A indústria televisiva pública funciona muito em dependência de um ganha-pão chamado: publicidade. Isto tanto em Portugal, como nos EUA, como em praticamente todo o lado. E isto significa que, quando avaliamos a viabilidade e longevidade de uma série num canal televisivo, as audiências são um fator crucial. Quantas mais audiências tiver uma série, mais pessoas visualizam os anúncios que passam nos seus intervalos e, consequentemente, mais dinheiro acabará por entrar nos bolsos dessas estações televisivas.

Sem boas audiências, é pouco provável que uma série se aguente no ar por muito mais que um ano. Claro que há muitos outros fatores em jogo, como os ratings elevados na faixa etária mais apetecida, tanto pelas emissoras como pelos anunciantes (a dos 18 aos 49 anos), e o próprio orçamento de produção das séries.

Mas todos estes fatores levantam problemáticas bastante cruéis no mundo das séries. Se, por um lado, temos séries de fraca qualidade a aguentar-se durante imensos anos a fio por terem audiências continuamente fortes e baixos orçamentos de produção (problema que também se verifica em séries de qualidade), por outro temos séries boas e com muito potencial a serem cortadas por fracos resultados de audiências, ainda que rapidamente se construam à sua volta fan bases muito dedicadas e fiéis. São exemplos deste último cenário os casos de Star Trek, Firefly e Veronica Mars, que apesar dos seus prematuros cancelamentos por fracas audiências, ganharam uma comunidade de fãs entusiasta e que levaram até, posteriormente, à reanimação dos respetivos universos noutros formatos para além da televisão, como na forma de bandas desenhadas ou filmes.

Mas vamos focar-nos um pouco mais em casos de séries que se tornaram em casos extremos de como uma boa série é prejudicada ao ser mantida durante temporadas a mais por ter bons resultados de audiências.

Grey’s Anatomy pode ter uma grande base de fãs fiéis (não é à toa que continua a ganhar nos People Choice Awards), mas a verdade é que é daquelas séries que continuará no ar enquanto houver audiência. É claro que deve ser uma preocupação ir de encontro aos desejos dos fãs de continuarem a acompanhar uma história, mas não a qualquer custo. Assume-se que quando alguém cria uma série tem uma história para contar, que terminará a determinada altura, pois nada dura ad aeternum. Grey’s Anatomy já perdeu a qualidade que lhe era atribuída nas temporadas iniciais, já passou por temporadas que pouco ou nada acrescentaram à história e recuperou com os típicos desastres em que alguém morre e o público sofre. Esta tem sido a fórmula da série: matar um personagem relevante para o enredo (de preferência um favorito dos fãs). No entanto, ao fim de tanta matança, a fórmula começa a apresentar um certo desgaste. Grey’s já poderia ter terminado há duas ou três temporadas, mas a verdade é que assim teríamos perdido uma temporada bastante razoável, como está a ser esta 12.ª, a nível de argumento. Só que a série é inconstante, tanto temos algo de muito bom como temos algo de muito mau. Os fãs podem não se cansar, mas a qualidade já acusou cansaço muitas vezes. Seria muito bom traçar uma meta para o término e conduzir tudo até aí, sem necessidade de mais uma série de desastres pelo meio e desventuras amorosas. Uma boa série termina na altura certa, não se deixa arrastar até sobrarem apenas os fãs mais fiéis.

O lançamento de Once Upon a Time em 2011 foi razão para muita felicidade, uma vez que era uma adaptação dos nossos queridos contos de fadas da infância. A primeira temporada não desiludiu, de todo. Depois de lançada uma maldição às personagens da Floresta Encantada dos contos de fada, elas foram condenadas a viver no nosso mundo sem memórias da vida anterior. Contudo, já estamos na quinta temporada e a série começa a acusar um desgaste notório. Já percebemos que Regina mudou e finalmente encontrou o amor da sua vida. Emma reencontrou os pais, perdoou-os e descobriu a felicidade ao lado de Hook. Rumple tem Belle, mas nem por ela é capaz de renunciar às Trevas (mesmo com inúmeras oportunidades para o  fazer). Já chega, não? Chega de mandarem as personagens viajarem de uns mundos para os outros. A fórmula é sempre a mesma, só mudam os cenários e as personagens secundárias. O diretor da ABC já anunciou que a série tem uma longa vida pela frente, o que é um erro enorme. Deviam acabar enquanto a série até tem qualidade. Mandem Emma e companhia de volta para a Floresta Encantada para todos viveram felizes para sempre. Por favor.

