Sempre me considerei uma feminista, mesmo desde pequena, quando ainda não entendia muito bem a dimensão e o significado dessa palavra. Já notaram um revirar de olhos ou ouviram um comentário quando se autointitularam feministas, certo? Há pessoas que continuam a considerar o feminismo uma anedota, quase como se fôssemos um grupo de mulheres que odeia os homens, mas a ideia não é essa, não é formarmos um clube que exclui o sexo oposto. A ideia é que os homens sejam também feministas, pois estarão a promover a igualdade. Da mesma forma que se espera que negros e brancos sejam tratados sem diferenças. Agora se isso se verifica na realidade, o caso já é diferente. Não verifica!

Estamos no século XXI e seria de esperar que já tivéssemos ultrapassado uma data de injustiças, mas nós, como mundo, não estamos assim tão evoluídos. Quer dizer, Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos há pouco mais de um ano. Conseguem imaginar maior bully para governar aquela que é, supostamente, a “terra dos livres”? Trump construiu uma campanha a promover a construção de um muro e desde que foi eleito tem tentado acabar com os direitos das minorias, nomeadamente ao impedir que os alunos trans utilizem as casas de banho do género com que se identificam ou tentando banir igualmente os cidadãos transgénero de servir no exército. Nenhum país tem uma história exemplar, é certo, mas isto está a acontecer agora, às claras!

Contudo, não é de Trump que quero falar – embora houvesse muito de negativo a dizer dele e das suas políticas – e sim de outros homens poderosos, outros bullies. Quando as acusações contra Harvey Weinstein começaram a inundar os sites da internet pelos quais navego diariamente, estava longe de imaginar o que se seguiria. Primeiro, pensei que não iriam haver repercussões, que as alegações seriam abafadas, que ele manteria o seu trabalho. Segundo, nunca poderia ter previsto que tantos outros nomes seriam arrastados para a praça pública, acusados de comportamentos sexuais impróprios, de comentários sexuais impróprios, de violação, de tudo o mais que se possa imaginar. Contudo, e só para citar alguns exemplos, Weinstein foi afastado da empresa que tem o seu nome, expulso da Academia dos Óscares, da Academia Televisiva; Spacey foi posto de fora de House of Cards; a produção das séries em que Ed Westwick entra foram colocadas em suspenso… Os comportamentos que dantes eram abafados e escondidos não ficam agora impunes. E muitas mulheres (e alguns homens) continuaram a vir a público contar as suas experiências, as pessoas são encorajadas a falar. E é irónico que esteja a acontecer precisamente quando um homem como Trump está no poder – ou talvez seja precisamente porque alguém como ele está lá. Porque as coisas precisam de mudar, mas a verdade é que já há uma mudança a decorrer.

Quando tudo isto começou, discuti o assunto com várias pessoas. Com mais mulheres do que homens, mas com ambos. Nem todas as reações foram as que eu gostaria. Houve quem questionasse o porquê de a história de Weinstein só agora ter vindo a público. Como se houvesse uma certa maquinação na intenção. Talvez haja, talvez não haja. Mas a minha resposta a isso resume-se em duas palavras: Amber Heard. Já explico! Quando Heard, casada com Johnny Depp, acusou o ator de violência doméstica, foi insultada e arrasada nas redes sociais. Parecia custar muito às pessoas ver como vilão o homem que deu vida a tantos personagens acarinhados do mundo do cinema. Nomeadamente, pareceu muito difícil para inúmeras mulheres ver o tipo por quem têm uma paixoneta naquela posição. Li comentários de pessoas que queriam dar o benefício da dúvida a Depp porque ele não tinha sido considerado culpado.  Eu não sei se, de facto, ele é culpado, atenção, nem estou a dizer que seja. No entanto, li tantos comentários de ódio (sobretudo de mulheres) dirigidos a Amber, que até fiquei maldisposta.

Depp não parece ter sofrido grandes reveses na carreira por causa disto, mas Amber foi rotulada como uma interesseira (e coisas piores) que estava a tentar aproveitar-se da fama e do dinheiro do marido. E eu só pensava: qualquer mulher que seja vítima de violência doméstica, ao ler estes comentários, vai pensar que apresentar queixa ou falar sobre isso é a pior coisa que pode fazer, quando devia ser era encorajada a falar. É certo que já se provou que há mulheres que disseram que foram violadas e não foram, mas queremos mesmo ir por aí? Se damos o benefício da dúvida ao acusado porque não podemos dá-lo ao acusador? Vi muito poucas pessoas a darem o benefício da dúvida a Amber Heard.

Mas sim, isso que dizem acerca de nós mulheres sermos horríveis umas com as outras é, em grande parte, verdade. Se remontar aos meus anos da adolescência lembro-me de conversas em que se falava de violação sexual e de haver raparigas que usavam expressões como “há quem esteja a pedi-las”. E aquilo deixava-me zangada e com um grande sentimento de frustração. Se as próprias mulheres, que deviam ser as primeiras a lutar contra essas ideias, dizem isso, é normal que tantos homens tenham um sentimento de impunidade. Mas nem todos os homens são iguais. Muitos condenam estes atos com tanta força como muitas mulheres, são tão feministas como muitas de nós.

