Unspeakable – Review da Minissérie
| 24 Abr, 2019

Minissérie

Número de episódios: 8

[Pode conter spoilers]

Unspeakable é uma minissérie do canal canadiano CBC Television e baseia-se nos livros Bad Blood: The Unspeakable Truth, de Vic Parsons, e The Gift of Death: Confronting Canada’s Tainted-Blood Tragedy, de Andre Picard. Estreou no país de origem no início do ano, mas só em abril chegou aos Estados Unidos, através da SundanceTV.

Unspeakable é o nome adequado para uma série que aborda um escândalo. A trama passa-se no Canadá, no início dos anos ’80, e foca-se no escândalo com sangue contaminado que assolou o país. O que aconteceu? Uma grande percentagem de doentes com hemofilia contraíram HIV e hepatite depois de terem sido expostos a sangue contaminado. Se é suficientemente grave que isto tenha acontecido, a coisa é ainda pior por não se tratar de um caso isolado. Países como o Reino Unido, a França e Portugal também se viram a braços com o mesmo escândalo, embora não necessariamente na mesma. Tudo isto aconteceu antes de eu ter nascido, mas acho que me recordo de ouvir mencionar a questão. No entanto, estava basicamente a zeros acerca do que se tinha passado antes de começar a ver esta série.

Começo por confessar que me senti surpreendida por isto ter acontecido no Canadá. O sistema de saúde canadiano é conhecido como um dos melhores do mundo e também eu o sabia. Como é que uma coisa destas acontece aos melhores? Não estou à procura de uma resposta, mas não podia deixar de perguntar.

Outra coisa, não sou uma rapariga de ciências. Toda a minha vida fui ligada às letras, mas sinto alguma curiosidade em relação ao universo médico, sobre o qual os meus conhecimentos não deixam de ser rudimentares. Sou uma completa leiga e por isso houve questões que me fizeram confusão como calculo que fariam a muitas outras pessoas. O sangue usado em transfusões é testado antes de ser administrado, certo? Então porque é que houve tantos milhares de pessoas infetadas à conta dessas transfusões? Porque a SIDA era uma doença que tinha acabado de surgir e sobre a qual pouco ou nada se sabia, incluindo as formas de contágio? Mas a hepatite não era uma doença nova e foram muitos os hemofílicos contagiados também com ela. São estas algumas das coisas em que pensei ao ver os primeiros episódios desta série. No entanto, o mais difícil de encaixar é o quanto as entidades incompetentes escolheram não fazer nada. Desculpas acerca de não quererem alarmar a população enquanto não houvesse certezas são completamente esfarrapadas. Como é que se pode permanecer impávido e sereno enquanto há pessoas a ficarem doentes por causa daquilo que as devia pôr boas? Como é que a mais ínfima possibilidade de contágio de uma doença assustadora não foi travada, visto que havia métodos alternativos de tratamento? Não acho que se trate apenas de incompetência, mas de negligência e, como em tudo, provou-se que os interesses económicos prevaleceram.

Entramos nesta história real através de personagens fictícias. Miúdos com hemofilia. Mas o que é esta doença? Fui percebendo aquilo que era, mas, a quem não viu a série, também não é difícil de explicar. Trata-se de uma doença genética e que basicamente compromete a capacidade do corpo para parar hemorragias. Estas pessoas sangram com facilidade, mesmo quando se trata de pequenas lesões, e estão mais sujeitas a contusões, que aumentam o risco de hemorragias. Assim, os doentes precisam de receber produtos de sangue para curar as suas lesões.

Questões médicas postas de parte, é importante lembrar que estamos a falar de pessoas. A SIDA, quando surgiu, foi uma doença associada à comunidade homossexual e por isso demorou muito até que a população geral ou as entidades competentes decidissem fazer realmente alguma coisa para travar esta epidemia. No entanto, a SIDA afetou também muitos hemofílicos, bem como outras pessoas da dita população geral que tinham sido submetidas a cirurgias. Não consigo parar de pensar num casal adorável, já com os seus 70 ou mais anos, que ficaram doentes. Ele recebeu uma transfusão de sangue que estava infetado e acabou por transmitir à mulher. A desculpa do imbecil do médico para não lhes ter dito nada: Ah, com a vossa idade não pensei que tivessem uma vida sexual ativa. A sério, mas há alguma coisa mais revoltante do que isto? Que direito é que um médico tem de esconder informação clínica ao seu paciente, ainda para mais quando se trata de uma doença contagiosa? Esta série expõe uma quantidade inacreditável de situações inacreditáveis e revoltantes, mas esta marcou-me.

