Downton Abbey, a série não-americana mais nomeada e indicada a prémios até à data (3 Globos de Ouro, 15 Emmys e 1 BAFTA), despediu-se dos ecrãs no Natal de 2015. Ao longo de seis temporadas acompanhámos os altos e baixos das vidas da família Crawley e de todos aqueles que os rodeavam. Pensávamos que as peripécias desta rica família inglesa dos anos 20 tinham terminado, quando em meados de 2016 surgem os primeiros rumores sobre um possível filme e em julho de 2018 temos a confirmação: Downton Abbey teria mesmo uma continuação. A estreia em Portugal deu-se no passado dia 19 de setembro.

E chegamos ao momento da verdade.

Sentas-te na cadeira, encostas-te e pões-te confortável enquanto saboreias umas pipocas. Assistes a uma quantidade razoável de trailers de filmes que ainda estão para vir e de anúncios nem sempre bons. Então, as luzes do cinema começam a escurecer e dás por ti a ouvir novamente (e finalmente!) o genérico desta série icónica de que tanto tinhas saudades. Depois começas a ver as personagens do costume e apercebes-te de que realmente sentiste falta delas, do seu sotaque e da sociedade britânica do século XX que elas tão bem representam.

O filme Downton Abbey é uma viagem nostálgica que nos transporta outra vez para aquele ambiente envolvente da série. O Castelo de Highclere volta a encarnar a casa que tão bem conhecemos e tudo parece como dantes. A diferença é que a trama decorre em 1927 e os Crawley recebem a notícia de que a família real os vem visitar. Este é o mote para os 90 minutos que se seguem. Há que meter tudo em ordem: planear as refeições, polir as pratas e pôr tudo a brilhar.

Do ponto de vista técnico não há uma única falha a ser apontada. Os cenários estão perfeitos, assim como as caracterizações das personagens que nos transportam ao século XX. É incrível a atenção ao pormenor, desde as ruas da vila, aos carros, aos elétricos. A nível de argumento, o que abonou a favor do filme foi o facto de estar recheado de comédia, pormenor este que não era tão acentuado na série. Estes momentos foram principalmente protagonizados por Joseph Molesley (Kevin Doyle), que está em êxtase com a presença do rei e da rainha em Downton Abbey e com a possibilidade de os poder servir durante a sua estadia, e por Violet Crawley (Maggie Smith), que aguçou ainda mais o seu sarcasmo. Outro dos pontos fortes, e que não faria sentido de outra maneira, foi o regresso de Mr. Carson (Jim Carter) à mansão, retomando a sua posição de mordomo enquanto decorre a visita real, de forma a garantir que tudo corre na perfeição. É sempre bom ver Jim Carter regressar a este papel que tão bem lhe assenta.

Contudo, apesar de bem realizado, este filme não vem acrescentar nada às histórias dos Crawley e dos seus empregados. Não traz nada de novo àquilo que vimos na série nem deixa no ar um cliffhanger que promete um reboot. Do ponto de vista narrativo, e como lemos online num artigo, este filme era desnecessário. O que não quer dizer que, enquanto fãs, não o tenhamos adorado. Apenas não podemos afirmar que tenha revolucionado o que já foi feito, até porque o plot em si não tem uma pitada de emoção, ação ou suspense. Não há cenas de luta, não há sangue, não há mortes, não há peripécias inacreditáveis. Pode-se dizer que é apenas mais um dia em Downton.

As crianças estão mais crescidas, Mary e Henry continuam felizes e, juntamente com Tom, Robert e Cora, moram em Downton Abbey. Lady Edith e Herbet Pelham são agora os marqueses de Hexham e esperam o primeiro filho em conjunto. Tom apaixona-se por uma nova personagem, trazida pela introdução de Maud Bagshaw (Imelda Staunton), prima dos Crawley. Bates e Anna têm finalmente direito ao merecido descanso ao lado do filho, Daisy e Andrew planeiam o seu casamento e Barrow encontra por fim alguém com quem pode partilhar os seus pensamentos. Foram estes os desenvolvimentos que decorreram no filme.

Este é única e exclusivamente um filme que nos deixa matar saudades de uma grande história e de grandes personagens. São duas horas bem passadas, onde temos oportunidade de rir diversas vezes e também de sentir a lágrima a crescer ao canto do olho. A cena mais sentida chega já no final com a revelação de que Violet está a morrer e com o passar de testemunho honesto que esta faz a Mary (Michelle Dockery), deixando-lhe Downton Abbey a seu encargo, ocupando esta o lugar da avó. E dito assim parece uma coisa muito superficial, mas acreditem que não foi. É de arrepiar as palavras que ambas trocam nesta cena e, de certo modo, parece que toda a série levou a este momento. Tudo o que aconteceu, todos os desvios, todos os contratempos, serviram para dar a Lady Mary as ferramentas necessárias para um dia ser ela a garantir o futuro daquela casa e daquela família, com a noção atual dos tempos que se avizinham e das adaptações a que a ele têm que ser feitas, não perdendo, porém, a essência daquilo que fez Downton Abbey.

Beatriz Caetano e Sofia Ferreira