Classificação

8.9
Interpretação
9
Argumento
8.8
Realização
9.3
Banda Sonora

[Contém spoilers]

“The past is an illusion”

Do plano astral, numa casa de gelo com o seu mergulhador dos anos 70 como habitante, passamos pela procura por Philly e por Dr. Poole até ao confronto com a Division 3, numa dança/luta exaltante. Legion consegue combinar os seus elementos estranhos e extravagantes, desenvolvendo a história e expandindo a caracterização de algumas personagens, introduzindo até uma ótima cena de ação, tudo isto enquanto continuamos na descoberta da mente de David.

É verdade, já vamos a meio desta inebriante temporada de Legion. Já alguém me sabe responder se “isto é real?”. Saber ou não, sentem-se e relaxem, deixem-se afundar na mente humana, interroguem-se sobre a natureza do ser e façam o que fizerem não se deixem levar pela violência…

Empatia e medo, dois lados de uma moeda tão velha como o tempo. Yin e Yang, como lhe chamam outros, ou até mesmo luz e escuridão. Esta semana tivemos a história de um coelhinho que se aproximou demasiado do assustador oceano e começou a ser engolido pelo medo. David, o rapazinho, corre e corre a fugir das memórias de um passado alterado, erguendo defesas postas por ele ou por outrem, cria um muro do qual não consegue agora sair. Na sua fuga, descobrimos outro dos poderes de David: projeção astral – para um mundo existente entre sonho e realidade. Nesse mundo, David encontra uma personagem caricata, lá presa desde a altura em que não se usavam sutiãs. Oliver Bird, marido de Melanie, não está morto. Parece que o seu poder mutante também envolve projeção astral e o seu subconsciente ou outro acontecimento prendeu-o por anos nesse mundo. Jemaine Clement é excelente no seu papel de Oliver, representando um álbum das excentricidades de um tempo passado congelado tanto no mundo astral, como no mundo real, onde Melanie espera pelo seu regresso, que provavelmente não acontecerá (a não ser que David dê uma ajudinha no futuro). David a usar as suas habilidades mutantes super poderosas compara-se a Peter Parker no filme de Spider-Man (2002) a tentar lançar conscientemente as suas teias de aranha, uma representação cómica da imaturidade e do caminho que ainda lhe falta percorrer até dominar minimamente os seus poderes. Mesmo no plano astral, David não consegue fugir do Demónio dos Olhos Amarelos, que rodeia a casa de gelo e rapidamente “ataca” David mal ele sai do abrigo. Mas o ataque é perpetuado por alguém inesperado… Será Lenny uma expressão do Demónio? E será este nada mais que um guardião da mente de David com tendências sociopatas pondo a sobrevivência acima de tudo o resto?

Enquanto tudo isto se passa com David, para o “mundo real” ele aparenta estar numa espécie de coma, preso dentro da sua cabeça. Syd, Ptonomy e Kerry partem assim numa missão de desvendar o passado de David, recriando os passos do que viram no passado dele. No gabinete de Dr. Poole, descobrimos que os objetos também têm memórias e que, na noite do assalto, David agrediu brutalmente o psiquiatra. Syd assume um papel de liderança da equipa e as suas hipóteses parecem fazer algum sentido (terá o roubo sido realmente mais direcionado para as fitas do gravador?), ou pelo menos são as que nós queremos que façam mais sentido de forma ao nosso herói não ser na verdade um vilão. “What did the stars say?” Dali partem à procura de Philly para investigarem as suas memórias – descobrindo a localização de Dr. Poole num farol com um visual semelhante aos edifícios da série A Series of Unfortunate Events, e também que Lenny é Benny?! Mas se Lenny também existia na realidade, quem é ela? E porque é que as memórias de Benny foram substituídas por ela? Uma abordagem mais direta de Syd revela ainda que Philly parece não estar ressentida com David, avisando os seus amigos de que a Division 3 está no seu encalce.

“Let’s ask the doctor”. Dr Poole apresenta-se física e psicologicamente desfigurado, apresentando poucas respostas e criando ainda mais, principalmente quando se transforma no The Eye. The Eye que parecia ter poderes mentais, que se transforma e que é imune a balas… afinal que poderes possuiu esta personagem obscura? A luta que Kerry estava tão ansiosa por ter finalmente chega (e que curiosamente transmite os sentimentos de muitos fãs de material de super-heróis, impacientes por cenas com helicópteros, ninjas, tiros e pontapés… viciados em ação, muitas vezes sem grande sentido). Ao som de “Undiscovered First” por Feist, Kerry “espeta uma malha” nos soldados da Division 3, enquanto Carry dança ao ritmo da luta no seu laboratório. Uma artística exibição de uma cena de ação, conseguindo distinguir-se de tudo o resto que anda por aí. Inevitavelmente, a batalha termina em tragédia com Kerry/Carry a serem espancados e derrotados. Por seu lado, The Eye facilmente derrota Ptonomy, mas não está à espera dos poderes de Syd, que consegue surpreendê-lo e dominar o seu corpo.

A parte frustrante do episódio chega quando David escapa do plano astral para salvar os seus amigos da Division 3, apesar de estes já estarem a ser salvos por Syd. Uma falha de comunicação leva The Eye a fugir e Syd quase a ser alvo da violência de David. Interessantemente, raiva parece ser um dos gatilhos para David controlar os seus poderes telecinéticos.

Ao longo destes 50 minutos, descobrimos ainda sobre a vida de Kerry e Carry. Duas pessoas que partilham um corpo, uma centrando o seu tempo para o conhecimento (as partes chatas, como diz Kerry) e outra para a ação. Fica a ideia de que Kerry vive apenas como uma extensão de Carry, sendo este o verdadeiro dono do corpo, mas talvez seja apenas uma forma de vida que não conseguimos compreender totalmente. O pormenor de Kerry apenas envelhecer quando está fora de Carry é altamente interessante. Partilhando os dois as dores físicas, como vimos na luta de Kerry, será que se um morrer o outro também morre?

Amy continua a ser torturada, mas desta vez não está só. O antigo psiquiatra de David em Clockworks, que parecia ter desaparecido do mapa – ou até nunca existido – não deve ter concordado em abafar o caso de David e foi levado pela Division 3. O mais fascinante neste enredo foi Amy admitir que no fundo já sabia que David era mais do que um doente mental e que possuía habilidades extraordinárias e descobrimos que o fofo cão que vem aparecendo desde o primeiro episódio, King, nunca existiu. King sempre foi uma voz na cabeça de David ou não foi? Terá King sido outro rapaz que sofreu um destino terrível que Amy também não quer admitir? Seria King a antiga Lenny, uma manifestação do Demónio dos Olhos Amarelos de forma a manipular David?

No Chapter 5, David parece descobrir onde Amy está a ser mantida prisioneira e vai tentar salvá-la, mas Lenny/Demónio dos Olhos Amarelos parece ter um controlo cada vez maior sobre David, o que só poderá indicar que as coisas não vão correr bem. Até lá, deixem a vossa mente despertar!

Emanuel Candeias