Classificação

9
Interpretação
8.7
Argumento
8.6
Realização
8.5
Banda Sonora

A Romance Of The Mind

A fenomenal narrativa e os sensacionais efeitos visuais de Legion conquistam mais uma vez neste 2.º episódio, no que os mais entusiastas já designam de “uma obra-prima”. É imprescindível e obrigatório para todos – quem viu e se apaixonou, quem viu e ficou insano, quem viu e achou aborrecido – ver este episódio para depois tirarem as conclusões se esta série é ou não o seu género.

O criador da série, Noah Hawley, disse à revista Time: “a minha esperança é que, quando virem a primeira hora, embora possa não ser claro o que cada imagem significa e qual a informação que é suposto recolher, [saibam que] as respostas vão chegar”. E começamos já a ter provas neste 2.º capítulo que as respostas estão a chegar. Esta semana somos lançados à descoberta dos poderes e memórias de David e compreendemos que o seu diagnóstico de esquizofrenia e tudo o que lhe têm dito desde criança são informações erradas de quem exclui um mundo com mutações que conferem “dádivas” fantásticas.

Dr. Bird, Ptonomy, Carry e Kerry são o núcleo da equipa que, após o resgate de David das garras da organização do governo (Division 3), quer ajudá-lo a perceber o que ele é, a organizar as ideias de tudo o que lhe aconteceu e ajudá-lo a atingir o seu potencial, pedindo como moeda de troca a sua ajuda para uma guerra secreta que anda a ser travada entre o governo e os mutantes.

A atriz Jean Smart (com uma nomeação para um Emmy pelo seu trabalho em Fargo) faz uma excelente performance no seu papel de Melanie Bird, funcionando como a voz que traz razão e estabilidade à serie e sendo essencial para David (e subsequentemente nós público) entender a relação entre a sua psicose e as suas habilidades. É nítido o interesse que ela tem em David e no seu uso para qualquer que seja o objetivo daquela organização, mas ao mesmo tempo ela também é paciente e compreensível, indicando que também deverá ter passado por uma experiência de certa forma parecida, sendo assim um mutante. É ela que nos introduz os termos de telepatia e telecinesia como os primeiros poderes que David possui, embora não sejam de todo os únicos – no episódio piloto vimos David a usar poderes pirocinéticos por exemplo.

Ptonomy (Jeremie Harris) é outra cativante personagem, um mutante designado de ‘memory artist’, que possui a habilidade de se lembrar de todos os momentos da sua vida (inclusive quando estava na barriga da mãe) e consegue aplicar esse poder para outras pessoas reviverem momentos do seu passado. É com a sua ajuda que somos baralhados a não perceber em que altura David muitas vezes se encontra, mas também nos começa a ser revelado muito do seu passado traumático. Este seu poder é a ferramenta ideal que nos permite explorar as diferentes fases da vida de David e permite à serie exibir as suas estonteantes capacidades visuais. O ambiente dos anos 60 é outra dúvida que mistura a localização e a passagem do tempo. Em que altura se passa a série? 2017? 1960? 1991? A sina dos X-Men torcerem a linha temporal parece ser uma das características mantidas em Legion.

Os poderes de Ptonomy deixam-nos ver o amor e a relação de David com a sua irmã desde a infância; passando para as consultas no psiquiatra; a relação infrutífera com a sua namorada; e temos o regresso de Lenny, como uma amiga do passado de David. A excêntrica, má influente e bem-humorada Lenny traz um tom de comédia à série e um pouco mais de insanidade. Porém, há qualquer coisa de muito críptico na personagem, quase como se ela fosse mais um heterónimo de David do que propriamente real (se não fosse a suposta morte dela diria com toda a certeza que é imaginária). Os pais de David são mais um dos grandes mistérios da série. Vemos a mãe de passagem e nunca chegamos a ver a cara do pai. A violenta história de embalar “The World’s Angriest Boy” decerto esconde um acontecimento macabro, que inclui um rapaz a matar a mãe… hm, se isto for na direção que aparenta não sei se David quererá relembrar essa parte. Aprofundando o enigma da identidade do pai, certamente muitos já saberão quem é o verdadeiro pai de David (quem não quiser saber é só passar ao próximo parágrafo). Não é nenhum segredo e de certeza que foi uma das fortes componentes que levou à produção desta série. David é filho de Charles Xavier, o fundador dos X-Men, e com a importância dada aos genes nos mutantes, não seria de estranhar ele ser tão poderoso. O que se passou é que a mãe de David (Gabrielle) e Xavier desentenderam-se quando ela descobriu que ele era um mutante e ele nunca a chegou a saber que ela estava grávida. Quem criou David foi um pai adotivo que ele pensa ser o seu verdadeiro pai. A grande questão da série e da sua participação no universo maior dos filmes dos X-Men é saber se nalgum ponto chegaremos a ver algum dos atores que interpreta Charles Xavier (Patrick Stewart ou James McAvoy), se pelo menos será feita uma menção à verdadeira paternidade de David ou se o rumo seguido será um completamente diferente, que não comprometerá futuros crossovers. Sinceramente, a ignorância de um facto tão importante seria um motivo para os produtores quererem ver o mundo a arder e os fãs em explosões violentas e raivosas. Mas a ver vamos.

