O Séries da TV marcou presença na antestreia da nova série da RTP, FELP, que aconteceu na terça-feira, dia 19 de agosto, no Museu da Marioneta e teve oportunidade de falar com o cocriador e realizador Manuel Pureza.
Dos criadores de Pôr do Sol, Henrique Dias, Rui Melo e Pureza, a comédia, que junta de novo a RTP e a produtora Coyote Vadio, decorre num país onde os bonecos de peluche vivem como cidadãos de segunda e uma comunidade farta de ser deixada na prateleira decide organizar-se depois de se registar um aumento nos raptos de bonecos. Entre cafés de bairro, lavandarias suspeitas e militância com enchimento, nasce o FELP (Frente Espetacular pela Liberdade Peluda), um movimento que luta por direitos tão básicos como a representação política ou o acesso a máquinas de secar roupa com programa de “Delicados”.
SdTV: Como é que surge esta ideia?
MP: Nós viemos de um “primeiro álbum da banda” mesmo lixado, que é o Pôr do Sol. A fasquia está elevada, há uma pressão grande para continuar, [mas] nós não queríamos. Não havia como continuar o Pôr do Sol. A certa altura, a piada gasta-se, já não tem graça. Foi divertido e foi aquilo que nos mudou a vida […]. Estamos aqui hoje com esta série […] porque fizemos o Pôr do Sol […] e porque teve o sucesso que teve. E, portanto, surge nesse contexto. Nós não queríamos deixar cair a bola – de nos darem este crédito do humor e nas séries […] – e, por outro lado, queríamos fazer uma coisa francamente diferente, louca, que abrisse portas. Que, no fundo, fizesse a mesma coisa que o Pôr do Sol fez, que foi agarrar na nostalgia das pessoas – não só aquelas que veem novelas, mas as que viam novelas quando eram miúdos e agora ainda se lembram. A minha geração, que tem 40 anos agora, [cresceu] com a Rua Sésamo. […] E, portanto, foi um bocadinho essa coisa de agarrar a nostalgia, agarrar nessa reminiscência e memória, que está para aqui algures, de uma coisa boa, que eram bonecos, e surfar uma onda – a onda do humor e da graça.
SdTV: E porque é que escolheste agarrar em bonecos para falar das questões atuais?
MP: Qual é que é a melhor coisa que tu podes fazer para falares de minorias? Não é agarrares em pessoas de minorias e tentares fazer humor com isso porque é perigoso, porque te podem confundir […] Por exemplo, eu sou um fervoroso defensor da causa LGBT. Fazer humor com alguém desse grupo podia correr muito mal para ambos – para mim e para essa pessoa. Sendo um boneco, é diferente, porque o boneco pode dizer o que ele quiser. E a malta vai dizer para o boneco: “Não queres ser raptado, volta para a tua terra”, como eventualmente acontece agora com pessoas que são imigradas no nosso país e não têm culpa nenhuma de virem à procura de melhores condições de vida, quando há um discurso xenófobo e violento contra essas pessoas. É isso: que melhor forma de fazer humor sobre esses temas que não agarrar em bonecos que podem, de facto, dizer tudo?


SdTV: Os bonecos são manipulados por quem, pelos próprios atores?
MP: Pelos próprios atores. Nós quando fizemos o piloto […] agarrámos nos marionetistas profissionais, eles manipularam e os atores dobraram. […]. Percebemos, nesse processo, que não era de todo ideal porque mais do que um ator agarrar numa personagem humana e dar-lhe corpo e voz, quando se trata de um boneco […] [é necessária] a ligação, a simbiose, entre voz e boneco. […] O boneco não pisca os olhos, não tem expressão facial, portanto, a voz modula quem aquele boneco é. É impossível a Beatriz não ser a Susana Blazer. Se experimentares pôr a Rita Tristão a fazer de Beatriz, não funciona. Mas a Blazer não funciona na Ana, por exemplo, que é a Rita Tristão que faz. Ou ninguém mais consegue fazer o João como faz o Romeu Vala, que é o boneco que está sempre a dizer asneiras. Eu sou particularmente fã desse boneco porque ele diz muitas asneiras com muita graça. Nós vamos ter uma versão censurada e uma versão não censurada. A versão não censurada está na RTP Play e está na HBO.
SdTV: Estando os atores a manipular os bonecos, é mais difícil fazer o blocking das cenas?
MP: Super! Para uma reunião de seis bonecos à mesa num café, estão seis atores debaixo de uma mesa em posições bastante sugestivas. […] É difícil, mas é por causa disso que é bom. O Pôr do Sol já estava a começar a ser fácil porque eu sabia o que é que resultava na linguagem da novela, que é uma linguagem simplista. A câmara da novela não conta nenhuma história, regista só. […] A importância de tu perderes o grande amor da tua vida ou perderes as chaves, no blocking de novela, é exatamente a mesma coisa. E eu estou plenamente consciente de que estou a ser injusto. Nem todas as novelas são assim.



FELP junta bonecos e humanos, entre eles os atores Diana Nicolau, Rui Melo, Diogo Morgado, Inês Aires Pereira, Inês Castel-Branco, Anabela Moreira, Rodrigo Saraiva, João Craveiro, Pedro Diogo, Cláudio de Castro, Manuel Marques, Cristina Oliveira, Luís Lobão e Toy. Cristóvão Campos, Romeu Vala, Rita Tristão, Miguel Raposo, Samuel Alves, Susana Blazer, Gabriela Barros e Ana Cloe estão entre os responsáveis por dar voz aos bonecos.
A partir do dia 25 de agosto, vais poder acompanhar FELP, às 21h, na RTP1. O canal emitirá um novo episódio de segunda a sexta-feira, sempre no mesmo horário. Os dois primeiros episódios serão emitidos no dia da estreia e, como é habitual, a série também poderá ser acompanhada na RTP Play. FELP também ficará disponível na HBO Max.