Na sexta-feira passada, a Netflix estreou a 1.ª temporada de The Boroughs e a primeira associação foi imediata: se Stranger Things pegava no espírito aventureiro de The Goonies e de E.T., aqui parece haver uma tentativa de transportar essa fórmula para algo mais próximo de Cocoon, outro clássico. E essa ideia, à partida, é ótima. Há ali uma premissa com potencial e percebe-se o que a série quer fazer, sobretudo tendo o envolvimento dos irmãos Duffer: pegar no fantástico e no mistério e cruzá-los com personagens marcadas pelo tempo, pela perda e pela proximidade inevitável da morte.
E, para mim, é precisamente aí que a série funciona melhor. Mais até do que no mistério ou na componente de ficção científica, são as personagens que acabam por carregar a história. The Boroughs fala de envelhecer, de luto, de solidão, do medo de ver a vida a aproximar-se do fim, e consegue abordar tudo isso com bastante tato. Há sensibilidade na forma como escreve estas personagens, há humor quando é preciso aliviar o peso dos temas e, mesmo quando cai num lado mais sentimental ou ligeiramente piegas, consegue fazê-lo de forma suficientemente honesta para nos manter envolvidos. A série acerta quando abranda e dá espaço às pessoas que habitam aquele lugar, aos seus dilemas e à forma como tentam lidar com aquilo que perderam ou com aquilo que ainda lhes falta dizer.
Já quando entra mais a fundo na componente de mistério e ficção científica, perde bastante impacto. A história acaba por soar demasiado familiar, com vários caminhos previsíveis e uma estrutura que raramente surpreende verdadeiramente. Tem alguns bons momentos e até algumas revelações eficazes pelo meio, mas as motivações dos vilões acabam por parecer demasiado superficiais e pouco desenvolvidas. Falta complexidade e falta sobretudo a sensação de descoberta que Stranger Things tinha tão bem: aquela mistura entre aventura, ameaça e estranheza em que parecia haver sempre algo novo à espera.
Curiosamente, Stranger Things era uma série protagonizada por crianças, mas nunca parecia infantilizar aquilo que estava a contar. Aqui acontece o contrário. Sendo uma história centrada em personagens mais velhas e em temas naturalmente mais duros, esperava-se uma abordagem talvez mais crua ou pelo menos mais ousada. Em vez disso, a série suaviza bastante algumas decisões e torna a componente fantástica mais inofensiva do que precisava de ser. Dá a sensação de que podia ter ido mais longe, ter levado a premissa mais a sério e arriscar um pouco mais.
No fim, The Boroughs vê-se bem. É uma série competente, visualmente cuidada, bem produzida e com um elenco muito sólido e uma banda sonora muito, muito boa. Tem charme, tem alguns momentos genuinamente engraçados e consegue criar ligação emocional com as personagens. O problema é que o argumento perde força precisamente quando devia elevar a série, na parte fantástica e de aventura. E isso sabe a oportunidade falhada, porque com um equilíbrio mais conseguido entre o lado humano e a fantasia podia ter sido uma série bastante acima da média. Assim, entretém, tem coração e vale a pena pelas personagens, mas fica a sensação de que podia ter sido muito mais se tivesse confiado um pouco mais na sua própria premissa e levado o fantástico tão a sério quanto levou os seus protagonistas.
Os oito episódios que compõem a 1.ª temporada de The Boroughs já se encontram disponíveis na Netflix.
Melhor episódio:
Episódio 6 – The Grey Rebellion – 6.º episódio foi, para mim, o ponto mais alto da temporada. Foi o mais divertido, o mais solto e também aquele em que a série finalmente começou a encaixar todas as peças que tinha vindo a espalhar até aí. As várias linhas narrativas, que até esse momento pareciam um pouco dispersas e nem sempre igualmente interessantes, começaram finalmente a cruzar-se e a ganhar uma direção comum, dando à história uma sensação de unidade e urgência que até então lhe faltava.
Personagem de destaque:
Sam Cooper (Alfred Molina) – O grande destaque vai claramente para Molina que entrega talvez a melhor interpretação da série e acaba por concentrar muito do que ela tem de melhor: vulnerabilidade, humor, melancolia e uma humanidade muito natural com uma pitada muito bem doseada de mau humor. É uma personagem cheia de pequenas nuances e ele consegue dar-lhe peso sem nunca forçar.