Acabei de ver a 4.ª temporada de Sullivan’s Crossing, já disponível no TVCine+, e devo dizer que foi, até agora, a minha favorita.
Sentiu-se claramente que os argumentistas perceberam que a fórmula da série começava a dar sinais de desgaste e fizeram um esforço para abanar um pouco as coisas. Em boa parte da temporada conseguiram-no com sucesso. Antes de mais, arrumaram a casa. Fizeram muito bem em despedir-se de algumas personagens secundárias que já pouco ou nada acrescentavam e em voltar a centrar a narrativa nos protagonistas. Nem sequer senti grande falta de Sully (Scott Patterson), para ser sincero. A história dele andava há demasiado tempo à volta dos mesmos conflitos. Ainda ganhou algum fôlego na 3.ª temporada, mas saiu na altura certa.
Também gostei bastante das novas personagens. Ao contrário de outras introduções que pareciam estar ali apenas para ocupar espaço, estas vieram realmente acrescentar algo. Serviram para trazer ao de cima medos, inseguranças, fantasmas do passado e até os melhores e piores traços de cada personagem. Em vez de roubarem protagonismo, acabaram por enriquecer quem já lá estava, dando-lhes mais nuances e profundidade.
Até os casos médicos, que muitas vezes existiam apenas para nos lembrar que Maggie (Morgan Kohan) é médica, foram muito melhor integrados na narrativa. Desta vez, na maioria das situações, serviram também para desenvolver as personagens e fazer avançar as suas histórias, o que tornou tudo muito mais natural.
Mas o grande destaque da temporada acaba por ser a história da Maggie. Depois da revelação no final da 3.ª temporada de que afinal tinha sido casada, percebemos finalmente o que isso significava e, acima de tudo, conhecemos uma versão da personagem que ainda não tínhamos visto. Mais rebelde, impulsiva, emocional e menos controlada. Gostei muito dessa abordagem e acho que Liam (Marcus Rosner) teve um papel fundamental nisso. Trouxe ao de cima uma Maggie diferente e, por consequência, muito mais interessante.
Ao mesmo tempo, isso também acabou por expor um problema que sempre tive com Cal (Chad Michael Murray). Nunca fui grande fã da personagem. Acho-o demasiado rígido, demasiado certinho e, muitas vezes, com uma superioridade moral que nem sempre se justifica. Enquanto a dúvida era entre ele e o Andrew (Allan Hawco), não havia grande problema se a escolha recaísse sobre o Cal. Mas quando o colocamos ao lado do Liam, a diferença torna-se evidente. O Liam desafia a Maggie, tira-a da zona de conforto e faz com que a personagem cresça. O Cal, pelo contrário, acaba por a manter sempre no mesmo registo.
Foi precisamente por isso que fiquei desiludido com a forma como essa narrativa terminou. Gostei do facto de nunca terem transformado o Liam num vilão só para facilitar a escolha da Maggie. Isso teria sido demasiado fácil. Mas depois de todo o desenvolvimento que lhe deram, e mesmo aceitando os clichés que este tipo de séries inevitavelmente tem, senti que o desfecho foi construído de forma a que ele acabasse por ficar mal na fotografia. E, de repente, voltámos exatamente ao ponto onde já estávamos antes.
Tenho ainda de fazer um aparte para a banda sonora. Sou um grande apreciador de música indie e folk e Sullivan’s Crossing sempre teve bom gosto nesse aspeto. Mas esta temporada esteve particularmente inspirada. Houve várias músicas que me fizeram ir imediatamente procurá-las e como resultado descobri novos artistas e bandas bastantes interessantes. Pontos extra por isso.
No geral, achei esta uma temporada bastante conseguida. Teve coragem para mudar algumas dinâmicas, introduziu personagens que realmente acrescentaram valor, deu novas camadas aos protagonistas e conseguiu fugir, durante boa parte dos episódios, à repetição que começava a marcar a série. É pena que, no episódio final, tenha voltado ao tom das temporadas anteriores e optado por um caminho bem mais previsível. Isso deixou-me um pouco menos entusiasmado para a 5.ª temporada, que já está confirmada. Espero estar enganado, mas, pelo tom em que esta terminou, não me parece que consiga ser tão interessante como esta quarta temporada foi.
A 4.ª temporada de Sullivan’s Crossing, um original CTV, já se encontra disponível na totalidade no TVCine+. As duas primeiras temporadas estão disponíveis na Netflix e a 3.ª temporada encontra-se também no TVCine+.
Melhor episódio:
Episódio 6 – Boiling Point – Este episódio foi o melhor da temporada. Foi aí que vi a Maggie expor-se verdadeiramente pela primeira vez. Deixou de tentar controlar tudo, deixou-se levar pelas emoções acumuladas e mostrou um lado muito mais humano, impulsivo e falível. Foi um episódio que lhe deu uma profundidade que até então sentia faltar. E foi também aí que aconteceu o momento mais surpreendente de toda a temporada. Não estava minimamente à espera daquela queda, nem de algo semelhante, precisamente porque a série costuma deixar demasiados sinais quando se prepara para acontecer alguma coisa e a Maggie Salvar o dia. Desta vez não. Aconteceu de forma inesperada, apanhou-me completamente de surpresa e, por isso mesmo, acabou por ser um dos momentos mais fortes e originais de toda a série.
Personagem de destaque:
Liam (Marcus Rosner) – Se houve uma personagem que marcou esta temporada, foi Liam. Mais do que um simples interesse amoroso, trouxe algo que Sullivan’s Crossing raramente tinha conseguido criar: atrito, imprevisibilidade e a sensação de que as personagens podiam, finalmente, sair da zona de conforto. Ao desafiar constantemente Maggie, obrigou-a a confrontar escolhas, medos e emoções que estavam há muito reprimidos. E isso acabou por tornar a própria Maggie muito mais interessante do que alguma vez tinha sido nas temporadas anteriores.