A 2.ª temporada de Nine Perfect Strangers, disponível na Prime Video em Portugal, confirma aquilo que já se suspeitava: a série não tinha sequer fôlego para uma primeira, quanto mais para uma segunda leva de episódios. A fórmula repete-se quase integralmente – um grupo de nove desconhecidos (ou mais ou menos), todos com traumas, manias e personalidades carregadas de exagero, reunidos num retiro misterioso onde o choque e a transformação são prometidos. O problema? Já vimos isto antes. E da primeira vez já não tinha sido grande coisa.
Ao trocar o cenário e mudar os personagens, a série tenta refrescar-se, mas o truque não resulta. O elemento surpresa perdeu-se por completo, porque agora já sabemos o que esperar: situações descabidas, revelações forçadas e uma espiritualidade de algibeira que nunca convence. As personagens, tal como na temporada anterior, são pouco interessantes e mal desenvolvidas. E nem o elenco cheio de nomes sonantes consegue salvar o que claramente é um argumento perdido à nascença.
Nicole Kidman, que volta ao papel de Masha, entrega novamente uma interpretação rasa, mecânica e com um sotaque que vai e vem sem critério. A tentativa de aprofundar a história da sua personagem, de lhe dar mais contexto, mais alma, falha redondamente. Tal como a tentativa de entrelaçar as histórias dos outros convidados do retiro: soa a esforço desesperado para criar impacto emocional, mas não resulta. Nada soa orgânico.
A temporada até tem alguns rasgos de bom diálogo aqui e ali, mas são escassos. As situações supostamente caricatas não têm graça nenhuma e, quando tentam cair no ridículo de forma intencional, caem apenas… no ridículo. Sem o mínimo de elegância ou autoconsciência, poderiam ir buscar inspiração a The White Lotus, por exemplo, que, não sendo perfeita, faz isto muito melhor.
O que acaba por custar mais é perceber o talento desperdiçado. Há aqui bons atores, com carreiras sólidas, a dar o corpo a personagens vazias e mal escritas. E no panorama atual, em que séries como The Wheel of Time são canceladas, é ainda mais difícil compreender como é que se investe tempo, dinheiro e energia numa 2.ª temporada de Nine Perfect Strangers que ninguém pediu.
Em resumo: se viste a 1.ª temporada e já não ficaste particularmente impressionado, a segunda não traz absolutamente nada de novo. Nem a tentativa de humanizar Masha, nem as reviravoltas, nem o cenário exótico, nem sequer os temas supostamente profundos. Tudo soa forçado. Tudo parece uma oportunidade desperdiçada.
Todos os episódios de Nine Perfect Strangers já estão disponíveis na Prime Video.
Melhor episódio:
The Other Side (Episódio 6) – O único episódio que realmente se destaca vai justamente no sentido oposto ao caos do resto da temporada: é mais contido, mais introspetivo e finalmente oferece diálogos com algum valor. É também o único momento em que a série parece ter algo a dizer, em que as conversas têm utilidade, substância e até conseguem provocar algum tipo de reflexão. Um raro exemplo do que esta produção poderia ter sido, mas não foi.
Personagem de destaque:
Matteo – (Aras Aydin) – No mesmo sentido do episódio vai a personagem. Matteo é talvez o único personagem que verdadeiramente funciona. No meio de tanta caricatura e exagero, ele é o mais constante, o mais lúcido e, ironicamente, o mais resolvido de todos, mesmo carregando o passado mais traumático. A sua história é a mais impactante e, por momentos, parece pertencer a uma série muito melhor do que aquela em que foi inserido.