Classificação

7
Interpretação
8.5
Argumento
6.5
Realização
6
Banda Sonora

Depois dos êxitos de Black-ish e Grown-ish, surge agora Mixed-ish, que nos leva de volta à década de 80 para nos mostrar a caricata infância de Bow (interpretada por Tracee Ellis Ross nas séries anteriores e que vemos agora na sua versão mais jovem na pele de Arica Himmel). Narrada por Ross, a série explora a adaptação da família Johnson ao mundo real, depois dos anos passados numa comuna hippie.

Quero desde já deixar claro que não sou, de todo, a pessoa mais indicada para dissertar sobre o valor cultural que uma série como Mixed-ish (assim como a sua antecessora Black-ish) poderá ter. No entanto, posso atestar à forma como os temas de raça e de género continuam a ser tratados de uma forma cuidada e respeitosa sem prejuízo à qualidade da série como sitcom. Feito este que, no atual clima global e, em particular, americano, seria mais que suficiente para me fazer preferir séries como Mixed-ish a qualquer outra série parecida que possa estar no ar de momento. Não é, no entanto, esta a razão da minha preferência, o que ironicamente me deixa mais ainda convencida da qualidade desta nova série.

Dedicada à curiosa infância de Rainbow “Bow” Johnson, Mixed-ish é sobretudo uma série sobre a família. Sobre as dificuldades da manutenção dos ideais familiares mais básicos de amor, respeito, empatia, perante um mundo que parece negar esses mesmos ideais. Os Johnsons são-nos apresentados como idealistas, como hippies cuja dedicação a estes ideais é quase cómica, mas as dificuldades que eles enfrentam são reais, muito humanas, e universais. Com a agravante de uma questão racial complexa, particularmente no panorama da América dos anos 80, os Johnsons enfrentam diariamente o mundo real na tentativa de arranjar um equilíbrio entre o mundo como ele é, e o mundo como eles gostariam que fosse.

Paul (Mark-Paul Gosselaar) e Alicia (Tika Sumpter), em quem a série (liderada por Himmel no papel de Bow adolescente) discretamente se apoia, interpretam este conflito com uma preocupação e uma dedicação louváveis. Transparece, em todos os momentos e em qualquer situação, a sua preocupação com o bem-estar desta família e com a sua integração num mundo que não está pronto para a receber. A posição particular de Alicia como mulher negra nos EUA na década de 80 e as concessões que está disposta a fazer por si e pela sua família são, no mínimo, comoventes. A questão da bi-racialidade é tratada com uma inteligência que permite evitar a delicadeza ou cair no politicamente correto, assim como manter o carácter cómico da série. E até a intervenção de Paul quando se apercebe que nem pode forçar o mundo a ver a família dele como ele vê, nem compreender verdadeiramente a situação em que a mulher e os filhos se encontram, revela que Mixed-ish (assim como Black-ish e Grown-ish) é sobre muito mais do que parece à primeira vista.

Uma série importante, muito interessante, e surpreendentemente profunda, que nem por isso deixa de ter o caráter leve e divertido da sitcom que é. Um verdadeiro must watch para quem gosta do tema, e uma bela escolha cómica para os menos interessados.

Raquel  David