Na semana passada lançámos a primeira parte desta crónica e hoje trazemos mais cinco momento memoráveis de The Handmaid’s Tale, uma das melhores e mais emocionantes séries dos últimos anos. Há cenas das três temporadas, tendo em comum o facto de todas serem, de uma forma ou de outra, de uma relevância incontornável na história da série. São certamente momentos que os fãs recordarão, para o bem ou para o mal, e que tornam a série extremamente relevante nos dias de hoje, quer pela sua abordagem da condição da mulher e dos direitos humanos em geral, quer pelo fenómeno do populismo. Recordem então connosco!

[Os vídeos das cenas em questão podem ser vistos através das hiperligações]

As handmaids recusam-se a participar na morte de Janine (01×10): É sabido que Gilead adora acontecimentos públicos. Até as violações têm como audiência a wife, portanto pode perceber-se por isso o quanto gostam de fazer de tudo um espetáculo, que tem tantas vezes a intenção sádica de dar o exemplo, do género: não façam isto ou também morrem ou… [inserir qualquer outra opção bárbara]. O quanto a Tia Lydia tem jeito para estas coisas! Acham que ela ensaia estes discursos em casa ou que lhe sai tudo de improviso? A sério, agora sem ironias! Já todas as handmaids perceberam que está prestes a acontecer algo de verdadeiramente horrível, mas Janine aparece, escoltada por dois guardas, sorri e cumprimenta as outras como se não se passasse nada. A porcaria deste regime ditatorial a que gostam de chamar República destrói de tal maneira a vida das pessoas que vivem nele que Janine não está no seu juízo perfeito, não por completo, pelo menos. No entanto, as outras handmaids continuam sãs e, mais do que isso, conservaram a sua humanidade, por isso logo surge uma voz da razão que se recusa a apedrejar Janine. É preciso uma coragem brutal para fazer aquilo. Aquela rapariga não sabe o quanto a sua rebeldia lhe iria custar, mas sabe que não consegue fazer uma coisa tão abominável. Basta tantas vezes uma única pessoa fazer aquilo que está certo para que tantas outras a sigam! Nenhuma das handmaids mexe um dedo que seja para atirar uma pedra. Não fazerem nada é o maior símbolo de rebelião que qualquer uma delas pode ter naquele momento. June chega-se à frente, desafiando claramente a autoridade da Tia Lydia e, consequentemente, a de Gilead. Todas têm medo, mas sabem que unidas são mais fortes, servindo-se da pequena segurança de que não se atreveriam a matá-las a todas, porque quem teria filhos por elas? No entanto, nenhuma delas sabia realmente que escapariam sem castigos físicos, exceto para a corajosa rapariga que deu o primeiro passo para salvar a vida de Janine. Destaque ainda para a importância da banda sonora, que tantas vezes se destaca na série!

Eden e Isaac são condenados à morte (02×12): Aquelas palavras acerca de Deus momentos antes do assassinato de dois jovens com a vida inteira pela frente fazem pensar no quão hipócrita Gilead é e no quanto se serve abusivamente da ideia de um ser superior para justificar os seus atos hediondos. Quem me conhece sabe que sou uma ateia respeitadora da crença dos outros, seja ela qual for, mas que abomino que Deus seja usado pelo Homem como desculpa para crimes inenarráveis. O mal não está nem nunca esteve na religião, mas sim naqueles que se servem dela para justificar guerras, perseguições ou terrorismo. Os fanáticos de Gilead fazem isso melhor do que ninguém. Mais uma vez, temos um espetáculo público, embora aqui a morte seja por afogamento e não apedrejamento. O pior de tudo é que, ao contrário de Janine, Eden e Isaac não têm escapatória e as suas vidas acabam aqui. Não vou dizer que ao menos morreram juntos, porque isso não deve servir de consolo a ninguém. Ela ainda era uma criança, ele pouco mais velho seria e o seu único crime foi… o quê, a infidelidade? Acho que os dois merecem que se diga que o único crime que cometeram foi o amor, como se diz também acerca de Inês de Castro. Eden e Isaac atreveram-se a amar numa sociedade em que um rapaz e uma rapariga nem sequer podem escolher com quem casam ou quando o podem fazer. Também vale a pena destacar as reações de quem assistia à morte de Eden e Isaac. A mãe e a irmã da jovem estão destroçadas, como seria de esperar. Provavelmente são bem diferentes do pai de Eden, que mais tarde percebemos ter sido o responsável pela denúncia da filha. Mais uma vez, Elisabeth Moss mostra o quanto é uma excelente atriz apenas pelas emoções que o seu rosto transmite. June já está bem familiarizada com os horrores de Gilead, mas este é um novo horror que ela não conhecia. Confesso que a reação de Serena me surpreende. Tê-la-ia imaginado a não reagir – ou então a esforçar-se para não o fazer – e não a chorar, completamente em choque. Penso que são momentos como este que fizeram muitos de nós pensar que um dia Serena poderia ser uma aliada em algo significativo, mas o avançar dos episódios mostrou-nos que nunca sabemos aquilo com que contar quando se trata desta personagem.

