O primeiro episódio de The Testaments (Os Testamentos), a nova série do universo de The Handmaid’s Tale, estreou hoje no Disney+ e, para já, é pelo menos satisfatório. Ainda é cedo para perceber se estamos perante uma série com o mesmo impacto da original, que nos deu momentos brilhantes, sobretudo nas primeiras temporadas. Talvez seja até injusto comparar apenas um episódio com uma série tão marcante, por isso faz mais sentido avaliá-lo por si só, sem o peso dessa responsabilidade, embora, por razões óbvias, os paralelos sejam inevitáveis.
A história volta a desenrolar-se em Gilead – o que imediatamente nos traz aquela atmosfera opressiva e familiar e depois dos acontecimentos da última temporada de The Handmaid’s Tale -, onde acompanhámos o dia a dia de Agnes (Chase Infiniti), uma adolescente, filha de um capitão, que frequenta a escola da Tia Lydia (Ann Dowd) para futuras esposas. É neste contexto que vemos o quotidiano da escola e destas adolescentes e é precisamente aqui que a série me perde um pouco. Ainda assim, há pormenores interessantes na forma como a narrativa é construída, nomeadamente o artifício da casa de bonecas, usado para contextualizar as personagens e as suas relações. Funciona bem, até pela idade de Agnes, e ajuda a dar uma leitura quase simbólica daquele mundo altamente controlado.
Mantém, obviamente, os elementos característicos da série original. A fotografia é bastante bem conseguida, muito focada nas cores, que acabam por ser quase uma personagem por si só. Continua presente a representação daquele universo opressivo, talvez até mais fechado do que antes, fruto das derrotas e do recuo de Gilead. E, de facto, oferece-nos uma perspetiva diferente: em vez de acompanhar quem foi apanhado no meio daquele sistema, mostra-nos quem já cresceu dentro dele.
Cada uma das adolescentes funciona quase como um estereótipo do que se pode tornar alguém educado naquele ambiente, o que até é interessante do ponto de vista narrativo. A qualidade está lá, sem dúvida, mas ao mesmo tempo tudo parece menos denso, mais contido. No entanto, pode muito bem ser aquela sensação de calma antes da tempestade. Sobretudo porque, depois daquele final, com tudo em ebulição, é difícil acreditar que a narrativa tenha realmente recuado tanto. Dá a sensação de que este ambiente mais pacífico, calmo e ordenado está apenas a ser construído para, mais tarde, ser inevitavelmente abalado pela agitação e pelo caos que marcaram o final de The Handmaid’s Tale.
Ainda assim, sendo o primeiro episódio, The Testaments cumpre bem o seu papel. A apresentação das personagens foi eficaz e a nova adolescente que vem de fora de Gilead, Daisy (Lucy Halliday), traz consigo um certo mistério. A dinâmica entre ela e Agnes, vindas de realidades opostas, pode muito bem ser o elemento que vai dar mais força à série daqui para a frente e o fio condutor para revelações e reviravoltas, que são sempre bem-vindas.
Para já, o primeiro episódio de The Testaments é competente. Sem deslumbrar, consegue ser sólido. Não me prendeu tanto como The Handmaid’s Tale conseguiu fazer, mas vou continuar a ver – mais um ou dois episódios pelo menos – para lhe dar a oportunidade de me surpreender pela positiva.
Os três primeiros episódios de The Testaments ficaram hoje disponíveis no Disney+ e os restantes serão lançados semanalmente.