Classificação

8.5
Interpretação
8.3
Argumento
8.8
Realização
8.4
Banda Sonora

Um dos eventos televisivos mais aguardados do ano chegou finalmente, a série de culto Prison Break está de volta aos nossos ecrãs.

A vaga de reboots e remakes em oposição à criação de novas histórias de raiz tem vindo a ser uma realidade cada vez mais frequente, infelizmente com os exemplos mal sucedidos a sobreporem-se avassaladoramente face aos que não comprometem o original. O exemplo mais óbvio que recordo recentemente é o de Heroes Reborn, que ficou a anos-luz da qualidade da temporada original de Heroes, manchando por completo a imagem que os fãs tinham da série. É prematuro tirar grandes conclusões quanto a este regresso de Prison Break, mas a verdade é que há muito a elogiar neste piloto e, no mínimo, e não obstante uma série de críticas negativas que já foram surgindo, penso que podemos estar esperançosos e entusiasmados com o que os próximos episódios poderão trazer.

Prison Break foi um sucesso estrondoso entre 2005-2009, muito por conta de uma 1.ª temporada brilhante, diferente de tudo o que já tínhamos visto nas séries até então. Assistimos a um plano meticulosamente planeado por Michael, um “MacGyver sofisticado” para salvar o irmão, que se encontrava, injustamente, no corredor da morte. E tirar o irmão da prisão era só o início do plano, plano esse que acabou por ser bem mais acidentado que o planeado, implicando a inclusão de convidados indesejados no plano de fuga. Foram oito os homens que fugiram da prisão de Fox River. Dos oito fugitivos, cinco mantiveram as suas vidas até ao final da temporada anterior: Michael Scofield, Lincoln Burrows, T-Bag, Fernando Sucre, C-Note… e estão todos de volta. É aí que esta sequela de Prison Break começa a somar pontos face a outros remakes, porque este regresso só faria sentido com o elenco original. E aí está ele, praticamente intacto, somando-se ainda aos cinco fugitivos de Fox River, Sara, a grande paixão de Michael. Outro ponto que considero muito positivo é termos Wentworth Miller (Michael Scofield) e Dominic Purcell (Lincoln Burrows) na produção, pois a série tem um grande significado para eles, a motivação não será apenas monetária e com certeza vão querer uma despedida em grande.

Dado o enorme sucesso da trama original, é normal que se façam comparações e ainda bem que há elementos típicos e caras conhecidas a que Prison Break nos habituou  presentes, mas tentar copiar literalmente a fórmula antiga seria, a meu ver, um erro e para desfrutarmos deste evento de 9 episódios temos de nos distanciar do que foram as temporadas anteriores. Porque senão começam a surgir as questões que talvez não façam muito sentido e nunca venham a ser descortinadas nesta série. A título de exemplo: Theodore Bagwell, condenado por crimes de homicídio e violação, com a agravante da fuga, está livre que nem um passarinho apenas 7 anos mais tarde? Estranho, não? Lincoln, depois de todo o sacrifício do irmão para lhe proporcionar a maior dádiva que é a liberdade está de volta aos caminhos mais obscuros? Posso tentar compreender pela perda do irmão, mas não faz muito sentido. Sara ultrapassou um amor tão grande como o que tinha com Michael rápido demais, não? E o que é feito de algumas personagens desaparecidas, sendo a mais óbvia o filho de Lincoln, LJ, ou o detetive Mahone? Mas vá, vamos descontar esses pormenores porque eles existem para servir o propósito da nova trama e quem sabe se alguns deles não vão mesmo ser explicados no decorrer da série.

Em 2009, Prison Break despediu-se de nós com um final emotivo que marcou os fãs da série, culminando com um desfecho que consagrava o herói Michael Scofield com a conquista de tudo pelo que lutou, a liberdade da sua família, uma oportunidade para o irmão Lincoln, a mulher Sara e o pequeno Michael terem uma vida feliz. Essa conquista veio com um preço, a vida de Michael, o que, de certo modo, encerrou qualquer expectativa de retorno da série e o sacrifício de Michael caía que nem uma luva na generosidade da personagem, elevando-o a um plano sublime, quase divino no mundo das séries. Acontece que Michael não morreu de facto e esse é o ponto de partida para esta sequela.

