[Contém spoilers]

The Handmaid’s Tale é uma das minhas séries preferidas de sempre, aquela que me faz sentir todas as emoções que tanto aprecio num drama. Para além de ter conquistado o público, a série é também muito aclamada pela crítica, feito que o filme de 1990 esteve longe de conseguir. Se pesquisarem um pouco, rapidamente descobrem que as críticas foram muito más. Tinha, portanto, baixas expectativas, mas sentia, ao mesmo tempo, bastante curiosidade. Nada como conhecermos algo para tirarmos as nossas próprias conclusões. Até porque o livro foi muito bem recebido pelo meio literário, também com boa aceitação dos leitores (tendo uma classificação de 4.11 no Goodreads), e eu não fiquei impressionada. Achei interessante, mas nada mais. Vamos pôr isto em termos simples, se me pedissem para responder com SIM ou NÃO se gostei do livro diria NÃO. Já sabem que a série é um grande SIM (já pareço um jurado do Got Talent), por isso só resta descobrirem o que achei do filme e já lá vamos.

Não sei muito bem como é que andava o mundo em 1990, visto que foi o ano em que nasci. Talvez o filme tenha simplesmente tido o azar de surgir numa altura em que uma história como esta não se revelava tão relevante como em 2017, o ano em que Donald Trump assumiu a Presidência dos Estados Unidos, com o populismo a espalhar-se, inclusive em vários países europeus. Em termos políticos, a série chegou na altura certa e é impossível ficar-se indiferente quando vemos no ecrã coisas que nos lembram a realidade em que vivemos. Não estou a comparar Gilead a nenhum país real, mas neste nosso mundo há muitas coisas erradas, tais como as há no universo de The Handmaid’s Tale. Agora procurem um poster do filme. Encontraram? Péssimo, não é? É totalmente errado apresentaram-nos sensualidade quando vão contar a história de um mundo em que as mulheres férteis são escravas sexuais de homens poderosos e respetivas esposas. Até aqui os argumentos são negativos, mas já vou mudar de tom, porque a coisa melhora. Bastante.

June é aqui Kate. Não temos Elisabeth Moss, mas sim Natasha Richardson como protagonista. Até gostei da escolha! Não vou fazer comparações com Moss porque ela é absolutamente genial e seria ingrato para qualquer pessoa, mas a forma como a história do filme é contada não obriga a uma interpretação tão intensa. No papel de Moira temos uma Elizabeth McGovern (a Cora de Downton Abbey) novinha, com cerca de 30 anos. Foi, provavelmente, a personagem de quem mais gostei. Sassy, divertida, refrescante. Aqui não há personagens negras, ao contrário da série. Esta ausência, tal como no livro, prende-se com uma crença ligada a fundamentalistas cristãos que consideravam que os negros eram descendentes de Cam, o filho de Noé, e por isso parte de uma maldição. Do pouco que me lembro da obra, o filme é-lhe bastante mais fiel do que a adaptação televisiva. Aqui, o Comandante (Robert Duvall) e Serena (Faye Dunaway) são interpretados por atores com 60 e 50 anos, aproximada e respetivamente. São e parecem mais velhos que os personagens da série. A base de ambos é muito parecida, mas este Comandante não me irrita tanto e esta Serena parece ter muito menos camadas que a de Yvonne Strahovski. Os acontecimentos são também imensamente semelhantes aos da 1.ª temporada da série, embora com algumas diferenças essenciais porque numa adaptação assistimos ao fim de uma história e noutra ainda há muito para contar.

Os personagens principais estão todos lá: Nick enquanto motorista do Comandante e responsável pela gravidez de Offred, arquitetada por Serena; Janine, a primeira handmaid que vemos dar à luz, embora numa cerimónia menos pública do que a que já conhecíamos, e, felizmente, sem a parte ridícula da wife a fazer de conta que está também a parir; a Tia Lydia, interpretada por uma atriz bem mais nova que Ann Dowd, e Ofglen (que, para nós, é Emily).

A primeira diferença evidente é o ambiente. Na série percebe-se imediatamente o medo nas personagens, pelo menos nas que estão em perigo. É um mundo em que não se pode confiar em ninguém, todos agem partindo do pressuposto que a pessoa que têm ao lado pode denunciá-las por um qualquer crime que pagarão com a vida. No filme não se sente tanto esta paranoia (totalmente legítima). As handmaids usam uma espécie de pulseira através da qual as suas entradas e saídas de casa para ir às compras são controladas, mas o ambiente parece muito menos sufocante, ainda assim. Também a casa do Comandante (que nem sequer tem nome, o que acho que é propositado, porque o personagem existe para representar aqueles homens e não uma pessoa individual) e de Serena tem uma aura completamente distinta. A dos Waterford pode ser imponente, mas é escura, incrivelmente opressiva. Esta também é grande, uma verdadeira mansão, mas está decorada com cores muito mais claras, mais leves, é agradável. Serena é vista a ver televisão e a fazer jardinagem, não passando o tempo todo a tricotar numa sala sem luz natural.

Também as roupas têm muito que se lhe diga. Estas handmaids têm visão periférica, porque não usam aquelas coberturas brancas que lhes envolvem a cara, e as roupas das wives provavelmente mereceriam a reprovação dos mais puritanos. Quer dizer, eu consigo ver-lhes as pernas. Aliás, os joelhos! Parece-me estranho tendo em conta as vestimentas tão mais tapadas da série, onde tudo o que vemos é basicamente mãos e cara. Aqui acho também que tivemos mais cedo a perspetiva das wives. Pensei muitas vezes no quão ingrato é o papel delas em Gilead. Não mais ingrato do que o das handmaids, obviamente, mas ainda assim… A existência das Colónias, de um movimento que quer acabar com Gilead começa muito mais tarde na série, mas aqui impôs-se um ritmo diferente, claro está. Senti falta da banda sonora, que aqui passa completamente despercebida. Finda a 3.ª temporada, já podemos permitir-nos pensar que Gilead vai capitular e que os responsáveis por ela vão pagar pelos crimes que cometeram contra a humanidade. No entanto, é uma esperança que sabemos que surgirá com muitos custos. Muito há-de correr mal até as coisas se recomporem. O filme, por ser menos pesado, é melhor a transmitir a sensação de que tudo vai correr bem.

O filme passou rápido, tem um bom elenco e uma história que nos deixa agarrados ao ecrã. Não achei extraordinário como a série, mas não sendo tão dark também não consegue ser marcante da mesma forma. No entanto, acho que as críticas desagradáveis são totalmente imerecidas. Não vou dizer que esta primeira adaptação do livro acrescenta muito ao que já viram na série, mas acho que mostra uma abordagem que vale a pena ser vista, nem que seja pela possibilidade de vos mostrar o quanto algo que tem tanto da essência de outra coisa pode originar um registo tão diferente. Não me arrependo nada, foi uma 1h45min bem passada!

Diana Sampaio