Classificação

7
Interpretação
7.5
Argumento
7
Realização
7
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Temporada: 2

Número de Episódios: 10

A 2.ª temporada de Never Have I Ever já se encontra disponível na Netflix pelo que pudemos continuar a acompanhar, por mais 10 episódios, a vida complicada da adolescente indiano-americana Devi (Maitreyi Ramakrishnan), que para além de ter que lidar com questões típicas da idade ainda tem que lidar com a morte prematura do pai. A 1.ª temporada termina com um beijo entre Devi e o seu “arqui-inimigo” de infância Ben (Jaren Lewison), enquanto que Paxton (Darren Barnet), o seu eterno crush, lhe deixa uma mensagem de voz.

Isso leva, consequentemente, nesta 2.ª temporada, a que Devi fique indecisa e não saiba quem escolher, pelo que decide começar a namorar com os dois rapazes ao mesmo tempo, muito influenciada também pelo facto de que a sua mãe Nalini (Poorna Jagannathan) tinha a intenção de a levar de novo para a Índia. Portanto, o plano dela era aproveitar para estar com os dois rapazes, uma vez que num prazo de um mês iria voltar para a Índia. Felizmente, e ao contrário do que eu estava à espera, essa situação não é prolongada durante muito tempo, sendo que os rapazes descobrem o que está a acontecer no final do segundo episódio. Uma vez que Nalini acaba por desistir da ideia de se mudar para a Índia, Devi acaba por ter que lidar com as consequências dessa decisão. Para complicar ainda mais as coisas, surge uma nova personagem, a Aneesa (Megan Suri), também ela uma jovem indiana, algo que não agrada muito a Devi, e que a vai levar a tomar mais atitudes inconsequentes.

Confesso que na 1.ª temporada algumas dessas atitudes inconsequentes da Devi me irritavam, mas nesta 2.ª temporada comecei a perceber que talvez o objetivo fosse exatamente esse: mostrar uma personagem que comete erros, ainda para mais uma adolescente que está a passar pela perda do seu pai, que era um enorme apoio e como um herói para ela. Não quero com isto dizer que é justificável as decisões/atitudes que ela toma, mas tendo isso em mente torna-se mais fácil “tolerar” a personagem. Já para não falar que é através desses erros que Devi acaba por aprender e tornar-se uma pessoa um pouco melhor. Isso é importante não só para o crescimento da personagem, mas também para nós espectadores pois pode levar-nos a ponderar e/ou questionar essas atitudes, e até mesmo, de certa forma, levar-nos a retirar algum tipo de aprendizagem, por mais pequena que possa ser. Porém, ainda que o foco essencial sejam os dramas da Devi, também é dada importância às restantes personagens, em especial nesta 2.ª temporada, sendo que através das histórias destas também se abordam temas importantes:

Paxton deixa de ser somente um rapaz bonito e atleta, para passar a ser alguém que se esforça por ser melhor a nível académico, mesmo quando a maioria das pessoas duvida dele. Também é nos dado a conhecer a sua família e os seus antepassados. Ainda que a questão relacionada com os estudos seja um pouco cliché, gostei que dessem uma maior profundidade à personagem e gostei, principalmente, de saber um pouco mais sobre o contexto familiar dele, em especial a história dos seus antepassados. Foi, sem dúvida, algo bastante enriquecedor e interessante de ver.

Já que falei no Paxton aproveito para falar dele e da Devi. Embora Devi tenha demonstrado, ao longo da temporada, estar mais interessada no Ben, acaba por terminar a temporada com Paxton. Sinceramente, não te consigo dizer com quem gostaria que ela ficasse. Por um lado, sempre achei graça, desde a 1.ª temporada, às interações dela com o Paxton, ainda que levassem muitas vezes a confusões astronómicas e a decisões inconsequentes e/ou incompreensíveis (principalmente no que concerne as amigas); e nesta 2.ª temporada, parte da evolução do Paxton deveu-se à ajuda de Devi.

Por outro, também gostei, na 1ª temporada, da forma como a relação do Ben e da Devi foi sendo desenvolvida. Apesar de serem retratados como “inimigos” vamo-nos apercebendo que talvez a animosidade se trata, na realidade, de interesse amoroso. Além disso, nesta 2.ª temporada de Never Have I Ever, ainda que estivesse bastante magoado, Ben continuou lá para a Devi, não só para lhe chamar a atenção e levá-la a perceber (e remediar) os erros que comete, mas também para a aconselhar/ajudar.

Dessa forma, ambas as personagens, ainda que por razões diferentes, acabam por ser uma boa escolha. No entanto, caso haja uma 3.ª temporada, algo me leva a crer que Devi poderá acabar por ficar com o Ben. Se repararmos, ainda que a Devi tenha ido atrás do Paxton quando ele descobriu que ela também andava com o Ben, nos restantes episódios ela parecia estar mais determinada a ficar com o Ben, não fosse ele começar a namorar com a Aneesa, e não tanto com o Paxton. Inclusive, ela chega mesmo a referir que gostava de voltar para o Ben, enquanto que ela nunca demonstrou essa intenção para com o Paxton, a não ser depois de se envolverem no final do nono episódio, e ainda assim ela troca uns olhares com o Ben no baile. Isto, aliado ao facto de ela ficar já com o Paxton, e de Ben ter ficado bastante abalado com o que viu e com o que Eleanor lhe disse, mais especificamente que a escolha dela nem sempre recaiu no Paxton, poderá indicar que ele decidirá tentar reconquistar a Devi e, consequentemente, colocar a escolha/decisão dela em causa.

