Naquela Noite (Esa Noche) é uma minissérie que começou bastante bem, que consegue deixar o espectador agarrado ao ecrã o tempo todo e que convida mesmo a ver tudo em modo maratona. No entanto, o final é imensamente anticlimático e acaba por estragar tudo. É estranho, mas deixou-me deprimida. Não porque foi propriamente triste, mas porque fiquei: a sério, é isto? Senti-me defraudada, de certa forma, e muita coisa deixou-me desconfortável. A palavra manipulação também me vem à mente. Elena fez o que fez porque realmente se sentiu ameaçada e por poder ficar sem Ane? Ou cometeu um homicídio a sangue frio porque não teve a capacidade de pensar numa forma melhor de resolver o problema? Acho que é justo dizer que nesta série não há narradores fiáveis. Sabemos algumas verdades, como algumas coisas são e aconteceram, mas estamos longe de poder engolir a história completa.
Além disso, ficaram imensas coisas por explicar. Paula, Cris e Elena tiveram uma infância traumática, marcada pela tragédia da morte da mãe e do irmãozinho mais novo. É óbvio que a mãe tinha problemas de saúde mental, mas o que é que se passou pela cabeça dela naquele momento para se suicidar e levar os filhos com ela? Não estou a julgar, só queria saber mais. Elena só não morreu por um milagre e Paula carrega a culpa desse dia, como se fosse obrigação dela ter impedido o que aconteceu. Não era. Ainda por cima, era apenas uma criança. Mesmo que fosse a mais velha, era uma criança. O pai onde estava? Sabemos que era tóxico, a relação com as filhas parece, ao mesmo tempo, próxima, mas desconfortável e sufocante, mas também não temos nenhuma informação concreta que nos faça perceber o quadro completo. A série dá-nos vislumbres de todas estas coisas interessantes, mas depois não nos dá uma resposta definitiva. O mesmo foi feito com Luisa. A relação que teve antes marcou-a, mas é tratada como instável por Paula, o que também parece revelar algum tipo de problema de saúde mental, mas a verdade é que Luisa me parece a mais estável de todas as personagens. Ou menos instável. Talvez me sinta mais confortável em dizê-lo assim. No entanto, é certo que Paula usou quaisquer que sejam as ‘fragilidades’ de Luisa para a manipular. Tudo para proteger o que Elena fez, é certo, mas não tem desculpa. Que família mais tóxica!
No fim, o enredo acaba por parecer absurdo e deixei de torcer pelas personagens. Deixei de saber o que pensar de Elena; irritou-me a lealdade cega de Paula para com a irmã; achei irrealista a forma fácil como Cris conseguiu safar-se facilmente dum crime que ajudou a encobrir. No entanto, foi a única que acabou por tomar alguns decisões corretas. A única coisa de que acabei por gostar no final foi o facto de Cris ter criado a sobrinha e, de alguma forma, parecer ter quebrado o ciclo de toxicidade. No entanto, teria sido muito mais interessante que Ane tivesse sido entregue à guarda do estado e, posteriormente, adotada por uma família carinhosa e que não tivesse nada a ver como aquela gente doida.
A caracterização das personagens para as envelhecer no último episódio distraiu-me imenso. Acho que preferia que tivessem usado atrizes mais velhas, porque não achei que assim tivesse funcionado muito bem.
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Melhor episódio:
Episódio 2 – Centrado em Paula, foi o episódio de que mais gostei e o que achei mais marcante. Nesta altura ainda estava longe de imaginar que estávamos a ser manipulados e que a história podia ser bem diferente daquilo que nos faziam crer. Conhecemos melhor Paula, vemo-la a debater-se com o resultado de um teste positivo de gravidez. Um bebé que ela, na realidade, não parece querer ter. Quem parece querer muito ser mãe é Luisa. Também gostava de ter percebido porque é que foi Paula a engravidar e não a mulher, mas é mais uma coisa que a série nos explica bem. No entanto, neste episódio, Paula mostrou-se uma personagem interessante. Excessivamente impulsiva, sempre prestes a bater em alguém e pronta para armar confusão, mas com camadas.
Personagem de destaque:
Luisa (Nüll García) – A pessoa menos duvidosa moralmente. Respeitei imenso a sua decisão de deixar Paula. Fiquei desiludida quando voltou para ela, mas mais tarde redimiu-se, ao ir embora de uma vez por todas. Ninguém precisa de estar rodeado de todos aqueles segredos, de tantas pessoas tóxicas e de ser sempre colocada em segundo lugar. Também não critico Paula por colocar Elena em primeiro lugar, mas não consigo aceitar que para isso tenha feito Luisa duvidar daquilo que tinha visto e que sabia ser verdade. Foi cruel e a prova de que Luisa precisava de sair daquela relação.