Classificação

9
Interpretação
7
Argumento
8
Realização
8
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Estamos prontos para finalmente aceitar Jodie Comer como a nossa Senhora e Salvadora? Estejam à vontade para me acusar de blasfémia, mas depois deste episódio justifica-se. Que performance da atriz britânica! De arrepiar!  

Esta semana, Killing Eve levou-nos à ‘Mother Russia’ para conhecer a família de Villanelle, que até agora pensávamos estar morta, dedicando-lhe o episódio por inteiro. Foi estranho deitar abaixo as paredes que até agora protegiam Villanelle. Sempre foi claro que ela tinha algum trauma, mas perceber a dimensão exata desse trauma e destruir ainda mais a fachada de mulher sem sentimentos que envolve a assassina foi desconcertante. Vimos Villanelle, tão extravagante como sempre, mas muito mais vulnerável; ficámos a perceber a razão pela qual ela sempre agiu de forma demasiado infantil – porque não teve infância e por isso nunca cresceu; ficámos a perceber melhor ainda como o lado empático do seu cérebro funciona; e, acima de tudo, ficamos a saber, agora, que, muito basicamente, Villanelle é filha da sua mãe. 

Esta abordagem mais humana e sentimental que temos visto nesta temporada prejudica bastante a aura de frieza, opacidade, mistério e desconcerto que tornava a série tão única. Apesar de ser, sem dúvida, interessante ver as personagens mais expostas, este tipo de storytelling é algo a que já estamos muito habituados na generalidade das séries dramáticas e Killing Eve destacava-se das massas por oferecer um novo estilo, uma nova atmosfera. Até agora estávamos a habituar-nos à superior transparência desta temporada, mas a três episódios do fim fica a tornar-se óbvio que falta algo. Sinto que esta temporada, até agora, foi a menos “fora da caixa” de todas. Muitas das tentativas de ser excêntrica e sombria ficaram aquém e o crescente sentimentalismo retira mais do que acrescenta. Isto não quer dizer que não continue a ser uma ótima série, com um elenco de luxo, mas até agora esta temporada ainda não satisfez por completo. 

Mesmo assim, esta semana não ficámos desprovidos de momentos de grande qualidade, sendo de destacar o confronto final entre Villanelle e a sua mãe que, num capítulo menos satisfatório, reuniu todos os aspetos para atingir o estatuto de cena icónica. Foi o melhor momento do episódio em termos de argumento e representação, com um diálogo de cortar a respiração em que mãe e filha se acusam mutuamente de serem as causas dos males uma da outra. Ficámos a saber que Villanelle já era psicótica em criança e que os seus pais a abandonaram por medo, mas também que a sua mãe é tão cruel quanto ela ou talvez pior, porque se recusa a admiti-lo. No fim, penso que todos dissemos em uníssono “mata-a, Villanelle”. E assim foi. Villanelle comete o crime mais violento da sua vida, por ser contra a mulher que lhe deu a vida (o facto de ter morto mais três estranhos não nos choca, porque em todos os episódio, sem falta, faz o mesmo). Deixa os dois irmãos a salvo, chegando até a concretizar o sonho do irmão mais novo de ir ver Elton John a Inglaterra. 

Pode parecer contraditório criticar o crescente sentimentalismo da série e logo a seguir elogiar a cena mais crua do episódio, mas a verdade é que, ainda que este tipo de cenas continue a resultar muito bem, a falta de complexidade na maioria dos diálogos no resto do episódio prejudica o produto total final. A série continua a conseguir produzir cenas individuais incríveis, mas no seu conjunto algo está a falhar. Ainda assim, o melhor episódio da 3.ª temporada, até à data, foi sem dúvida o terceiro, que esteve à altura de outros grandes da série, o que significa que é muito possível que os restantes episódios sejam igualmente incríveis.

A verdade é que com melhor ou pior argumento (e isto é algo que já repeti várias vezes nas minhas reviews semanais), uma coisa que permanece igual, ou até talvez melhor, é o trabalho das atrizes de Killing Eve. Esta semana, foi a vez de Jodie Comer mostrar exatamente porque ganhou o Emmy de Melhor Atriz em novembro passado. A última cena do episódio, especialmente, foi qualquer coisa de maravilhoso. A atriz descreveu esta cena como o momento em que Villanelle se apercebe que, por muito que tente, nunca conseguirá matar o seu passado, nunca conseguirá matar Oksana. Jodie Comer foi mesmo até ao ponto de dizer que neste episódio Oksana matou Villanelle, ou seja, matou a fachada que tinha construído à sua volta para escapar ao passado, porque agora que finalmente matou a mãe, e a dor não desapareceu, Oksana sabe que continuar a tentar ser Villanelle é inútil. A atriz conseguiu demonstrar todas essas emoções, sem dizer uma única palavra, deixando-nos a todos colados ao ecrã, de respiração cortada.

Este episódio funcionou como que uma pausa na trama da temporada até agora, mas parece-me também que será um importante ponto de viragem na personagem de Villanelle/Oksana que esta temporada tem sido, ligeiramente, demasiado obediente. E se as minhas suspeitas estão certas de que Dasha (Harriet Walter) a está a manipular, o fogo (trocadilho intencional) que se inflamou dentro de Villanelle esta semana será muito perigoso para a veterana assassina russa e para qualquer outra pessoa que se tente atravessar no caminho dela. Já Eve (Sandra Oh), que viu Niko (Owen McDonnell) ser morto à sua frente na semana passada, também estará certamente alterada no próximo episódio. Tudo aponta, assim, para o caos total no que resta desta temporada.

Francisca Tinoco