Emily esfaqueia a Tia Lydia (02×13): Emily já foi sujeita a tantas provações! Primeiro, viu-se separada da família; depois teve que enfrentar tudo aquilo que é parte integrante das funções de uma handmaid, sem esquecer que, para além disso, lhe removeram o clitóris e a enviaram para as Colónias, de onde dificilmente alguém sai vivo. Tudo isto enquanto é considerada uma gender traitor por ser lésbica. Emily já não tem muita coisa a perder, é um facto. Não vê a mulher nem o filho há anos e foi destituída da sua própria identidade, passando a ser Ofglen ou Ofjoseph, portanto… O que mais é que podem fazer-lhe? Matá-la? Talvez morrer seja um risco que ela esteja disposta a cometer quando a alternativa é continuar a viver sob o jugo de Gilead. A sério, e a Tia Lydia consegue ser incrivelmente frustrante! No entanto, isto vai muito para além de uma intenção de magoar ou matar Lydia. Isto é Emily a dizer para ela mesma que já chega, que não vai continuar a aceitar aquilo que lhe fazem sem dar luta e, para todos os efeitos, o papel de Lydia enquanto aunt faz dela um dos principais instrumentos opressivos de Gilead.

O confronto entre June e Serena em frente ao Lincoln Memorial (03×06): Antes de mais, acho que é importante esquecermo-nos por um minuto da série e debruçarmo-nos brevemente sobre a História Americana para percebermos o alcance desta cena. O monumento que aqui vemos destruído continua intacto na realidade e chama-se Lincoln Memorial. Foi erigido em Washington, D.C., a capital do país, em memória de Abraham Lincoln, um dos mais influentes presidentes dos Estados Unidos. O maior feito da presidência de Lincoln está intrinsecamente ligado à Proclamação da Emancipação, que deu a liberdade a todos os negros escravizados dos Estados Confederados. Lincoln é símbolo de “unidade, força e sabedoria” e no monumento em sua honra pode ler-se, em tradução livre, o seguinte: “Neste templo, tal como nos corações do povo, para quem salvaguardou a União, a memória de Abraham Lincoln é para sempre preservada.” Tudo isto ganha ainda mais força porque o memorial é também um símbolo dos movimentos dos direitos civis, tendo sido lá que Martin Luther King fez o seu famoso discurso: “Eu tenho um sonho”. Não é surpreendente que isto não signifique nada em Gilead, onde o medo, a violência e o silêncio de tantos que não têm direito a ter uma voz são a lei. E é assim que Serena gosta de ver June, silenciada, mas June tem muitas coisas a dizer e todas elas são verdade, verdades difíceis de engolir para Serena. Não que dúvidas houvesse, mas June é a verdadeira mãe de Nichole. Serena não foi capaz de fazer aquilo que era melhor para a bebé, limitou-se a agir consoante o que era melhor para ela mesma. Nenhuma mãe, biológica ou não, a quem valha a pena chamar MÃE agiria assim, tendo em conta o que está em jogo. As palavras de June não deixam Serena indiferente, são ditas coisas duras por ambas as partes e caem por terra quaisquer esperanças de que estas mulheres pudessem vir a ser aliadas quando chegasse a altura de derrubar Gilead. É uma cena muito forte e aquela música no final torna-a ainda mais poderosa.

As crianças chegam ao Canadá (03×13): Não consigo ver esta cena sem chorar. Esta cena requer lenços de papel, sem brincadeiras! A maioria destas crianças é demasiado pequena para saber bem aquilo que está a acontecer. Muitas delas já terão nascido em Gilead; outras não, mas seriam demasiado novinhas para se lembrarem de uma vida diferente desta. Um mundo louco é tudo o que conhecem, sem recordações dos pais, irmãos e avós a quem foram tirados. Reconhecer-se-iam? O tempo passou e as crianças mudam rápido. O tempo parece passar de diferente maneira para elas, portanto é justo perguntar quantas delas reconheceriam a mãe e o pai. Estas crianças não sabem que a chegada ao Canadá representa a liberdade. Quando aquela menina pergunta a Moira se aquele é o lugar onde pode vestir o que quer… Dá cabo de mim! Ela deve ser uma das mais velhinhas, uma das poucas que se recorda de tempos melhores, uma das poucas que deve ser capaz de se recordar do pai. Aquele reencontro é incrível e dá-nos a esperança de que mais surjam num futuro próximo para muitas outras famílias. A alegria daquele pai contrasta com o desespero de Luke, para quem a felicidade de voltar a ter Hannah nos braços ainda não chegou. Emily e Rita também se reencontram. Os seus caminhos não se cruzaram muitas vezes, mas ambas conseguiram escapar, ambas salvaram outros e isso é tudo naquele momento. Luke pode ainda não ter a sua família de volta, mas sabe que foi June quem conseguiu aquilo. Chegarão mais aviões e, sobretudo, chegará o dia em que Gilead, como todas as ditaduras, caíra. Poderá não haver um final feliz para todos, mas há a esperança de um futuro melhor.

Com as duas partes da crónica lançadas, já podem partilhar connosco se as vossas cenas favoritas se encontram nas nossas escolhas ou se há outras que vos tenham marcado especialmente.

Seleção: Ana Velosa e Diana Sampaio
Textos: Diana Sampaio