Stranger Things – Crítica da 5.ª Temporada
| 02 Jan, 2026
8

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A 5.ª e última temporada de Stranger Things, da Netflix, representa, acima de tudo, o fim de uma era. Não apenas o encerramento de uma série, mas o adeus a um fenómeno que acompanhou uma geração durante anos e que ajudou a redefinir o que o streaming podia ser. Há um sentimento constante de despedida que atravessa toda a temporada, mesmo quando o argumento nem sempre consegue acompanhar o peso simbólico desse momento.

Não foi a melhor temporada da série. Essa distinção pertence claramente à quarta, que foi a definição de televisão pura, ambiciosa, intensa e memorável. Depois desse pico, qualquer continuação teria sempre um desafio quase impossível. A primeira parte da 5.ª temporada começa morna, com um ritmo demasiado contido e algumas cenas que se arrastam em demasia, parecendo existir mais para preparar terreno do que para avançar verdadeiramente a narrativa. Ainda assim, cresce progressivamente e termina bem, recuperando tensão e a emoção que sempre esteve no ADN da série.

A segunda parte é mais fraca e irregular. O problema do ritmo acentua-se, com sequências que se prolongam mais do que o necessário, diluindo o impacto de momentos que poderiam ser mais fortes. Algumas escolhas narrativas são questionáveis e sente-se uma vontade excessiva de jogar pelo seguro. Faltou talvez um pouco mais de audácia. Stranger Things sempre soube usar a dor como motor emocional, como vimos no final da 3.ª e da 4.ª temporadas, e aqui opta por um tom mais esperançoso. Essa decisão retira algum impacto, mesmo sendo coerente com a mensagem final. Num mundo de desespero, preferem acreditar que, do outro lado, o sol ainda brilha.

No último episódio, conseguiram, a espaços, voltar à velha forma. Tem cenas memoráveis quase como pequenas homenagens a tudo o que a série foi, é e irá continuar a ser. O desfecho em si não é uma surpresa, pois não havia assim tantos caminhos possíveis e dificilmente a série poderia fugir muito a esse destino. Ainda assim, funciona. Não pelo choque, mas pelo peso da jornada. Foram anos a acompanhar estas personagens, a crescer com elas, e isso acaba por compensar as imperfeições. Não foi perfeito, é verdade, mas depois da 4.ª temporada qualquer coisa menos do que extraordinário pareceria insuficiente.

Também é importante olhar para a série enquanto um todo e para a forma como decidiu responder a uma das suas maiores questões: o que é, afinal, o Upside Down. A explicação segue um caminho bastante científico, algo que não era necessariamente esperado. No início, essa abordagem parece até complexa demais para aquilo que a série tinha mostrado até então, mas à medida que a narrativa avança, tudo se torna mais claro e coerente. Pode gostar-se mais ou menos da opção, mas de falta de respostas não nos podemos queixar. No final, praticamente tudo fica explicado.

A escolha de trazer de volta um velho “amigo” foi outro acerto, tanto a nível emocional como narrativo, rendendo algumas das melhores sequências de ação da temporada. E, já que se fala em ação, é impossível não destacar as mulheres da família Wheeler, com Karen (Cara Buono) a surgir como uma agradável e inesperada surpresa. Verdadeiras heroínas à antiga, evocam figuras icónicas como Linda Hamilton (que entra nesta temporada) ou Sigourney Weaver, reforçando de forma clara todas as inspirações dos anos 80 que são parte intrínseca da identidade da série e da magia que sempre a distinguiu.

As despedidas das personagens são, no geral, bem conseguidas. Têm em conta tudo o que passaram, os laços criados e o crescimento ao longo dos anos. Mesmo o facto de haver algumas coisas deixadas à interpretação não incomoda. Pelo contrário, é uma escolha que funciona. Nem tudo precisa de ser dito ou fechado de forma absoluta. Como num bom jogo de D&D, há espaço para teorias e para aqueles “e se” que ficam ao critério de cada um.

Stranger Things sofre do mesmo mal de séries como Lost ou Game of Thrones. Souberam fazer um build up tão forte que, no fim, talvez nenhuma conclusão pudesse ser verdadeiramente satisfatória. Ainda assim, não se pode negar o peso que teve. Foi o primeiro grande fenómeno do streaming e, muito provavelmente, o último grande fenómeno televisivo transversal como os conhecíamos. Hoje, o modo de consumir televisão mudou, os números/quantidade pesam mais do que a qualidade e as audiências estão cada vez mais fragmentadas, o que torna difícil imaginar algo semelhante a acontecer novamente.

Nesse sentido, Stranger Things ocupa no streaming, através da Netflix, a primeira grande plataforma a surgir, um lugar semelhante ao que This Is Us ocupou na televisão aberta. Séries que encerraram ciclos, definiram épocas e deixam no ar tanto receio como expectativa em relação ao que vem a seguir. O futuro é incerto, mas o legado está garantido. Imperfeita no fim, sim, mas marcante pela jornada e pelo impacto que deixou. Mesmo não sendo o desfecho completamente satisfatório que todos desejávamos, será sempre uma série incontornável.

Todas as temporadas de Stranger Things encontram-se disponíveis na Netflix.

Stranger Things - Crítica da 5.ª Temporada
Temporada: 5
Nº Episódios: 8
8
8
Interpretação
7.5
Argumento
8.5
Realização
8
Banda Sonora

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