Classificação

8.0
Interpretação
8.0
Argumento
8.7
Realização
8.2
Banda Sonora

Depois de um longo tempo de espera, recuos e avanços no sentido de dar “luz verde” a este regresso ao universo que Kurt Sutter criou com Sons of Anarchy (SoA), chegou finalmente Mayans M.C.

Sou algo suspeito para comentar este piloto em particular por duas razões: Sons of Anarchy é sem dúvida nenhuma a minha série preferida de todos os tempos e não sou particularmente entusiasta relativamente a spin-offs, ainda para mais a nova série focaria um clube de motoqueiros demasiadamente secundário em Sons of Anarchy e que quanto a mim não despertava grande interesse na altura.

Ainda assim, após este piloto, revelo-me agradavelmente surpreendido:

É inevitável não fazer comparações com a série original, uma vez que estamos no mesmo universo, seguindo a vida de um clube de motoqueiros que sobrevive graças a atividades “fora da lei”, desta feita o clube “Mayans”, localizado próximo da fronteira entre o México e a Califórnia. No entanto, a série tem o mérito de gerar o distanciamento necessário para criar o seu próprio espaço e não depender nem sofrer com o impacto da série original. Em SoA o clube SAMCRO lidava com o tráfico de armas e a série tinha o seu centro nas relações familiares. Aqui temos o tráfico de droga com uma importância acrescida face à localização da ação. O clube é praticamente na sua totalidade composto por membros latinos, perdendo aqui alguma versatilidade de origens face ao grupo de SoA. O novo contexto corre apenas o risco de entrar num espaço que terá antena num período próximo ao da 3.ª temporada de Narcos, o que poderá desgastar a temática.

Em termos temporais, Mayans ocorre cerca de quatro anos após o final de Sons of Anarchy, não deixando de nos levar em flashbacks que ajudam a apresentar-nos as personagens centrais e as suas motivações, permitindo ainda o aparecimento de alguns easter eggs, com caras conhecidas de outros tempos.

O protagonismo fica a cargo do novato no clube, EZ, desempenhado por JD Pardo (Revolution), que acaba de sair da prisão, bastante tempo antes do final da sua pena, com um acordo de colaboração que o levará a um jogo-duplo perigoso. Os Mayans passam por uma fase em que operam segundo as ordens do cartel Galindo. A missão de EZ é conseguir entregar Miguel Galindo, o líder do cartel, às forças especiais, sem comprometer o clube ao qual jura fidelidade – twist muito interessante e que deixarei para descobrirem durante o episódio é que há algo mais que liga EZ a Galindo.

É certo que em SAMCRO tínhamos fortes embates internos, sobretudo relativos à liderança do clube, mas aqui vemos um clube ainda mais instável, com a sua independência comprometida por ligações perigosas, “camadas” internas com motivações e organizações distintas que poderão significar confrontos futuros…

Em termos de elenco, que sem dúvida foi uma das chaves para o sucesso de SoA, é precoce comentar o de Mayans, mas, para já, a destacar a presença da experiência de um nome grande: Edward James Olmos (Battlestar Galactica), que interpreta o pai de EZ. A personagem Marcos Alvarez, que era a personagem de maior destaque e presença do clube Mayan em SoA, retorna não tanto como líder absoluto, mas já mais distante, surgindo como “padrinho”, o mentor do clube.

Tivemos um piloto com bastante ritmo ao longo de mais de uma hora que permitiu enquadrar-nos no enredo a desenvolver ao longo da temporada, nomeadamente nas fações do clube, as suas divisões internas e relações externas com muito para explorar. Sem um argumento inovador, mas abordando temas atuais e com um realismo objetivo, o episódio mostrou-nos muitos pontos em aberto e fomentou o interesse em seguir com os próximos episódios. Houve de facto muita ação sobre rodas e debaixo de fogo armado, algo sangrento, ao estilo de Kurt Sutter, e julgo que temos uma série com potencial e que merece ser experimentada, pois poderá criar uma identidade própria, conseguindo assim atrair simultaneamente os fãs de Sons of Anarchy e novos seguidores.

André Borrego