que acontecerá quando crescer? Questionará o sistema em que foi criada, revoltar-se-á contra o pai e a mãe que a tiraram à sua própria progenitora? Ou crescerá para ser igual a tantas outras wives que acreditam que se trata dos desígnios de Deus ou outra coisa parecida que usem para justificar as suas ações? De qualquer das formas, crescerá sem grandes escolhas, a não ser que, nessa altura, Gilead já tenha capitulado e assim possa ser Charlotte, o nome que Janine queria que ela tivesse.

June e Nick fazem sexo na presença de Serena (01×05): Dei por mim tantas vezes ao longo da série a acreditar que Serena poderia ser capaz de fazer a coisa certa quando assim se impusesse, mas por cada boa decisão que ela toma, uma infinidade de atitudes incrivelmente revoltantes não se fazem esperar muito. Serena é a personagem que sei que devia odiar, que odeio mesmo em muitos momentos, mas continua a ser a minha favorita da série. No entanto, isto não me impede de ver os seus muitíssimos defeitos, de desejar que nunca mais possa ver a bebé Holly e que pague na prisão pelos crimes que cometeu e ajudou que cometessem. Esta é uma daquelas cenas em que Serena se revela incrivelmente frustrante, algo que foi consistentemente durante a 1.ª temporada da série. No entanto, também aqui há algo que não me faz odiar completamente a nossa Mrs. Waterford: o facto de ela ter noção que o imbecil e inútil do marido é infértil. Parece algo pequeno, mas não é, porque aquilo que é veiculado é que a infertilidade é feminina. Contudo, Serena não deixa de se assemelhar – e perdoem-me a expressão – a um chulo. Ela deixa June e Nick a fazerem sexo, porque está visto que June não conseguirá engravidar de Fred. Na sua maneira distorcida, estará Serena a tentar proteger June ao garantir que esta engravide? Isto só me passou pela cabeça agora! Ou, o mais provável, estará Serena apenas empenhada em conseguir para si aquilo que mais quer no mundo: um bebé? Seja como for, é perturbador que ela tenha ficado ali, a assistir a tudo. No entanto, já é sabido que os atos sexuais em Gilead costumam ter assistência.

Serena e June trabalham juntas (02×08): Os momentos pesados são uma constante nesta série e por isso esta cena é tão especial, por se distanciar disso mesmo. June narra que tem trabalhado com Serena. Mais do que isso, ela parece estar a fazer-nos confissões, o que dá uma sensação de proximidade entre personagem e telespectador. Em segundo lugar, elas estão a fazer algo que passou a ser proibido às mulheres: ler e escrever. O que não deixa de ser irónico, porque Serena, para o bem ou para o mal, parecia ter um dom para as palavras na altura em que fazia discursos horrorosos antes de Gilead ter surgido e June costumava trabalhar como editora literária. O sistema de Gilead encarregou-se de lhes atribuir papéis completamente separados na sociedade, mas neste momento, nesta sala, enquanto trabalham juntas, elas são iguais. A música como pano de fundo também assenta aqui extraordinariamente bem. Aliás, a banda sonora de The Handmaid’s Tale é muito interessante. À partida, parece não se enquadrar nada bem com a série, mas dá-lhe um toque especial de rebeldia, de ousadia, um contraste perfeito com o ambiente sombrio e pesado da narrativa. Quando June conversa com Serena, esta dá-lhe a resposta condicionada que se esperaria de uma wife, mas depois diz-lhe que odeia tricotar e a satisfação que June (e eu também) sente com aquela confissão é bem visível. É justo dizer que, naquele momento, tanto June como nós, deste lado, pensámos que Serena poderia tornar-se uma aliada. Esta cena é deliciosamente engraçada e, ainda assim, não menos relevante. Muito engraçados e certeiros também são alguns dos comentários feitos a este e outros vídeos da série no YouTube.

