Classificação

10
Interpretação
9
Argumento
9.5
Realização
8
Banda sonora

Temporada: 4

Episódios: 10

[Contém spoilers]

A quarta temporada de The Crown chega em transição. Naquela que é a última temporada de Olivia Colman, as estrelas principais são duas chegadas e até o filho parece ter mais tempo de antena que o topo da pirâmide. Mas será que estas mudanças se traduzem numa temporada melhor do que as anteriores, ou pelo menos com a mesma qualidade?

Nos momentos iniciais temos logo uma alegoria perfeita para esta família: enquanto o mundo inglês arde com uma crise económica e a ascensão da IRA, a realeza caça e pesca, conforme o seu tipo de personalidade. O mundo parece passar por esta gente a uma velocidade diferente, o que não é de admirar considerando que tudo à sua volta resiste à mudança. Os saltos temporais na trama são mais bruscos e nem sempre percetíveis (exemplo: quando Charles conhece Diana esta tem 16 anos e, quando este questiona Sara sobre a caçula, esta já tem 18), mas nunca ao ponto de nos deixar confusos. Os mais atentos vão perceber que as frustrações nas relações entre eles não nasceram ontem e que são um acumular de anos de negligência.

O quarto capítulo assenta nos ombros de três grandes mulheres. Três servas de um destino que não controlam e, por isso, desenvolvem diferentes métodos para lidar com ele. De um lado temos Thatcher, uma líder aparentemente frágil que luta contra tudo e todos para fincar os seus ideais. Alguns históricos irão argumentar que fez mais mal do que bem a Inglaterra, outros irão argumentar o contrário, mas a mim o que interessa apenas analisar é esta Thatcher. Uma mulher que subiu acima do preconceito masculino, mas ao mesmo tempo prepara o jantar para o seu gabinete enquanto discutem assuntos de estado. Tenta furar a muralha real (a cena dos jogos no segundo episódio é deliciosa!) para perceber que o seu papel é destruir conceitos pré-concebidos. Uma reformadora que sabe com afinco o que é necessário para tornar “o Reino Unido grande novamente”, mas não esconde à frente da filha que o filho é o seu favorito. Uma mãe que decreta guerra à corrupção, mas toma decisões com base nos interesses financeiros do filho na África do Sul… Thatcher começa por mostrar uma fragilidade nos primeiros episódios que progressivamente é substituída por uma arrogância de quem segura o poder há sete anos. No fim fica uma mulher complexa, difícil de definir. O que Gillian Anderson fez com a Iron Lady só pode ser descrito como trabalho de mestre. Absolutamente irrepreensível na fragilidade e nos momentos mais “cómicos”. A verdadeira senhora desta temporada para mim.

Diana começa, de maneira apropriada, como uma criança. A sua fragilidade e inocência são apenas ultrapassados por um brilho especial nos olhos que todos parecem sentir. Numa família de egos, a força gravítica desta “flor” causou muitos choques no fim, mas no inicio chegou a encantar… No mesmo episódio em que é mostrado a inaptidão da primeira ministra, mostram também a perfeição de Diana em se integrar numa família que não faz qualquer sacrifício pessoal para aceitar os “fracos”. Não foi preciso esperar muito para Diana perceber que a sua vida se adivinhava menos conto de fadas e mais de luta contra tudo e todos. Da indecisão de Charles (Josh O’Connor), à falta de apoio de Elizabeth ao desafio direto de Parker Bowles (Emeral Fennell). Ver este “romance” a culminar em casamento, sabendo o desfecho da vida real, é como observar um tsunami deprimente a avançar muito lentamente sem que seja possível fazer nada para o impedir. Só nos resta sentir pena. Houve momentos de alguma esperança, como a viagem à Austrália em que a chama se reacendeu, tal como aconteceu com Elizabeth e Filipe. Porém, o ciúme social de Charles nunca permitiu que este soubesse lidar com o diamante bruto que o acompanhava. Diana torna-se na princesa do povo e salva a realeza no Hemisfério Sul, mas perde Charles para sempre. É difícil tomar um partido completamente “justo” na desavença deste casamento, mas acaba por se Anne quem melhor define Charles e Diana: duas mentalidades de planetas diferentes. Claramente será Diana a acartar com as culpas, mas considerando o comportamento hipócrita, inseguro e invejoso de Charles em todo este caso, sobram poucas dúvidas sobre a origem da discórdia entre ambos.