Sabem o que é que pensei muitas vezes quando entidades como a Cruz Vermelha canadiana e o Bureau of Biologics se desculparam como não há havendo provas conclusivas que os fizessem tomar medidas de prevenção? Que no caso de um crime, em julgamento, basta uma dúvida razoável. Aqui não deveria funcionar da mesma forma? Trata-se da vida de milhares de pessoas e das suas famílias e havia bem mais do que uma dúvida razoável que devia ter feito as entidades mexerem-se.

Esta é uma série muito interessante pelos temas que aborda e as verdades que expõe, apesar de haver personagens de quem gostamos, claro, e sem desprimor das histórias particulares, mas é a realidade do tema sobre o qual se debruça a sua maior força. É assustador pensar-se que o governo do nosso país – independentemente de qual ele seja – pode não fazer nada enquanto milhões de pessoas morrem e que aqueles que deviam ser diretamente responsáveis pela qualidade da saúde não olham muitas vezes pelos interesses dos cidadãos. Como é que se pode voltar a confiar num sistema que tanto falhou?

Por falar em falhas… Fez-me confusão que tenham passado décadas e que os personagens não tivessem sofrido nenhuma alteração física. Sarah Wayne Callies, por exemplo, para citar um nome mais conhecido, mas não foi a única, tinha o mesmo aspeto jovem enquanto mãe de um menino de dez anos e avó de um recém-nascido. Só se lembraram de colocar nos atores alguns traços de envelhecimento no último episódio, quando claramente deviam tê-lo feito mais cedo.

Melhor Episódio:

Episódio 6 – Este foi o episódio mais emocional de todos, sem qualquer espécie de dúvida. Em televisão, não acho que haja nada melhor do que isso. Gosto quando uma série mexe comigo e Unspeakable fê-lo do início ao fim, mas este antepenúltimo episódio marcou-me de uma forma especial. Foi nele que pudemos ouvir os familiares de pacientes falarem sobre as perdas que sofreram. Nem todos viram filhos, pais ou companheiros de vida morrerem, mas as suas vidas foram tremendamente afetadas e postas em pausa, em muitos dos casos. Este é também o episódio em que assistimos a um inquérito que tem como objetivo determinar se o sistema de sangue canadiano é seguro e apurar aquilo que se pode fazer para que nenhuma tragédia volte a acontecer. Há claros culpados, mas não se trata de um julgamento, nem há responsabilidades criminais a serem apuradas. É precisamente isso que ajuda a tornar tudo emocional. Os responsáveis estão impunes. É claro que isso não devolveria a vida a ninguém, mas seria uma forma de fazer justiça.

Personagem de destaque:

Will Sanders – Este personagem é o pai de um menino, Ryan, com hemofilia. Desde que houve sinais de que os hemofílicos estavam a ser contagiados com hepatite e o vírus da SIDA, este pai lutou de todas as maneiras possíveis para evitar que isso acontecesse ao filho e outras pessoas na mesma situação. Foi uma luta muito longa e difícil, mas que produziu frutos. Ryan desenvolveu hepatite, mas conseguiu escapar ao VIH e chegou a adulto, altura em que novos desenvolvimentos no campo da medicina lhe permitiram ficar completamente curado. Neste tipo de luta, é frequente que as pessoas se percam, mas não foi isso que aconteceu com Will. Ele nunca encarou a sua batalha como algo pessoal, não se permitiu ficar obcecado nem frustrado quando as coisas não corriam bem, e conseguiu estar presente enquanto bom pai e bom marido.

Diana Sampaio

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