Precisamos de falar sobre Kidding, mas sem brincadeiras.

Se Ricky Gervais, o “não apresento mais os globos de ouro; olha, afinal parece que sim”, brilha em After Life, que tem tido o reconhecimento devido, já Kidding parece estar a passar um pouco ao lado quando se trata de um dos papéis da vida de um Jim Carrey conhecido pelos papéis de comédia, apesar das obras primas Eternal Sunshine of The Spotless Mind ou The Truman Show, filmes de 2004 e 1994, respetivamente, onde o ator “despe” o comediante e toca em assuntos sérios como a nossa consciência e a sociedade Big Brother, respetivamente.

Jim Carrey parece não se coibir em incutir a sua experiência pessoal na série criada por David Holstein. O ator é uma figura inquieta, tanto que lançou um livro infantil, de seu nome How Roland Rolls, em que fala de questões profundas nos olhos das crianças e baseado em episódios da sua infância, como o medo que os seus pais morressem por serem fumadores compulsivos. A vida pessoal do ator acumula episódios trágicos como o suicídio da sua namorada, Cathriona White, em 2015, por overdose de medicamentos sendo depois acusado pelos pais da namorada de ser ele o causador da tragédia. Não tenho dúvidas que muitas destas inquietações e experiências são parte da construção da série.

Kidding é uma série de televisão norte-americana que está agora na 2.ª temporada, surgindo com os primeiros dez episódios em 2018, na Showtime. A série parece ser feita de contrastes, começando logo pelo título. A comédia conta a história do apresentador de programas de televisão para crianças na personagem de Mr. Pickles e o que uma criança gosta de ver é animação, cor e sorrisos, não é? Mas atrás do personagem existe um homem em depressão, com problemas familiares. Sinceramente, a mim ninguém me retira a ideia de que Jeff Piccirillo, o homem que encarna Mr. Pickles na série é, na vida real, Jim Carrey. É um oposto entre o mundo encantado da televisão e aquilo que é tudo menos um conto de fadas na vida da personagem. Afinal, qualquer um de nós pode relacionar-se com isto, quando temos um trabalho em que precisamos de mostrar um sorriso mesmo que aquele não seja o nosso estado de espírito. É este o ponto fulcral, assumir a personagem esquecendo o homem ou a mulher que está por trás dela.

Kidding, por vezes, não brinca e mostra-nos de forma crua e o mais real possível situações que nos fazem pensar. E falo por experiência própria, que já tive de rever episódios para absorver todo o conteúdo que aquela pequena experiência de cerca de 30 minutos tem para nos oferecer. Mas, por vezes, a série até “brinca” com momentos musicais que misturam as cores e o visual bonito com canções sérias e estranhas. A série vai na 2.ª temporada e o segundo episódio da temporada atual é um “delírio”, no bom sentido, do início ao fim.

Mas Jim Carrey não brilha sozinho, todo o elenco da série funciona de maneira perfeita tornando a experiência mais enriquecedora. Aqui destaco Catherine Keener, irmã de Jeff e criadora dos fantoches do programa de Mr. Pickles, que, tal como o irmão, lida com vários problemas pessoais. A série foi evoluindo durante a 1.ª temporada, com os últimos episódios a serem brilhantes elevando a fasquia para a 2.ª temporada.

Sei que esta não é uma opinião consensual, até pelas críticas que fui lendo sobre a série, mas, para mim, Kidding está entre as melhores surpresas, no estilo em que se insere, dos últimos anos. Faz pensar, mas não é maçadora. Penso que a duração dos episódios, cerca de 30 minutos, foi uma escolha acertada. Se quando olharam para o nome e para quem ia assumir a personagem principal assumiram que ia ser uma boa comédia, desenganem-se, é bem melhor que isso.

“You can feel anything at all, anything at all. You can feel it. Happy, sad, big or very small, anything at all is fine. It’s you who is doing the feeling, and that makes it okay”. – Jeff Pickles.

E vocês, já viram?

Bruno Pereira