Criada por Christopher Storer, The Bear acompanha Carmen “Carmy” Berzatto (Jeremy Allen White), um talentoso jovem chef do mundo dos restaurantes gourmet que regressa a Chicago para gerir a loja de sanduíches da família depois da morte do irmão.
A 4.ª temporada, que estreou a semana passada no Disney+, arranca depois de uma crítica menos positiva do Chicago Tribune ao The Bear. Segundo o jornal, o restaurante tem muito potencial, mas é demasiado caótico para o concretizar plenamente. Ironicamente, esta nova temporada de The Bear chega depois de uma 3.ª temporada que também recebeu críticas menos positivas. Depois de duas impecáveis temporadas, a série acabou por estagnar, com uma temporada repleta de episódios mais contemplativos e experimentais, que pouco ou nada fizeram avançar a narrativa. Claro que essa estagnação serviu para refletir a psique das próprias personagens, principalmente de Carmy, mas acabou por fazê-lo a custo do enredo e, consequentemente, de uma temporada tão cativante como as anteriores.
Nesta temporada, a série está a recuperar lentamente dessa estagnação. Logo no primeiro episódio, o tio Jimmy (Oliver Platt) coloca um temporizador numa das bancadas da cozinha e avisa a equipa do The Bear que quando o ecrã estiver a zeros irá cortar o financiamento do restaurante, a menos que algo mude. Supostamente, este temporizador deveria introduzir alguma urgência, mas a sua importância acaba por ser minimizada ao longo da temporada. Imediatamente, o restaurante efetua as mudanças necessárias, desde fazer novas contratações a retirar ingredientes das receitas e, lá para o meio da temporada, o The Bear parece ter pernas para andar, independentemente dos números que o temporizador mostrar, pelo que se revela um dispositivo narrativo mal aproveitado. Felizmente, The Bear é, por si só, uma série com um coração gigante e, na temporada anterior, sinto que ele ficou escondido. É nas relações entre as personagens que a série encontra a sua força e numa temporada em que elas viveram muito mais dentro da sua cabeça e tiveram dificuldade em comunicar, essa força perdeu-se. Na 4.ª temporada, há um esforço claro para reparar essas relações e, por isso, a série voltou a deixar o seu coração bem à vista.
Quando estava a falar da série com um amigo, ele comparou-a a This Is Us. Achei a comparação um bocado disparatada, mas, pensando bem, as séries partilham os mesmos ingredientes. The Bear até pode disfarçar melhor, mas também é um drama lamechas sobre o que significa fazer parte de uma família, quer a tenhamos escolhido ou não. Na verdade, é quando a série se permite ser um bocado lamechas que mais brilha.
Tal como na 2.ª temporada, há um episódio com mais de uma hora que reúne a família Berzatto. Desta vez, porém, não há discussões nem carros a entrar casa adentro e a arruinar a ceia de Natal. É um episódio surpreendentemente calmo, de verdadeira união familiar, que marca um ponto de viragem para a série e para as suas personagens, definidas pelo caos. O convívio pacífico entre todos parece confirmar que os Berzatto estão realmente a fazer um esforço para desaprender a viver em constante confusão. No seu melhor, o episódio está repleto de alguns momentos engraçados e outros genuinamente emotivos, que transbordam com uma sinceridade comovente. No seu pior, o episódio perde-se em cenas inconsequentes com personagens tão distantes do enredo principal da série que dou por mim a questionar-me sobre o porquê de eu ter de estar a ver um dos Faks a declarar-se à nova namorada.
No geral, The Bear continua a perder-se um bocado. Apesar de estar a recuperar da inércia a que a última temporada nos subjugou, a série continua a ter problemas de foco. Talvez por dar mais importância à forma do que ao conteúdo ou à psique das personagens do que ao próprio enredo, The Bear acaba por repetir muitas das mesmas ideias nas suas cenas, sejam elas bonitas montagens ao som de músicas icónicas, lindíssimas sequências de sonho ou diálogos inconsequentes repletos de subtexto. Tudo isto confere à série um tom poético – quando não a torna pedante -, mas também contribui para a estagnação que já tinha sido um problema na última temporada. As personagens parecem estar presas no mesmo sítio, reféns de uma mesma decisão durante a temporada inteira. Compreendo a complexidade das suas escolhas e acredito que o seu crescimento pode até acontecer num plano paralelo, mas esta abordagem separa uma boa de uma excelente temporada.
Ainda assim, The Bear é sempre um prazer de ver. Os episódios são curtos, bem realizados e bem fotografados, as interpretações são impecáveis e as personagens já fazem parte da nossa família. Não é por acaso que a série já foi renovada para uma 5.ª temporada. Podes ver as quatro temporadas de The Bear no Disney+.
Melhor episódio:
Goodbye (Episódio 10) – A 4.ª temporada encerra em beleza com 30 minutos de uma confrontação muito esperada entre Carmy, Sidney (Ayo Edebiri) e, depois, Richie (Ebon Moss-Bachrach). É um final catártico e muito merecido para o qual as últimas duas temporadas estiveram a trabalhar e que me deixa muito ansiosa para o rumo que a série irá tomar a partir daqui.
Personagem de destaque:
Richie – É o personagem com o arco mais fascinante da série e talvez o único que sofreu uma evolução significativa desde a 1.ª temporada. Acompanhá-lo tem sido uma das partes mais gratificantes de assistir à série, muito também pela interpretação de Ebon Moss-Bachrach, que confere a Richie a vulnerabilidade necessária para evitar que a personagem se torne numa caricatura.