Emily reencontra-se com a mulher e o filho (03×04): Eu sei que é suposto que esta série nos obrigue a ter o pacote de lenços de papel à mão e sou a primeira a confessar que já chorei com muitas cenas, mas esta é mesmo daquelas que considero mais fortes e bonitas. Ninguém será capaz de imaginar como é que uma pessoa consegue voltar a uma vida normal depois do que Emily passou. Fizeram dela escrava sexual num regime em que a homossexualidade é crime, submeteram-na a uma cirurgia bárbara em que lhe removeram o clitóris e enviaram-na para as Colónias, de onde só conseguiu sair viva porque foi novamente necessária enquanto handmaid. Durante anos, viveu privada de tudo o que fazia dela a Emily. Sobreviver a isso parece um final feliz, mas é possível ultrapassar-se uma coisa daquelas e voltar realmente a viver? Durante aquele tempo todo, talvez tenha sido um consolo para ela saber que a mulher, Sylvia, e o filho das duas, Oliver, provavelmente estavam em segurança no Canadá, mas eles não sabiam sequer se ela estava viva ou morta. Quando ela e a mulher se reencontram é tão… é difícil encontrar palavras. Há tanta dor nas duas, mas é tão bom vê-las a abraçarem-se! A casa onde Sylvia e Oliver moram é a prova de que Emily continuou presente nas suas vidas, através de fotografias, mas é natural que, ao fim de tanto tempo e em circunstâncias tão complicadas, se sintam um pouco como estranhas na presença uma da outra. Nenhuma quer pressionar ou apressar as coisas, mas desejam certamente que tudo pudesse voltar a ser como dantes, quando as suas vidas ainda não tinham sido destruídas. Quando Oliver entra em cena tudo se torna ainda mais terno, mas também mais triste, de certa forma. Ele ainda era muito pequeno quando teve de se separar da mãe e as suas memórias não serão muitas, mas o miúdo revela-se espetacular daquela forma tão doce como só as crianças conseguem ser. Aquele momento em que Oliver e as mães estão com ele no quarto enquanto um livro sobre dinossauros está a ser lido derrete o coração de qualquer pessoa que tenha um.

Fred é preso (03×11): Não há muitos momentos em televisão que me tenham proporcionado este nível de satisfação. Odeio Fred – e odeio mesmo, não tenho por ele nenhuma espécie de sentimento duplo como em relação a Serena – e desde o início da série que estava à espera de um momento como este, em que ele pagava pelos seus crimes. É claro que nunca imaginei que fosse algo tão épico! Ainda bem que Fred é estúpido e arrogante o suficiente para ter confiado tão cegamente em Mark Tuello (e em Serena, já agora) e nem sequer ter estranhado nada quando o seguiu de carro. Quer dizer, ele não sabia, tendo em conta onde estava, que a fronteira do Canadá se encontrava tão próxima? Pelos vistos não! É um momento muito poderoso quando os soldados o detêm e Tuello lê a imensidão de crimes cometidos por Fred! Mas lembram-se quando mencionei a estupidez? Quando vi a cena pela primeira vez não pensei que Serena tivesse sido a responsável por esta manobra que resultou na detenção do marido. Inocência a minha, mas acho que isso dá um toque ainda mais especial à cena. Já muitas vezes estabeleci paralelos entre esta série e regimes ditatoriais da nossa História e mesmo que Fred seja só um produto de ficção, foi muito bom ver que iria pagar pelos seus crimes, algo a que muitos criminosos de guerra e responsáveis por atrocidades contra a humanidade conseguiram escapar. Em Gilead todas as barbaridades são lei, mas para o resto do mundo são crimes inenarráveis. Que Fred seja apenas o primeiro de muitos a ter que enfrentar a justiça!

Como a crónica já vai longa e cinco momentos seriam muito poucos para ilustrar o quão esta série é fantástica, vamos ter uma segunda edição, já na próxima semana. Não percam!

Seleção: Ana Velosa e Diana Sampaio
Textos: Diana Sampaio