Classificação

8.5
Interpretação
6.5
Argumento
9.5
Realização
8.5
Banda Sonora

Este artigo contém spoilers!

Cá estamos de volta para a derradeira conversa sobre a 3.ª temporada de Westworld. A semana passada fiz uma espécie de carta aberta sobre o porquê da minha desilusão para com esta temporada. Escrevi na esperança de que, de alguma forma, o Universo tivesse uma intervenção divina e nos fosse oferecido um episódio final com respostas que nos deixassem minimamente satisfeitos. Eu sei, era uma visão utópica, mas eu sou daqueles que acredita até ao último segundo. Infelizmente nada mudou e tivemos o final de temporada de que racionalmente estava à espera.

Crisis Theory, como indica o nome, é uma referência à teoria da crise, explicada por Karl Marx – no caso sobre a crise económica. Mas claro, não vos vou estar a maçar com explicações históricas porque estamos aqui mesmo para falar desta 3.ª temporada.

Como já tinha falado na semana passada, avaliar um episódio de Westworld é um paradoxo emocional para mim. A verdade é que se avaliar o episódio de uma forma solta como um episódio de televisão, então tenho de dizer que os episódios são muito bons. Mas como se costuma dizer, nós somos nós e o nosso contexto, por isso, dentro do contexto Westworld, os episódios já não são assim tão bons. É meio esquisito, eu sei!

Na minha opinião, esta temporada falhou em dois pontos muito cruciais: na narrativa e no aproveitamento de personagens. A narrativa desta temporada foi muito ao lado. Apesar de haver quem tenha criticado e até pedido uma narrativa mais simples do que as que vimos nas duas últimas temporadas, a verdade é que essa era a alma da série. As linhas temporais trocadas e todas as questões filosóficas faziam com que ficássemos colados ao ecrã a tentar desvendar a série. O que aconteceu nesta temporada foi o contrário, ficámos a tentar desvendar algo que não era preciso porque estava ali, bem explícito mesmo à nossa frente. Inclusive, por vezes, até demasiado explicado. A história pareceu tão fácil e previsível que se tornou chata! Por exemplo, neste episódio, Bernard percebe que tem os dados da Delos dentro da cabeça dele. O que para ele é uma revelação gigante, para nós público já cansou porque já tínhamos percebido isso desde o segundo ou terceiro episódio. Outro aspeto que em termos de narrativa falhou foram as inconsistências na história. Falámos várias vezes de erros de continuidade ou coisas que não faziam sentido, como toda a cena da morte de Liam, e sempre apontámos que isso era uma pista de que algo não estava certo porque foi aquilo a que a série nos habituou. Chegando ao final da temporada percebemos que não, aquilo eram mesmo erros. Dou mais um exemplo de algo que não fez nenhum sentido. Nesta temporada é justo dizer que tudo andou à volta de Caleb. Quem era? De onde vinha? Bem, questionámos tudo. No episódio 7 ficamos a saber várias coisas, mas neste episódio descobrimos que Dolores afinal não o escolheu por ser um outlier, mas sim porque ele esteve presente no parque 5 da Delos e impediu que ela fosse violada pelos seus companheiros soldados. Malta, primeiro: o parque 5, o que nos faltava descobrir, é um campo de treino para soldados? Como? A Delos, essa empresa cheia de segredos e experiências no mínimo questionáveis, tem um parque específico para os soldados do estado? É muito estranho! Mas ok, vamos até aceitar isso. Onde e quando é que Dolores fez parte desse parque? Dolores sempre foi a filha do fazendeiro. Ela é o primeiro host. De repente tirou duas semanas para ir a outro parque? Aquilo que me faz perceber é que quiseram dizer-nos que eles já se conheciam antes e tudo mais e criaram uma fácil, mas muito mal pensada, desculpa.

Vamos ao desperdício de personagens. Bom, Bernard andou sete episódios a não fazer nada. Neste episódio, muito subitamente percebeu que era a chave de Dolores e que ela tinha colocado as informações da Delos na cabeça dele. Melhor, ele do nada percebeu que Dolores afinal queria salvar o mundo. Neste episódio tivemos um Bernard realmente útil. Muito boa a cena onde ele visita a mulher do Arnold! Foi emocional e deu para sentir a dor de Arnold sentida por Bernard. E mais, deu espaço ao fantástico ator Jeffrey Wright para fazer o que sabe fazer melhor. Bem-vindo, Jeffrey, sentimos a tua falta! Percebemos também que Dolores quer que Bernard regresse ao Além do Vale para recuperar alguma coisa. Algo – pelo que vimos nos pós-créditos – que vai demorar muitos anos a recuperar. Obrigado, Westworld! Já foi um cheirinho do que nós gostamos. Mas claro, estamos a falar de desperdício de personagens. Westworld faz-me lembrar aquelas famílias em que qualquer trabalho que surja vai ser para um determinado membro. Vejam só, Musashi, Clementine, Hanaryo e agora Lawrence (que é a Dolores que faltava) apareceram só por aparecer. Enquanto isso, Maeve andou a temporada toda a chorar pela filha, coisa que já estava resolvida, e de repente fez o que sempre dissemos para ela fazer, que foi ter uma conversa com Dolores. E grande choque, Maeve mudou de lado! Bem, nem quero falar muito porque o que fizeram com a personagem Maeve nesta temporada foi uma vergonha!

Mas vá, para não acabar mal a temporada vou falar um bocadinho de coisas de que gostei. Do ponto de vista visual, a série esteve sempre em grande nível. Mais uma vez, este episódio foi tecnicamente brutal. A cena de Dolores em máquina foi muito bem feita e a cena final onde Caleb e Maeve observam o caos no mundo à imagem e semelhança do que acontece na última cena de Fight Club, tudo ao som de Dark Side of the Moon, dos Pink Floyd, foi lindo, poético, fantástico e tudo o mais que lhe queiram chamar. Além disso, as cenas pós-créditos foram muito boas, talvez melhor mesmo que o episódio em si e deram o mote para o que poderá ser a próxima temporada.

Seja em 2022 ou mais tarde, a próxima temporada de Westworld tem tudo para ser melhor do que esta. Ela vai acontecer durante – e provavelmente – após o apocalipse que todos vimos neste último episódio. Como disse Bernard em alusão ao que aconteceu com os hosts, também os humanos precisam de queimar tudo e recomeçar. Acho que depois das críticas negativas que se tem ouvido, Lisa Joy e Jonathan Nolan vão abandonar este filme de ação sci-fi e voltar às origens. Um Westworld na Terra no meio da destruição é um bom ponto de partida. Pela cena de Bernard, faz-me crer que vamos ter várias timelines e talvez assim regresse o tal puzzle de que nós tanto gostávamos. Ah, e espero que regresse também Evan Rachel Wood, porque sem ela a série não será a mesma. Estou certo de que vai voltar!

Obrigado a todos os que acompanharam as reviews semanais desta temporada. Quer eu, quer o Séries da TV, estaremos de volta com novas reviews quando Westworld voltar. Mesmo com altos e baixos, a série ainda está dentro do panorama da boa televisão e por isso acredito que a 4.ª temporada poderá ser bem melhor.

Até à próxima temporada!

Carlos Real