Ironicamente, ou calculado ao milímetro, ao jeito de Scofield, a pista sobre o facto de estar vivo e da sua localização é entregue a T-Bag e digo curiosamente porque sabemos bem que Scofield e T-Bag nunca foram amigos nem nada que se parecesse. Mas foi um modo efetivo de a mensagem chegar rapidamente a Lincoln. Na pista, uma foto de Scofield com uma nota de rodapé com uma mensagem encriptada, como Michael tantas vezes nos brindou no passado, que identificava a sua localização, a prisão Ogygia, no Iémen. Foi mais do que suficiente para pôr o sangue de Lincoln a ferver e iniciar a demanda para encontrar o irmão, demanda esse que o levou a abrir a campa, que estava vazia, confirmando a sua suspeita. Simultaneamente, e estará com certeza relacionado, Lincoln e Sara começam a ser perseguidos e as suas vidas ficam debaixo de fogo, com o atual marido de Sarah a ir parar ao hospital com uma bala numa perna. Com um filho pequeno e o marido a precisar dela, Sarah não pode acompanhar Lincoln na sua missão ao Iémen em busca de Michael, por mais que desejasse que tudo fosse verdade. Mas felizmente uma cara bem conhecida de todos tem agora contactos estratégicos que podem facilitar a entrada de Lincoln na prisão. Franklin C-Note, que tem uma dívida eterna para com Michael, pertence agora um a grupo religioso da Jihad (uma corrente bondosa, no entanto). Viajam então os dois para o Iémen e em solo americano fica Fernando Sucre, preparado para o que vier a ser preciso para ajudar o seu grande amigo.

Para dificultar tudo, o Iémen está no meio de uma guerra civil, com o povo a procurar sair do país. Lincoln não terá vida fácil no Iémen e para aceder à prisão teve mesmo de abdicar do seu passaporte, mas sair do país será uma missão para mais tarde, agora só quer ver o seu irmão e confirmar que está vivo. E pôde mesmo confirmá-lo com os seus próprios olhos e filmar para ter provas. A existência de Michael Scofield parece ter sido apagada, provavelmente propositadamente, uma vez que terá encenado a própria morte e agora responde pelo nome de Kaniel Outis, que parece ser o nome de um grande terrorista. Michael finge não reconhecer o irmão, mas tem agora duas tatuagens novas (que continuam a ser fundamentais como foram no passado) nas mãos que faz questão de mostrar para a câmara e que serão com certeza a próxima pista a seguir por Lincoln e C-Note.

Não sabemos o porquê de Michael estar ali, o quanto estes sete anos o mudaram, qual a sua motivação, mas podemos estar certos que ele tem um plano. E esse plano será genial, como sempre. E inclui o seu irmão e até o seu rival T-Bag que, à custa desse plano, já ganhou uma nova mão robótica.

Além da trama central da fuga da prisão, temos a “dita guerra civil” e o terrorismo, tão em voga nos tempos que correm. Se por um lado dá um carácter social e político, que poderá ser interessante se bem explorado, por outro, pode tornar a missão “grande demais”, podendo tornar-se esta sequela demasiado rebuscada e perdendo algum foco na narrativa central.

Em suma, o que posso dizer com segurança é que, depois das várias críticas que fui lendo ao longo da semana, confesso que posso agora respirar de alívio. Não comprometeu nada, não desiludiu, foi ótimo ver o gangue reunido e acredito que podemos esperar grandes momentos vindos destes oito episódios. E não será por acaso que o site IMDB, cuja classificação das séries e filmes é votado por todos quantos quiserem, apresenta um notável 9.7 para esta sequela. Nada mal! So far so good! Eu mal posso esperar pelo que aí vem.

André Borrego