Apesar de os clássicos da literatura não serem para mim, sempre gostei de coisas de época, mas a minha história com Downton Abbey começou um pouco por acaso. Quando a série estreou, pus a minha mãe a ver porque sabia que iria gostar e à medida que os episódios se desenrolavam, também eu comecei a prestar atenção e agarrei-me àquele enredo, àquelas personagens, entusiasmando-me verdadeiramente com cada novo episódio. Numa altura em que a maioria das pessoas se queixavam da quebra de qualidade da série, eu achava que Downton Abbey continuava tão boa ou melhor do que nunca e, quando terminou, achei que se tinha despedido de forma fiel a ela mesma. Nos últimos tempos tenho andado a rever a série na Amazon, para matar saudades, e achei que era uma boa altura para convencer alguns de vós a mergulharem no mundo da aristocracia com os Crawley e a conhecer um pouco mais sobre as primeiras décadas do século XX.

1 – Série de época que acompanha vários momentos importantes da História

Downton Abbey não nos dá apenas a conhecer os costumes e o modo de vida no início do século XX, também nos leva numa verdadeira viagem no tempo a acontecimentos tão marcantes como o naufrágio do supostamente inafundável Titanic; a tragédia da Primeira Guerra Mundial, tanto no campo de batalha como longe das trincheiras, sem esquecer o pós-guerra; ou a epidemia da Gripe Espanhola, que vitimou milhões de pessoas em todo o mundo. Aliar a ficção à História é uma boa forma de saber um pouco mais sobre a realidade de uma época em que ainda não éramos nascidos, explorando ainda as mudanças face a um mundo completamente novo.

2 – A dinâmica da diferença de classes 

No século XXI, a diferença de classes é muito menos vincada, felizmente, do que há cem anos atrás. Não vamos fingir que já não existe, mas as coisas são realmente diferentes. Estamos a falar de uma série em que as famílias aristocratas tinham um verdadeiro exército de empregados, não só para limpar e cozinhar, mas também para os ajudarem a vestir e a gerir a casa. Trata-se de uma altura em que era um escândalo uma menina de boas famílias casar-se com um motorista. A vida da família, no andar de cima, é completamente diferente da daqueles que para eles trabalham. No entanto, apesar de um pouco elitistas, os Crawley são boas pessoas que se preocupam verdadeiramente com os que estão à volta deles e encetaram vários esforços para ajudar os seus empregados nos mais variados obstáculos que se lhes colocaram à frente. É de destacar a grande amizade que Mary dedicou a Anna, o respeito e fé que Robert depositou no quanto Bates é um homem honrado ou até o carinho do pequeno Georgie por Thomas.

3 – A conjugação entre bom drama e momentos mais leves

Há drama, muito bom drama, em Downton Abbey. Há inúmeros momentos que apelam às emoções, que causam lágrimas, que angustiam, que nos fazem sofrer com os personagens. Contudo, há também verdadeiros momentos cómicos. O humor apoia-se sobretudo em tiradas bem certeiras e espontâneas que são ditas no momento certo, mas também um pouco no nível de absurdo que é para um espectador deste século ver como as coisas eram naquela época, com todas as regras de etiqueta. Há também umas quantas peripécias engraçadas a acontecerem na cozinha, enquanto se preparam refeições, e momentos com os miúdos da família que também são uma delícia! Downton Abbey consegue brilhar nas suas duas distintas facetas, mas confesso que tenho um fraquinho por drama.

4 – O elenco

Não há um mau ator ou atriz nesta série. O elenco foi extremamente bem escolhido e todos encaixam perfeitamente nos seus papéis. O elenco é sobretudo britânico, sendo que Elizabeth McGovern é a única americana no núcleo principal, e é notória a diferença entre as duas culturas na série. Os bons elencos parecem-me uma característica das séries britânicas em geral, aliás. Continuando… Os casais têm química e os personagens, individualmente, conseguem envolver-nos nas suas histórias. Adicionalmente, durante o tempo em que Downton Abbey esteve no ar, vários elementos do elenco – Brendan Coyle, Elizabeth McGover, Hugh Bonneville, Jim Carter, Joanne Froggatt, Maggie Smith, Michelle Dockery – foram nomeados para importantes prémios de representação e não foram assim tão poucas as vezes em que levaram estatuetas para casa. É óbvio que as nomeações e vitórias em prémios valem o que valem, nem todos apreciamos os atores mais galardoados,  mas dá sempre muito reconhecimento ao trabalho de um ator ou de uma série.

5 – Violet Crawley/Maggie Smith

Já que o elenco como um todo merece destaque, é impossível não dedicar especial atenção a Maggie Smith. Ela é absolutamente brilhante no papel de Violet Crawley, uma mulher que parece extremamente conservadora, mas que é muitas coisas para além das que mostra ao início. É uma voz de crítica constante, mas é também uma voz da razão. É alguém que não tem papas na língua e é responsável por alguns dos momentos mais engraçados da série, mas capaz de uma grande ternura – raramente trazida à superfície porque, afinal, é uma inglesa de gema e os ingleses não são muito bons a lidar com sentimentos, como somos tantas vezes lembrados ao longo da série. Se já viram Maggie noutros trabalhos, sabem certamente que ela não desilude naquilo que faz.

6 – A relação de Cora e Robert

Mary e Matthew são o casal sensação da série e apesar de ter de reconhecer que ficam muito bem juntos, Cora e Robert foram sempre o meu casal preferido. Agora que revi a série, aponto-lhes defeitos que não tinha encontrado da primeira vez, mas ninguém nem nenhuma relação é perfeito. Conhecemo-los como um casal que já está junto há muito tempo, mas a sua história começou com um casamento arranjado, no qual o dote de Cora ajudaria a salvar os problemas financeiros de Downton. No entanto, o casamento combinado deu lugar a uma história de amor. Parece um conto de fadas tornado realidade e, a sério, se a forma como Cora olha para Robert não é amor puro, não sei o que é!

7 – Os especiais de Natal

Quem me conhece sabe que não gosto do Natal. Aliás, já me chamaram Grinch e eu própria me identifico com a criatura. Só que há coisas em televisão tão mágicas que até nos fazem gostar de coisas às quais na vida real torcemos o nariz. No entanto, os episódios especiais de Natal de Downton Abbey são das melhores coisas de sempre no que a esta festividade diz respeito. São repletos daquela magia de que os natais deviam ser feitos e têm uma característica bastante britânica – que tenho dificuldade em explicar, mas que reconheço – que só consigo encontrar também em Call the Midwife. Acho que isto tem a ver com uma forma muito genuína que Jullian Fellowes tem de contar histórias. Para aquelas pessoas que veem tudo o que é filmes e/ou séries de Natal, é imperdível!

Diana Sampaio