Mindhunter era uma das sobreviventes da minha watch list da Netflix. A bem da verdade, ainda tenho lá muita coisa para ver, mas era das poucas séries já terminadas que lá constavam e decidi não adiar mais. A série passa-se em finais dos anos 70, é inspirada em pessoas e acontecimentos reais e centra-se numa unidade especial do FBI que se dedica a investigar e a estudar vários assassinos. Descobre as razões que espero que te façam querer ver também Mindhunter.

[Pode conter spoilers]

1 – Série de investigação que não segue uma fórmula única e que se distingue das demais

Se pensarmos em várias das séries criminais típicas, a verdade é que os episódios têm uma estrutura muito semelhante. Estou a pensar por exemplo em Bones, em que há sempre um cadáver que é encontrado antes dos créditos de abertura. Em Mindhunter não temos tanto isso, a fórmula não é sempre a mesma. Entrámos na série com Holden Ford a lidar com uma situação de reféns, mas muitos dos episódios dedicam-se ao estudo de assassinos, com recurso a entrevistas feitas presencialmente, na prisão, por agentes do FBI. No entanto, a dupla Holden/Bill Tench é também várias vezes convidada a ajudar na investigação de casos em aberto quando se desloca para dar formação nos mais diversos pontos do país, o que é positivo no sentido em que nos leva a diferentes cenários. Adicionalmente, a 2.ª temporada, concentra-se, em grande parte, na investigação do desaparecimento e morte de quase três dezenas de rapazinhos negros.

2 – Os anos 70 e 80 como cenário

As séries passadas noutros tempos têm sempre um interesse acrescido por nos transportarem a épocas em que não vivemos e por isso mesmo ensinam-nos sempre alguma coisa. Sou fã de tramas criminais – embora o mundo das séries esteja saturado e já não veja muita coisa nova – e a verdade é que nunca me tinha passado pela cabeça que a expressão “assassino em série” fosse tão recente. Acho que nunca tinha pensado muito no assunto, mas suponho que julguei que fosse utilizada já há muito, visto que existem assassinos em série há vários séculos. No entanto, este tipo de crimes parece ter atingido o auge a partir a partir do século XX, o que fez aumentar o interesse, não apenas em termos policiais, mas também científicos, em estudar e perceber as motivações daquelas pessoas. Compreender o porquê ajudaria a evitar outros crimes do género. É muito interessante assistir às entrevistas – ainda para mais porque são muito semelhantes às entrevistas reais feitas no âmbito da Unidade de Ciências Comportamentais – e perceber que muitos daqueles criminosos parecem pessoas completamente comuns, embora haja alguns lunáticos como Charles Manson. Ed Kemper, por exemplo, parece o tipo mais simpático do mundo e no entanto assassinou várias pessoas, inclusive da sua família.

3 – David Fincher

Eu sou daquelas pessoas que gosta muito de acompanhar o trabalho de determinados atores, mas nunca tive o hábito de seguir, da mesma forma, realizadores. Aliás, durante muito tempo era péssima a associar nomes de realizadores aos filmes e séries que tinham feito, mas melhorei bastante em relação a isso nos últimos anos. David Fincher é o realizador de dois filmes que adoro, The Curious Case of Benjamin Button (absolutamente fantástico, vejam!) e Gone Girl (vejam também porque tem um dos melhores plot twists de sempre), e de muitos dos episódios de Mindhunter, por isso tinha de esperar boa coisa de um projeto ao qual estivesse associado. Não será por acaso que muitos dos episódios de que mais gostei da série foram realizados por Fincher.

4 – Temporadas curtas com episódios viciantes

Os serviços de streaming vieram generalizar as séries com episódios próximos da 1 hora de duração, algo a que costumo torcer o nariz. Acho que às vezes mais valia fazer temporadas um bocadinho maiores, mas com episódios na ordem dos 40 e poucos minutos. No entanto, apesar de muitos dos episódios de Mindhunter serem longos, a verdade é que passam bastante depressa porque são viciantes e dão vontade de ver sempre mais um a seguir. Ora, e se os episódios são longos, as temporadas são curtas, por isso vê-se tudo num instante. No total, são 19 episódios e apenas o último está próximo da duração de um filme.

5 – Wendy Carr

Até era estranho se a minha personagem preferida não fosse uma mulher! Também simpatizava bastante com Bill e a sua maneira de ser, mas de resto… O leque de personagens não é muito vasto e as suas vidas pessoais não são demasiado exploradas, por isso não é como se as pudéssemos conhecer de forma muito aprofundada, algo que até funciona bem, deixando o foco da série para a componente criminal. Contudo, Wendy é uma das personagens sobre as quais sabemos mais. Ao contrário de Holden e Bill, Wendy não é uma agente do FBI, mas sim uma académica extremamente inteligente ligada ao campo da psicologia e que proporciona à investigação uma componente mais científica e metódica que irá sendo alterada à medida que as entrevistas avançam. Wendy é cativante, é uma daquelas mulheres poderosas embora discretas, e a sua história pessoal foi interessante de acompanhar.

6 – Questões políticas

Na maioria das séries policiais, a verdade é que parece nunca haver certos tipos de obstáculos às investigações. Em Mindhunter, vemos a unidade de Ciências Comportamentais surgir, crescer e obter resultados importantes em termos de psicologia e perfil criminal, mas vemos também Holden e Bill a lidar com um certo torcer do nariz por parte dos seus superiores, precisamente porque é tudo novo. No entanto, quando Robert Shepard é substituído por Ted Gunn, a equipa passa a gozar de maior apoio e de um grande voto de confiança. Ted mostra-se alguém capaz de fazer as coisas acontecer porque acredita que o trabalho do FBI no âmbito das Ciências Comportamentais é verdadeiramente importante. É interessante do ponto de vista das políticas internas do FBI. Na 2.ª temporada, sobretudo a partir de meio, outras questão políticas colocam-se. A polícia e o FBI unem-se para investigar o desaparecimento e morte de um grande número de crianças negras em Atlanta e a política entra em ação. Os crimes dão má imagem à cidade, o perfil traçado de que o responsável é um homem negro também não cai bem. São abordagens que vão para além da policial e trazem algo que não tem muito destaque nas comuns séries deste género.

7 – O realismo do final

Vou ser honesta e dizer que um final fechado em que se conhece o criminoso e as suas motivações é o mais satisfatório. No entanto, é também irrealista. Quantos crimes ficam por resolver no mundo real? Quantos criminosos são apanhados, mas sem se saber realmente o porquê de terem feito o que fizeram? O final de Mindhunter está longe de nos dar muitas respostas, seja em termos do caso de Atlanta, seja no que diz respeito às vidas pessoais de alguns dos nossos personagens. É refrescante, contudo. Não temos que ter sempre todas as respostas. Não tem tudo que ter um final feliz e bonitinho. A vida real não é assim, isso é certo!

Já estás à procura de Mindhunter no catálogo da Netflix? Acho que não te vais arrepender!

Diana Sampaio