Estreou na Netflix a série Cidade de Sombras (Ciudad de Sombras, no título original), adaptação do romance El asesino de La Pedrera, primeiro volume da saga Milo Malart, escrita por Aro Sáinz de la Maza. Surge na mesma linha de outras produções recentes como Memento Mori ou 1992, e, embora este primeiro episódio não traga grande originalidade ao género, aproveita com competência os seus elementos clássicos. Temos o inspetor marcado por problemas pessoais e profissionais, uma nova parceria policial, um crime enigmático e um ambiente de investigação denso. Nada de reinventar a roda, apenas montar as engrenagens – e, neste caso, elas funcionam bem.
Ao contrário de Memento Mori, que partia de uma premissa promissora mas acabava por se dispersar, ou de 1992, mais interessante pela época e o acontecimento retratado do que pela narrativa em si, Cidade de Sombras consegue acrescentar algo mais: história e cultura. Nunca visitei Barcelona, embora esteja na minha lista há muito tempo, e foi curioso descobrir pequenas notas sobre arquitetura e simbologia locais. Não é um documentário, claro, por isso tudo surge de forma leve, mas suficiente para despertar interesse. Como gosto especialmente de simbolismo, misticismo e um bom mistério, essa combinação tornou a experiência ainda mais apelativa.
As personagens, apesar de seguirem os padrões habituais do género, conseguem sair ocasionalmente dessa caixa e revelar mais nuances do que se poderia esperar. Os protagonistas estão sólidos e convencem, mantendo a série consistente mesmo quando a narrativa entra em territórios familiares. Destaca-se Verónica Echegui, que interpreta a parceira do investigador principal vivido por Isak Férriz, por conseguir introduzir momentos mais desconcertantes e escapar ao estereótipo típico do sidekick ou potencial interesse romântico, dando à personagem uma presença mais autónoma e interessante.
Outro detalhe curioso é a decisão de situar a história na época em que o livro foi escrito e, em vez de tentar disfarçar o recurso ao passado ou recriar com extrema fidelidade, optar por mostrar imagens antigas da construção da cidade assumindo por completo a estética desse período. É uma escolha que ainda não sei se melhora ou quebra ligeiramente o ambiente, mas revela, sem dúvida, coragem e dá uma identidade própria à série, isso não lhe podemos tirar.
Em suma, Cidade de Sombras não é a melhor série criminal já feita, mas é suficientemente interessante para continuar a ver. Para ser sincero despertou-me mais curiosidade sobre a própria cidade do que sobre a resolução do crime, e talvez isso seja um mérito inesperado: um cenário que funciona quase como personagem e que me faz querer aprender mais sobre ele. Portanto, tal como comecei: não inventa a roda, mas cumpre bem o que promete. E sim, muito provavelmente vou continuar a acompanhar.
Todos os episódios de Cidade de Sombras já se encontram disponíveis na Netflix.