Classificação

9.8
Interpretação
9.5
Argumento
9.6
Realização
9.4
Banda Sonora

The Cry estreou oficialmente a semana passada nos EUA, mas a verdadeira estreia deu-se a 30 de setembro na BBC One. Podendo passar despercebida à primeira vista, esta série, com apenas 4 episódios, tem muito que se lhe diga e vai além de qualquer primeira impressão que uma pessoa possa ter ao ler o título ou ver o trailer. Já há muito tempo que não via um primeiro episódio como este, que me marcasse tão imediatamente e me deixasse com tanta vontade de ver os próximos episódios.

A premissa da série é bastante simples, na verdade. Mas, tal como dizia a alguém ainda hoje, por vezes as coisas mais simples são as melhores. Os protagonistas são Joanna e Alistair que figuram os recentes pais de Noah, um bebé de 3 meses que chora a toda a hora. Alistair tem um trabalho importante, para o qual precisa de uma boa noite de sono. Já Joanna fica em casa a tempo inteiro com o filho e levanta-se as vezes que forem precisas durante a noite para ir verificar o bebé quando chora.

O episódio está muito bem construído, saltando entre o presente, o passado e o futuro deste casal. O início foi um pouco confuso, mas depressa se percebe o que está a acontecer. Há 3 fases da história de Joanna: quando conhece Alistair, quando é mãe e quando acontece algo na sua vida que vai alterar a sua dinâmica. Estas 3 fases aparecem no episódio entre cenas intercaladas de forma muito clara, onde não há dúvida de “quando” estamos. Há séries que tentam fazer isto e o resultado nem sempre é o melhor, mas aqui a construção foi muito bem feita e só traz coisas positivas ao episódio. Tenho também de salientar o facto de utilizarem sempre um bebé verdadeiro em todas as cenas e de ser o bebé a chorar de verdade. Graças aos deuses das séries não colocaram aquelas gravações horríveis de choros, o que torna a história muito mais real.

Há também que congratular a fantástica Jenna Coleman que nasceu realmente para representar. Acompanho o seu trabalho desde os seus tempos em Doctor Who e é, de facto, uma atriz singular. Vê-se que Coleman incorporou Joanna em si ao máximo e as emoções que nos transmite não podiam ser mais reais. Dá para sentir o desespero e o cansaço de Joanna ao cuidar de um bebé que simplesmente não pára de chorar.

Gosto de séries que sirvam para mais do que entreter e The Cry é, sem dúvida, uma delas. A série mostra o outro lado da maternidade que nem sempre se quer admitir que existe. Nem tudo é um mar de rosas quando se tem um filho como muitos filmes e séries tentam fazer transparecer. Muitas mulheres não têm um instinto maternal intrínseco assim que se veem com um filho nos braços. Nem todos os bebés são como Nenucos em que só é preciso alimentar, dar colinho, mudar a fralda e pôr a dormir. A maternidade é muitas coisas e para cada mãe é diferente. A verdade é que muitas são as mulheres que sofrem de depressão pós-parto e não conseguem estabelecer uma ligação com o filho imediatamente. The Cry leva-nos até essa realidade.

Recomendo a 150% esta série. É uma lufada de ar fresco no meio de uma floresta apinhada de coisas feitas e refeitas. Traz-nos uma história pouco contada, o que abona sempre a favor de uma série nova, e está construída de forma muito apelativa, levando-nos a criar uma empatia imediata com as personagens.

Beatriz Caetano