Pretty Little Liars é uma série capaz de nos fazer dizer muitas asneiras. Dizem que o fandom da série merece um prémio de paciência e é verdade, porque andámos anos e anos à espera que se revelasse a identidade do vilão que atormentava quatro adolescentes. No entanto, inicialmente a série era boa. Fugia um bocadinho a Gossip Girl, The O.C. ou One Tree Hill por haver mais mistério e não apenas dramas de adolescentes. A piada acabou-se provavelmente na terceira ou na quarta temporada. O que é demais, é demais. Para além de a revelação de “A” ter sido uma desilusão e com grandes falhas de construção de personagem, ainda se lembraram de fazer um salto temporal. Se antes a série já não tinha grande ponta por onde se pegasse, com o salto temporal de cinco anos ficou uma autêntica desgraça. Temos uma nova “A”, novas ameaças e histórias recicladíssimas das primeiras temporadas. O que é que estas raparigas fizeram de mal aos Deuses para terem três pessoas a quererem estragar-lhes a vida?! Ainda por cima ainda vamos ter mais uma temporada. E talvez o melhor fosse mesmo ficar por aqui. Já não há paciência!

How I Met Your Mother foi das melhores séries de comédia dos últimos tempos. É até aceitável dizer que as duas primeiras temporadas conseguiram estar ao nível de Friends, o que é um elogio e tanto. No entanto, lá para a 6.ª temporada, a série começou a perder alguma qualidade. As piadas eram as mesmas, as histórias eram muito baseadas no mesmo e demorou uma eternidade a desvendar o grande mistério da série: afinal quem era a mãe? Essa demora aconteceu porque as audiências da série eram boas e os criadores tentaram manter, pelo máximo de tempo possível, a série no ar. Quando finalmente o grande mistério da série é desvendado e os fãs percebem qual realmente vai ser o final de tudo, a maioria não ficou muito contente. Se foi um final inesperado? Quer dizer, basta rever os indicadores que já tínhamos. Se foi um final polémico? Totalmente! Para terem acabado daquela forma, podiam tê-lo feito algumas temporadas antes e tinham acabado em chave de ouro. As audiências têm muita influência no tempo em que uma série está no ar e, infelizmente, tempo nem sempre é sinónimo de qualidade. Se algumas séries acabassem algumas temporadas antes só ficariam a ganhar.

Supernatural encantou desde o início. Uma história de dois irmãos em busca do pai num mundo recheado de monstros sobrenaturais. Nada de romance, apenas o laço familiar que unia duas pessoas. Na sua maioria dramática, com uma pitada de comédia. Foi a receita perfeita para que nos últimos 10 anos Supernatural continuasse em exibição. Mas a verdade é que ao fim da quinta temporada, o encanto tinha passado. Quantas mais vezes podiam os irmãos Winchester morrer? Quantos tipos de guerras eles podiam inventar? Primeiro criaram o inferno e os demónios. Como não foi suficiente, surgiram o céu e os anjos, mas ainda veio o purgatório e a escuridão… Será que ainda existem mundos sobrenaturais ou paralelos por desvendar? Atualmente a grande questão da série é: Quem é Deus? E tem prendido os espectadores, mas  poderão continuar a espremer isso durante muitas mais temporadas? Todos os anos anunciam a última temporada de Supernatural e todos os anos voltamos a ter uma renovação. A série cansou a maioria com o enredo repetitivo, cada vez mais mirabolante e tornou a relação entre Sam e Dean, que antes era simples e bonita, em algo que roça o obsessivo. Mas os fãs fiéis continuam à espera daquele final feliz com que sonham desde 2005. Caso este não venha, ao menos que haja uma espécie de fim que deixe todos satisfeitos, pois uma das probabilidades é que Supernatural seja cancelada mais cedo ou mais tarde bruscamente e deixe todos ansiosos sobre o futuro incerto dos irmãos Winchester.

The Big Bang Theory continua a ser, desde há vários anos, das comédias preferidas do público, seja ele o americano ou o português. Começou com um Bang (obviamente), mas correrá o risco de terminar silenciosamente se continuar com as sucessivas renovações. Um dos grandes (se não o maior) atrativos da série era a personalidade peculiar do Dr. Sheldon Cooper que, nas últimas temporadas (e sobretudo nos últimos episódios), se foi suavizando através da sua relação emocional e física com Amy. Com dois dos membros do grupo casados (se bem que a Penny e o Leonard foram um final feliz de um ciclo vicioso) e um terceiro num relacionamento, a magia inicial de quatro nerds com dificuldade em se relacionar com o sexo oposto há muito que desapareceu. Será que a gravidez de Bernardette poderá ser uma aposta que irá trazer um novo desafio? Só esperando para ver! Até lá, vamos cruzar os dedos e esperar que TBBT não se junte à interminável lista de séries que se perderam nas temporadas só porque as audiências são fortes e os orçamentos baixos o suficiente para justificar as constantes renovações.

Ana Rodrigues, Beatriz Pinto, Diana Sampaio, Maria Sofia Santos e Mélanie Costa