Há sempre aqueles personagens de quem gostamos logo que aparecem e que percebemos desde o início que vão ser os nossos preferidos. Tal aconteceu-me com personagens como Callie Torres, Brooke Davis, Regina Mills, Jessica Jones, Danny Reagan e Nomi Marks, que desde o início que são os meus preferidos das suas séries. No entanto, há sempre aqueles personagens que crescem em nós e de quem não gostamos inicialmente, mas a quem acabamos por reconhecer o mérito mais tarde. Esta crónica é precisamente dedicada aos personagens por quem dou o braço a torcer: de quem não gostava e passei a gostar.

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Beverly Goldberg (The Goldbergs): Há muitos tipos diferentes de mães, mas Beverly não poderia incluir-se noutra categoria que não a de mãe sufocante. Sempre é melhor do que ter uma mãe que não quer saber, mas equilíbrio é a palavra chave. Só que Beverly não consegue encontrar o equilíbrio entre ser uma mãe carinhosa, preocupada, presente, encorajadora e dar espaço aos filhos para poderem crescer e desenvolverem a autonomia apropriada às suas idades. Ao início, Beverly é quase ‘assustadora’, o tipo de mulher que faz pensar “ainda bem que a minha mãe não é assim”, mas rapidamente a personagem acaba por tornar-se o melhor da série. Beverly é verdadeiramente engraçada e absurda (no bom sentido) e é óbvio que os seus exageros só precisam de ser aligeirados. The Goldbergs não teria metade da piada sem a constante necessidade de Beverly em abraçar, beijar e acarinhar as suas crias ou de lhes chamar nomes carinhosos. Ah, e não nos podemos esquecer do praguejar. Esta série sem os bips dos palavrões também não seria a mesma coisa!

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Cary Agos (The Good Wife): Quando estamos no final da adolescência e/ou no início da idade adulta, é de esperar que nos identifiquemos e gostemos mais de personagens que, de alguma forma, também estão a iniciar um novo capítulo da sua vida. No entanto, em The Good Wife, isso não me aconteceu. Diane Lockhart e Will Gardner, advogados já experientes, eram os meus favoritos, enquanto os ‘novatos’ Alicia Florrick e Cary Agos não me despertavam o mesmo interesse. Não desgostava de Alicia, mas achava-a uma personagem insossa e Cary parecia-me totalmente dispensável. No entanto, apesar de ter continuado sempre a gostar imenso de Diane e Will, houve uma altura na série em que comecei a torcer pelos outros dois, para que as suas vidas profissionais resultassem na nova firma que viriam a criar juntos. À medida que Cary ganhava mais tempo de ecrã, fui gostando mais dele e o plot em que foi parar à prisão também foi interessante. Do que nunca gostei foi da relação entre ele e Kalinda, que já se sabia desde o início que não significava o mesmo para os dois.

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Emily Thorne (Revenge): Nenhuma personagem seria tão essencial nesta crónica. E sim, eu sei que o nome verdadeiro dela é Amanda Clarke, mas para os espectadores ela foi muito mais tempo Emily do que Amanda. Foi enquanto Emily que gastei muita energia a odiar a personagem. A sua jornada de vingança teve as suas consequências e fui da opinião de que aquilo que lhe tinha acontecido no passado não justificava o que estava a fazer no presente. Sim, porque ao procurar os culpados da destruição da sua infância ela estava também a prejudicar pessoas inocentes. Pessoas que, tal como ela em pequena, não tinham nada a ver com maquinações loucas. Confesso que torcia por Victoria, a má da fita, que eu considerava que, ao contrário de Emily, ao menos fazia tudo às claras, sem se esconder sob uma falsa identidade ou falsas pretensões de justiça. Foi quando retomei a série depois de a ter abandonado durante bastante tempo que a minha opinião sobre Emily começou a mudar. Tal coincidiu com a revelação de que, afinal, David Clarke estava vivo. Comecei a ver Emily de outra maneira, de uma forma mais humana, porque foi também nessa altura que ela começou realmente a parecer menos uma máquina de vingança. Nenhuma personagem além de Emily me fez passar do “porque é que não morres de uma vez?” ao torcer para que as coisas lhe corressem bem. Continuo a achar que o seu final feliz foi mais digno de um conto de fadas do que de uma história de vingança, mas certamente já não me teria dado gozo vê-la morta no final da sua jornada.

