A 2.ª e última temporada de The Sandman (Sandman – Mestre dos Sonhos), da Netflix, dividida em duas partes, lembra-nos porque é que vale a pena ver séries. The Sandman é bonita na forma mais literal da palavra: é fantasia pura, melancólica, contemplativa, interessante, mas sobretudo bela em todos os sentidos em que se pode usar essa palavra. A realização, os figurinos, a fotografia, os cenários, tudo é cuidado até ao mais ínfimo pormenor. Os enquadramentos roçam a perfeição estética, enquanto os diálogos, simples e ao mesmo tempo complexos e enigmáticos, dão corpo a uma narrativa que não é fácil nem linear.
Não é uma série previsível. Parece por vezes carecer de lógica coerente, mas cada resolução acaba por fazer perfeito sentido assim que se assiste. The Sandman é fantasia no seu estado mais puro. Ao contrário de The Wheel of Time, que se ancora em sequências de ação, ou de House of the Dragon, sustentada pela intriga política, aqui a própria essência da fantasia é a narrativa e funciona de forma brilhante.
É uma pena saber que esta temporada foi a última. Se existe algo a apontar, é o longo intervalo entre temporadas. Sendo uma série exigente, dei por mim a esforçar-me para relembrar certos detalhes, plots e personagens da 1.ª temporada. Ainda assim, que personagens! Bem escritas, bem caracterizadas, carregadas de diálogos que exploram as grandes questões da existência: o sentido da vida, da morte, da responsabilidade, do poder dos sonhos.
No geral, The Sandman é uma das séries de fantasia mais próximas da perfeição. Ao contrário de tantas outras que se alongam para além do necessário, aqui lamento que não haja mais para ver. Este tem sido um ano particularmente cruel para os fãs de fantasia, com cancelamentos de produções de qualidade acima da média, como The Wheel of Time e agora The Sandman.
Mas ficam as imagens, frias e cruas, mas ao mesmo tempo cheias de cor e significado, as memórias daquela melancolia constante, dessa tristeza fundamental que, paradoxalmente, nos faz valorizar o bom da vida. Os dilemas morais das personagens não só nos entretêm, como também nos arrancam sorrisos e, sobretudo, falam conosco. Porque é isso que The Sandman consegue como poucas séries: atravessar o ecrã e provocar reflexões profundas sobre o universo e o nosso papel nele, através de metáforas belíssimas e bem construídas.
Todos os episódios de The Sandman encontram-se disponíveis na Netflix, incluindo um episódio bónus, independente, em cada temporada.
Melhor episódio:
Episódio 10 – Long Live the King – Foi o melhor episódio desta temporada, funcionando como um resumo de tudo o que se passou até então. Nele, podemos rever praticamente todos os personagens importantes e perceber de que forma o Rei dos Sonhos os impactou. Foi triste, emotivo, tudo que a série representa esteve ali representado.
Personagem de destaque:
Morpheus (Tom Sturridge) – O personagem em destaque é, sem dúvida, Morpheus. A sua evolução é notável e o caminho que percorre entre o primeiro e o último episódio é uma ode ao desenvolvimento de personagens. O mais curioso é que nós conseguimos ver essa transformação, mas ele próprio é alheio a ela, incapaz de a reconhecer – algo profundamente… humano.