A nova série histórica da RTP, Fernão Lopes: O Renegado, estreia esta noite na RTP1, mas acaba por ser uma desilusão. As expectativas já não eram particularmente elevadas, não por falta de confiança na qualidade das produções nacionais, que têm vindo a melhorar de forma consistente, mas sobretudo pelas limitações orçamentais associadas a um projeto de época, naturalmente mais exigente. Não se esperava algo ao nível de grandes produções internacionais, mas ainda assim havia margem para surpreender.
Os primeiros momentos até deixam uma impressão positiva, especialmente nas sequências em alto mar, onde os efeitos visuais se mostram competentes dentro do contexto. No entanto, rapidamente se instala um problema recorrente: a teatralidade excessiva. As interpretações soam pouco naturais, com diálogos demasiado declamados e artificiais. É compreensível que existam condicionantes linguísticas próprias da época retratada, mas isso não justifica a falta de fluidez. Há exemplos de séries que lidam com desafios semelhantes e conseguem manter uma entrega mais orgânica.
Mesmo atores experientes como Diogo Morgado acabam por cair nesse registo, o que sugere que a questão poderá estar mais na realização do que propriamente no elenco. As escolhas criativas levantam dúvidas também ao nível visual. Quando a ação passa do mar para terra, os cenários e efeitos tornam-se menos convincentes, com uma sensação algo artificial. A alternativa da realização é tentar disfarçar essa limitação com planos mais fechados, mas o resultado acaba por parecer demasiado controlado, sem grande dinamismo ou inspiração, tudo muito estático.
Ainda assim, todos estes aspetos poderiam ser relativizados tendo em conta os constrangimentos de produção que filmar uma série que se passa naquele período enfrenta. No entanto, o maior problema surge na narrativa. O episódio revela-se monótono, com um ritmo arrastado e diálogos pouco envolventes. Tendo em conta a riqueza histórica do período e as múltiplas abordagens possíveis, esperava-se uma construção mais cativante. No final, fica a sensação de indefinição quanto ao rumo da série, sem momentos verdadeiramente marcantes que despertem interesse para o que vem a seguir.
Este tipo de produções continua a ser importante para o panorama televisivo nacional, pois pode abrir caminho a projetos mais ambiciosos no futuro. O desafio está em transformar limitações em oportunidades criativas, apostando numa narrativa forte que compense eventuais fragilidades técnicas. Séries como Irreversível, com uma abordagem contemporânea consistente, Espias, que explora bem o século XX em contexto de guerra mundial e do nosso papel na mesma, ou até Lusitânia, que trouxe uma interessante incursão pelo lado místico do nosso folclore, mostram que há capacidade para fazer mais e melhor.
Resta agora esperar que os próximos episódios consigam corrigir o rumo e explorar melhor o potencial de uma história com tanto para oferecer, abrindo caminho para mais narrativas ambientadas na nossa história mais antiga, um território ainda pouco explorado, mas cheio de possibilidades.
O primeiro episódio de Fernão Lopes: O Renegado estreia hoje na RTP1, com os restantes a serem emitidos semanalmente, às quintas-feiras. Se preferires maratona, a série ficará disponível na integra na RTP Play.