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Irmã Jude Martin (American Horror Story: Asylum): Nem todas as freiras têm de ser virtuosas e generosas! Há uma tendência nas séries para retratar as freiras como rígidas, mas Jude era bem pior do que isso. No entanto, na vida real, não acho que seja essa a ideia geral que se tenha. Pelo menos, eu andei numa creche gerida por freiras até ter ido para a escola primária e só tenho coisas boas a dizer! No início, Jude era terrível, fosse com Lana, com outros dos pacientes ou pelas suas teorias acerca do pecado. O seu passado não foi fácil e pode ajudar a explicar alguma coisa, mas nunca achei que justificasse a transformação de ninguém num monstro. No entanto, havia monstros muito piores que Jude em Briarcliff, monstros verdadeiramente assustadores. Várias circunstâncias levam a que a própria Jude se torne também ela uma das pacientes do asilo e é precisamente a partir daí que o seu caminho de expiação começa e que a personagem se torna verdadeira humana.

Jason Street

Jason Street (Friday Night Lights): Nunca gostei muito de personagens perfeitos, sempre gostei de pessoas com defeitos, nada de golden boys. E era precisamente isso que Jason era, um bom rapaz, um excelente atleta com um futuro promissor como quarterback, popular e com uma namorada perfeita. Até ao dia em que uma lesão de extrema gravidade durante um jogo de futebol americano lhe mudou a vida para sempre. A carreira desportiva já não era possível, uma vida normal também não e a namorada perfeita acabou por ser passado também. Jason mudou. Deixou de ser o tipo a quem tudo corria bem (não que não o merecesse) para ser o tipo que lida pela primeira vez com verdadeiras adversidades na vida. Sentiu-se traído (e com toda a razão) por Lyla se ter envolvido com o melhor amigo dele, que nem sequer o tinha ido ver ao hospital, mas a verdade é que ele próprio afastou a namorada. Mas como não o fazer? Eles eram demasiado novos para que Lyla assumisse o compromisso de ficar com ele depois daquilo. Nada mais era igual, mas Jason tornou-se um personagem muito mais relatable e a sua relação com Tim conseguiu florescer mesmo depois de tudo aquilo por que passaram.

Laure Berthaud

Laure Berthaud (Engrenages): Esta crónica também não faria sentido sem Laure. Quando me deparei com a série, totalmente por acaso, estava longe de prever que um policial francês se tornaria uma das minhas preferidas. Laure pareceu-me uma daquelas polícias que querem à força toda colocar alguém por detrás das grades para mostrar o serviço feito sem se preocupar se a pessoa é realmente culpada. No entanto, com o tempo, apercebi-me que Laure não era assim, mas uma polícia dotada e competente no seu trabalho, com bons instintos e que conseguiu ver aquilo que mais ninguém foi capaz. Além disso, é uma mulher forte e que foge um bocadinho àquilo que estamos habituados a ver em personagens femininas. Laure é uma personagem muito interessante e estou ansiosa por saber o que lhe reserva a 6.ª temporada! Espero que a RTP2 não demore muito a exibir os novos episódios.

Meg Fitch Crisis

Meg Fitch (Crisis): Há certos atores que quando vemos em determinado papel nos fazem pensar: “ai, isto não tem nada a ver com ele(a)” e foi precisamente essa a sensação que tive ao ver Gillian Anderson neste papel. Continuo a achar que talvez ela não tivesse sido uma das minhas primeiras escolhas para interpretar Meg, mas dou-lhe o mérito por ter pegado na personagem de uma forma que me fez mudar de ideias. Meg não pode ser colocada numa categoria de ‘boa’ ou de ‘má’, fica numa área cinzenta com a qual é muito mais fácil identificarmo-nos. Fazer o que é certo nem sempre é fácil, mesmo que até se tenha um coração bom. Nós e aqueles que amamos vêm, muitas vezes, acima do resto. No entanto, Meg mostra-se uma personagem mais complexa do que ao início fazia prever e gostei muito de acompanhar a ligação complicada que ela tinha com Susie, a irmã mais nova.