Quem também está de volta é o demónio de olhos amarelos que continua a dar bom material para uma ótima noite de pesadelos, e tão importante como isso é a dúvida se será mesmo real ou não? A mente e a memória de David são uma completa confusão e, no meio desse emaranhado, não podemos excluir a hipótese de partes serem apenas produto da sua imaginação. No entanto, esta entidade assustadora parece estar com ele desde cedo e transpira uma conotação demasiado real, o que a torna ainda mais ameaçadora. De uma forma distorcida ou não, o demónio existe escondido na memória de David e tem um forte impacto na mente dele. E assim podemos questionar-nos se será um trauma do passado de David e que apesar de humano assumiu uma forma disforme como uma projeção da mente associando aos atos que ele realizou? Ou se poderá ser uma personagem dos comics e talvez nem humano de todo. “The stars talk to me”. Se considerarmos isto como uma pista (e se não quiserem entrar em hipotéticos spoilers saltem esta parte à frente), um grande candidato ao Devil with Yellow eyes poderá ser Mojo – um extraterrestre cuja forma nos comics é muito semelhante à que vemos na série e que tem uma grande tendência para a violência; outra hipótese seria um dos adversários de Legion nos comics, Shadow King – um mutante poderoso capaz de possuir os corpos de outras pessoas e cujo interesse em David seria bem validado pelos seus imensos poderes.

Carry e Kerry são ainda muito enigmáticos e introvertidos. Mas a cena no RMI permitiu à história ser não só a construção das bases e a compreensão de parte do que se passou no episódio passado, mas permitiu também à história avançar um bocadinho. Lembram-se do Cerebro nos X-Men? A máquina que Charles Xavier usada para exponenciar os seus poderes e lhe permitir usar a telepatia a distâncias impressionantes? David conseguiu ouvir e contactar com a irmã, que se encontrava em Clockworks (uma referência ao filme Laranja Mecânica ou A Clockwork Orange de Stanley Kubrick, 1974). Não sei onde David se encontra, é certo, mas aposto que é bem longe de onde Amy estava, ou seja, aqui está uma prova do nível avançado dos seus poderes.

A Division 3 demonstra que tem recursos praticamente ilimitados ao seu dispor, sendo capaz de apagar os registos da existência de pessoas e agora que têm Amy, esta será um motivo de peso para David aprender a controlar bem os seus poderes e a poder ir resgatar. O rapto da irmã poderá ser a ignição que levará David no rumo de algo minimamente parecido com um herói. The Eye transmite uma aura de malícia e deu-me a entender que também é capaz de possuir poderes mentais. Ficaram com a mesma impressão?

Syd Barrett, a namorada fora do comum de David, parece ter realmente problemas mentais. Inicialmente imaginei que o internamento em Clockworks fosse tudo um plano de Dr. Bird para resgatarem David, mas pelos vistos tanto a equipa de Bird como a Division 3 só se aperceberam da existência de David após o incidente em que David e Syd trocaram de corpos e Syd provocou uma reformulação de todo o hospital psiquiátrico, levando à morte de Lenny. A relação entre Syd e David é uma face ternurenta da série e muito importante, pois realça o drama humano e o sofrimento de David, que não passa de um inocente apanhado numa situação sobre a qual não tem controlo. David não é o típico herói nem mesmo anti-herói, é apenas uma pessoa comum que pensava que era doente. E com o problema das pessoas lhe tocarem e o uso de luvas, a quem é que Syd é mesmo igualzinha? À adorada X-Men Rogue. Será que Syd também possui alguns poderes?

O design de produção é sem dúvida um dos pontos mais fortes da série e destaca-se pelos pormenores insólitos – mas perfeitos e funcionais – como a representação do diminuir o som para controlar as vozes na cabeça de David ou o consumo de drogas através de um sapo psicadélico (“It’s the Crazy Frog”). A banda sonora continua a estabelecer o par ideal entre a audição e a visão e no final temos a musica “Hyperactive!” de Thomas Dolby como mais um louvor à insanidade.

“Chapter 3” sai já na próxima semana e enquanto Cary e companhia irão tentar ajudar David a obter respostas, a Division 3 continuará a tentar extrair informações de Amy sobre o paradeiro do irmão. Até lá, deixem a vossa mente despertar!

Emanuel Candeias