No entanto, esta realidade dos abusos sexuais em Hollywood atingiu-me com especial força no dia em que acusações de assédio sexual recaíram sobre Mark Schwahn, o criador de One Tree Hill, a minha série preferida. Isto não é pior do que quando foi Andrew Kreisberg, por exemplo, mas… Já sabem o que dizem, “when it hits close to home”… Fiquei furiosa, fiquei triste, senti vontade de chorar. One Tree Hill é a minha série perfeita, a minha série do coração, o produto televisivo mais ternurento a que já assisti, em muitos sentidos… Estas acusações mancham a noção de perfeição da série para mim. Porque enquanto eu e milhões de fãs em todo o mundo nos emocionávamos com a história daqueles personagens, pelos vistos havia coisas a passarem-se nos bastidores pelas quais ninguém deveria ter de passar.

Comentei com uma amiga as acusações que recaem sobre Schwahn, uma amiga que já tinha visto um dos seus atores preferidos ser acusado também. E acabámos por concluir que, por este caminho, se deixássemos de ver todas as séries e/ou filmes em que há acusados envolvidos, íamos acabar por ficar muito restringidas. Eu adorei One Tree Hill, mas imediatamente comecei a pensar se iria voltar a ver a série. Não sei se quero. Sei que isso não muda nada, mas é uma posição. Nestes casos tudo o que podemos fazer é tomar uma posição.

E é precisamente quando as coisas nos tocam mais que as vemos de forma diferente. Se for uma pessoa que não se conhece a fazer uma acusação talvez não lhe demos crédito, mas mesmo que não acreditem nela, então deem-lhe o mesmo benefício da dúvida que dariam a um homem acusado. Pensem que se essa mulher fosse vossa irmã, vossa amiga, alguém querido, quereriam que ela fosse levada a sério.

Ainda nada foi provado em relação a estes homens, mas a polícia está a investigar. E queremos mesmo ser assim tão cínicos e convencer-nos que aquelas mulheres todas (o número já vai nos 80) que acusaram Weinstein estão a mentir? Não me parece, embora a minha opinião valha o que vale.

Desta vez parece que alguma coisa está a ser feita, mas não nos podemos esquecer que foram precisas décadas de abusos para que se começasse a falar do que aconteceu. Por muito que queiramos acreditar no contrário, continuamos a viver num mundo de homens, em que as mulheres, nomeadamente, continuam a ter de lutar por salários iguais. Essa realidade está também imensamente presente no cinema e na televisão e nos últimos meses vimos algumas atrizes como Gillian Anderson (The X-Files), Emmy Rossum (Shameless US), Kristen Vangsness e A.J. Cook (Criminal Minds) exigirem aumentos salariais que as colocassem no mesmo patamar dos colegas do sexo masculino para continuarem nas respetivas séries.

Estamos longe de viver num mundo perfeito, mas nenhuma mulher deveria ser insultada, julgada ou criticada por fazer a sua voz ouvir-se. E não julguem uma mulher pela roupa que usa, seja uma camisola de gola alta ou uma minissaia e um decote generoso. Vestir-se assim não faz dela uma ordinária que está a pedi-las. Vestir-se assim é um direito que tem, mas fazer uso do corpo dela não é um direito de ninguém. Um NÃO é sempre um NÃO. Devemos ensinar isso às nossas crianças, meninas e meninos, para que as próximas gerações sejam mais evoluídas que as que vimos até aqui. Para que um bully fã de impróprias ‘conversas de balneário’ não esteja à frente da mais poderosa nação do mundo, porque certamente não é ele que vai abrir o caminho para uma discussão pública sobre estes temas.

Como sociedade, precisamos de fazer melhor. Sabem quando todos sentem muito orgulho pelos homens que estiveram na guerra e sobreviveram? Eu admiro as mulheres que transformam algo de horrível que lhes aconteceu em força. Mulheres que seguiram em frente e que partilham o que viveram para evitar que outras passem pelo mesmo. Denunciar é isso mesmo, fazer os possíveis para que não volte a acontecer. Algumas conseguem mesmo fazer com que algo de belo nasça de uma coisa horrível.

Termino precisamente com um exemplo disso, com a interpretação de uma música por uma cantora que passou por uma situação de abuso. Til It Happens to You fez parte da banda sonora de um documentário chamado Hunting Ground, que expõe a situação alarmante dos campus universitários americanos, onde os abusos sexuais são uma constante e ficam tantas vezes impunes. Nos Óscares de 2016, Lady Gaga subiu ao palco e terminou a sua performance na companhia de tantas outras mulheres que foram vítimas de abuso sexual. Porque estas mulheres têm um rosto, não são apenas um número em estatísticas.

Diana Sampaio