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Tiffany “Pennsatucky” Doggett (Orange Is the New Black): Poucas personagens conseguem ser tão frustrantes como Pennsatucky foi nas primeiras temporadas de Orange. Ela era o tipo de mulher que dizia coisas que a faziam parecer mais uma completa lunática do que uma crente em Deus. Fanática religiosa talvez fosse a expressão certa para caracterizar a personagem que defendia que as clínicas de aborto deviam ser mandadas pelos ares. Tenho dificuldade em perceber como é que nunca houve uma montanha de reclusas a querer partir-lhe os poucos dentes que lhe restavam, mas enfim… No entanto, a personagem mudou muito e teve um dos maiores crescimentos que vi numa personagem de uma série. Há que louvar Big Boo por ter sido um importante fator nessa mudança, mas ninguém muda realmente sozinho se não quiser. Então depois de ter sido violada pelo idiota do Coates, passei a sentir uma empatia enorme por Pennsatucky e pelo quanto ela foi capaz de ser uma pessoa melhor e não ceder à vingança, mas também não aprovo que tenha estabelecido uma relação cordial com o motherfu—-. Até estou com Boo quando ela diz que ele merecia sofrer. Penn não teve uma vida fácil e isso ajudou a moldar a sua personalidade terrível dos primeiros tempos da série, mas sem dúvida que se conseguiu redimir e nunca hei de esquecer quando ajudou Nicky a desintoxicar-se.

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Renata Klein (Big Little Lies): Laura Dern é incrivelmente carismática e isso é óbvio desde o primeiro segundo dela na série, mas gostar-se do desempenho não significava gostar da personagem. Suponho que me tenha deixado influenciar pela opinião negativa que Madeline tinha dela. Não devia! Afinal de contas, Renata limitou-se a ser uma mãe feroz que defendia a filha com unhas e dentes. É certo que foi um tanto ‘agressiva’ ao excluir apenas Ziggy da lista de convites para a festa de Amabella, mas se pensássemos que um miúdo tinha sido o responsável por magoar a nossa filha não iríamos querer mantê-lo afastado? Claro que sim. É certo que ela estava enganada, mas Renata também não pode ser censurada por isso, limitou-se a acreditar no que Amabella lhe disse e a menina teve medo de dizer a verdade. Renata tentou ser ‘pintada’ um pouco como a má da fita, mas nunca o foi na realidade. Renata também desempenhou um papel a ajudar a salvar Celeste de Perry e acabou por se tornar uma das minhas personagens preferidas de Big Little Lies, talvez até mesmo a favorita.

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Thomas Barrow (Downton Abbey): Thomas começa o seu percurso na série como alguém que pretende alcançar os seus objetivos sem se preocupar muito com o resto. Só está bem com o mal dos outros e não é muito apreciado pelos restantes empregados da casa. É mesquinho, amargo e desagradável com a generalidade das pessoas. No entanto, talvez isso seja uma máscara ou apenas um reflexo do quanto não consegue estabelecer relações significativas na sua vida. Contudo, aquando da morte de Sybil, é óbvio o quanto ele se preocupava com ela e o próprio admitiu que ela foi das únicas pessoas da sua vida a ter-lhe mostrado simpatia. Mais tarde, estabelece também uma adorável relação com o pequeno George, o filho de Mary e Matthew. Talvez Thomas só precisasse que lhe mostrassem bondade para ele ser capaz de fazer o mesmo e quem melhor para isso do que Sybil, que tinha um coração de ouro, ou uma criança? Tive imensa pena de Thomas quando se tentou matar. Toda a vida parece ter estado sozinho e ninguém merece isso. Thomas podia não ser a melhor pessoa do mundo, mas não era realmente mau.

Quais eram aqueles personagens que não suportavam ao início, mas de quem aprenderam a gostar?

Diana Sampaio