Relativamente às restantes personagens, Fabiola (Lee Rodriguez), tenta integrar-se no grupo de amigos da namorada, e lutar por uma maior representatividade, mas isso vai acabar por fazer com que ela tenha que se moldar, e até mesmo deixar de fazer as coisas que gosta, o que vai levá-la, consequentemente, a não saber onde é que se encaixa. Para além de ser um arco narrativo bastante importante, também foi bom ver Fabiola, no final, a perceber quem realmente queria ser.

Eleanor (Ramona Young) vive uma relação tóxica com um novo personagem, o Malcolm (Tyler Alvarez), e toda a gente se apercebe disso menos ela, sendo que quando é confrontada com a possibilidade de Malcolm a estar a trair, acaba por destratar as amigas em favor dele. Apesar desta situação ter durado pouco tempo, e de ter sido Malcolm a terminar com ela, também foi bom ver Eleanor a perceber o que realmente é bom/saudável para ela. Não estava à espera de um possível romance com o Trent, mas fiquei curiosa para ver como seria a relação deles.

Kamala (Richa Moorjani) consegue aquilo que ela pensava que iria ser um excelente estágio de doutoramento com um investigador de renome, mas os colegas de trabalho acabam por não a respeitar enquanto cientista, deixando-a de fora de um artigo, que se baseou na investigação dela. Tanto o seu namorado, Prashant (Rushi Kota), como o cientista de renome a aconselharam a não fazer caso da situação a fim de não criar problemas e colocar em causa a carreira dela, ainda para mais sendo que estava no início. Já farta da situação Kamala acaba por pedir conselhos à Devi o que culminou com ela a impor-se perante o responsável e a conseguir colocar o nome dela no artigo, algo que me deixou bastante orgulhosa. Resta agora saber como é que vai ficar a situação dela com o namorado, uma vez que ela fugiu pela janela durante o jantar de família, dado que estava com receio de ser pedida em casamento, e parece existir alguma química entre ela e o professor da Devi.

Por último, Aneesa sofre de distúrbios alimentares e por essa razão teve de mudar de escola. Esta última temática é deveras importante, ainda para mais quando a série indica, no final dos episódios em que refere esse assunto, que existe uma linha de apoio para aqueles que estão a passar por esse problema. Achei que foi uma atitude bastante boa, necessária, e de extrema importância.

Posto isto, só me resta aguardar para saber se existirá 3.ª temporada. Eu honestamente espero (e acho) que sim. Já tinha gostado bastante da 1.ª temporada, mas acho que gostei ainda mais desta. Confesso que quando decidi ver a 1.ª temporada não estava nada à espera de acabar por gostar tanto de Never Have I Ever. Apesar de ser uma série simples, leve e divertida (e com alguns clichés à mistura), aborda temas bastante importantes. Aliado a isso temos um estilo de narração próprio que dá um toque diferente à série e a torna ainda mais dinâmica, diversas referências à cultura pop e uma boa banda sonora.

Episódio de Destaque:

… stalked my own mother (Episódio 9) – neste episódio Devi descobre, após seguir a mãe, que as saídas em trabalho são na realidade encontros com o Dr. Chris Jackson (Common), algo que Devi não aceita muito bem. Algumas palavras menos simpáticas trocadas entre elas vão levar a uma conversa muito emotiva e honesta, não só entre mãe e filha, mas também entre a Devi e a sua extraordinária terapeuta, a Dr. Jamie Ryan (Niecy Nash). Estes dois momentos, que considero de uma extrema importância, aliados com a apresentação do Paxton para créditos extras, na qual ele leva o avô a falar do tempo que passou num campo de concentração, e da entrada dele pela janela do quarto da Devi, tornaram este episódio um dos meus favoritos de toda a série.

Personagem de Destaque:

Nirmala (Ranjita Chakravarty) – apesar de não ter sido a primeira personagem a vir-me à mente, sendo que na maior parte do tempo pensei em escolher a Kamala, principalmente depois do episódio sete, e também poderei escolher o Paxton, dado o desenvolvimento que lhe deram nesta temporada, depois do episódio nove a minha escolha começou a recair na Nirmala. Sem sombra de dúvida que foi uma excelente adição à série, não só em termos cómicos, mas principalmente por toda a sabedoria e compreensão que trouxe. Foi ela que no segundo episódio fez com que Nalini percebe-se que voltar para a Índia não seria o melhor, e no nono episódio repreendeu Devi e fez-lhe perceber que a vida é curta demais para as pessoas não se falarem e resolverem os seus problemas. Isso tem ainda mais impacto uma vez que a última conversa que ela teve com o filho foi uma discussão que terminou com ela a desligar-lhe o telefone na cara.

Cármen Silva