Outro aspeto que a série não fez qualquer intenção em esconder é a luta de Lady Di com a bulimia (o que pessoalmente desconhecia), que salienta ainda mais o conflito interior que travava. Só não estou certo se seriam necessárias tantas cenas com Diana a vomitar na casa de banho… Quanto ao trabalho de Emma Corrin, permitam-me desde já salientar que a tarefa de dar vida a uma personagem tão icónica, e agradar a todos, seria titânica para não dizer impossível. Dito isto, Diana tinha também uma faceta mais “espirituosa” e astuciosa, que Emma não nos mostra tanto. Evidencia em demasia o queixo baixo, o inclinar da cabeça e olhar escondido, sem que nos mostre a outra face mais distinta e afirmativa. Talvez não seja esse o seu papel, mas sim o de Elizabeth Debicki a partir da quinta temporada.

Naquela que foi a segunda e última temporada de Colman à frente do elenco, não deixo de sentir pena que tenha sido um papel tão “discreto”. Obviamente continua a ser o centro das principais atenções, mas com a chegada de Diana e Thatcher, e a necessidade de explorar tão ricas personagens, a rainha sofre com isso. Prova disso é que os momentos finais da temporada nem são seus, mas de Diana. Ainda assim há vários momentos de brilhantismo para lembrar. No lado mais cómico temos os quatro almoços em que uma mãe desligada tenta perceber qual o filho favorito, quando estes já são adultos (e considerando o que se sabe atualmente, escolheu muito mal!). Há também a total separação de mãe de Charles e da rainha de Inglaterra. Vez após vez, Elizabeth falha em apoiar o filho, ao invés, força o príncipe a cumprir o seu dever, sem perceber que ela é a principal causa daquilo que menos gosta no descendente. É super curioso ver que a rainha demonstra paciência e atenção a um homem que aparece nos seus aposentos a meio da noite, mas força o filho a engolir sentimentos pessoais e a cumprir o seu papel, como se a sua vida não fosse mais que um emprego. Com muita pena me despeço de Olivia, que considero uma das melhores atrizes do mundo. Não só herdou bem o papel, como deixou o seu cunho pessoal. Uma pequena nota para o regresso de Claire Foy, num pequeno cameo que nos arranca um sorriso.

Mais do que nunca, The Crown expõe uma cambada de gente absolutamente infeliz com a vida. Vida que o público considera perfeita. Por exemplo, não há um único pai/mãe que se safe, a não ser Diana, que a série faz por destacar como mãe protetora e presente. Na verdade é até difícil encontrar com quem nos relacionarmos verdadeiramente no que à “pureza de espírito” diz respeito. A vida real não é feita de bons e maus, mas há alturas em que esta gente abusa… De afastar crianças com problemas mentais, a usar um fiel empregado para cair sobre a espada de forma a salvar a face de uma monarquia que teima em não sujar a própria.

Tentando responder à pergunta que fiz no primeiro parágrafo (há 300 anos!), é-me francamente difícil dizer onde colocar esta temporada em relação às anteriores. É significativamente diferente e isso poderá agradar a alguns e aborrecer outros. O que é constante é a qualidade da fotografia, da realização, do argumento e das representações. A entrada de Diana e Thatcher desvia as atenções, mas permite à série explorar toda uma nova gama de dramas que rodeiam esta família. O facto da série conseguir progredir para diferentes eras com diferentes atores, e variar os focos principais, e ainda assim manter um ADN singular, é uma proeza que não deve ser menosprezada. The Crown é, e acredito que continuará a ser até ao final, do melhor que a televisão pode oferecer.

Melhor Episódio:

Episódio 7 – The Hereditary Principle – No meio da temporada há sempre episódios que se focam quase exclusivamente numa personagem. Este é de Margaret. Uma observadora nata que questiona o porquê de a monarquia continuar a cometer os mesmos erros, e esperando, no entanto, resultados diferentes. Não só Helena Bonham Carter é absolutamente perfeita, agarrando todas as cenas e demonstrando fragilidade ou arrogância sempre que necessário, como a própria temática do episódio é marcante. O caso do esquecimento das crianças com problemas mentais é mais um prego no caixão moral. Os atos cruéis de insensibilidade, frieza e apatia para com o lado humano do “centro” familiar e com os outros é preocupante. Um episódio que choca e eleva ainda mais Helena, ajudando também a desviar as atenções de Charles/Diana.

Personagem de Destaque:

Margaret Thatcher – É uma escolha bem mais difícil do que possa parecer. Se por um lado sou fã acérrimo de Olivia, também é verdade que grande parte do tempo de antena é de Diana. Mas acredito que é fundamental destacar Gillian como Thatcher. Os maneirismos, a fala e as expressões da atriz, assim como o impacto que a personagem tem em toda a temporada no aspeto social e na relação com Elizabeth, tornam-na na personagem que mais me marcou nos dez episódios. Todos os prémios para Anderson serão poucos para o que ela nos deu.

Vítor Rodrigues