Classificação

8
Interpretação
8
Argumento
8
Realização
7
Banda Sonora

[Pode conter spoilers]

Maid chegou à Netflix no passado dia 1 de outubro como um balde de água fria que nos acorda para uma realidade que nem sempre temos muito presente, mas poderia acontecer com qualquer um de nós. Em Dollar Store, o primeiro episódio de Maid, Alex (Margaret Qualley), a nossa protagonista, embarca numa difícil jornada de sobrevivência em que começa do zero, sem ajuda de ninguém, com uma filha para sustentar e sem dinheiro.

Alex é uma jovem mulher corajosa, determinada, um pouco insegura, mas resiliente. Decide dar o passo para sair da relação tóxica em que se encontrava depois de um incidente de violência por parte do namorado, principalmente com o intuito de proteger a filha Maddy (Rylea Nevaeh Whittet). Nota-se que está muito magoada com as atitudes do namorado Sean (Nick Robinson) e quer afastar-se dele, mas não é capaz de reconhecer que é vítima de maus-tratos. Fará de tudo para proteger a filha de dois anos e para se tornar independente. Sean é um homem instável, tóxico, abusivo e torna-se violento quando bebe, embora, segundo Alex, apenas o faça com objetos, que esmurra, e através de palavras. Até agora era Sean quem a sustentava, tornando-a dependente dele, e parece ter conseguido isolá-la, deixando-a sem quase ninguém que a ajude. Paula (Andie MacDowell) é a mãe de Alex, com quem a nossa protagonista não parece ter uma boa relação. É uma artista de espírito livre, pouco responsável, instável e parece que vive no mundo da lua. O pai de Alex é Hank (Billy Burke), um homem aparentemente calmo e responsável, que se encontra separado de Paula.

Vemos então retratadas ao longo de todo o episódio importantes temáticas que com certeza se irão manter com o desenrolar da trama, entre elas o abuso psicológico, a violência, as relações tóxicas, problemas financeiros e o trabalho precário. Acho fundamental trazer este tipo de problemáticas aos nosso ecrãs, não só para mostrar a muitas mulheres atualmente em relações tóxicas e abusivas que não são as únicas e que é possível sair delas, mas também para alertar o público em geral para a gravidade destes problemas, que são bem mais frequentes do que pensamos. Permite-nos ver a situação de dentro, a partir da perspetiva de alguém que a vive na primeira pessoa, o que mais facilmente poderá provocar empatia no público. A dificuldade financeira vivida por Alex é transversal a muitos de nós. Assim, este episódio acaba por nos “abanar” e desinquietar, não nos deixando ficar indiferentes.

Achei especialmente interessante a forma como o dinheiro que tem disponível aparece no ecrã quando precisa de o gastar ou quando faz contas à vida. Este valor vai atualizando e diminuindo à nossa frente, tornando o problema financeiro mais real para o espectador. Da mesma forma, também as mensagens que recebe são apresentadas no ecrã. As cores mais escuras em algumas cenas transmitem de forma eficaz as emoções negativas de Alex. O uso de curtos flashbacks ao longo do episódio ajuda-nos a entender alguns aspetos do passado da nossa protagonista. No que diz respeito à música e efeitos sonoros, são sempre usados de forma adequada consoante a cena, tendo muitas vezes uma grande carga dramática.

Os 50 minutos que constituem este episódio estão repletos do drama, incerteza e stresse caraterísticos da vida de alguém numa luta pela sobrevivência. O realismo na forma como está feito o episódio permitiu-me acompanhar de perto e praticamente sentir a ansiedade da protagonista como se estivesse a passar pela mesma situação, numa constante esperança de que tudo melhorasse. Fiquei completamente colada ao ecrã e assim continuarei durante os restantes episódios. O episódio está muito bem conseguido, a mensagem é transmitida de uma forma muito eficaz, não só através de bons atores, mas também da realização do episódio no seu todo. Recomendo-o a todos aqueles que gostam de ver retratos terra-a-terra do nosso mundo. Garanto que não te vais arrepender e que ficarás, como eu, com ansiedade para ver o resto.

Inês Rodrigues