Classificação

9.5
Interpretação
9
Argumento
10
Realização
9
Banda Sonora

[Não contém spoilers]

A Espia é a mais recente produção ficcional portuguesa e que produção! Passada em 1941, na altura em que a Alemanha invade a URSS e que Portugal, país neutro nesta guerra mundial, recebe refugiados que fogem pelas suas vidas, um conjunto de personagens de diversas nacionalidades entra em ação para fazer cumprir os diversos objetivos, vendo-se envolvidos numa intriga diplomática. Realizada por Jorge Paixão da Costa (Soldado Milhões), esta minissérie de oito episódios foi gravada em Lisboa, Porto, Figueira da Foz e Santiago de Compostela, contando com um orçamente de cerca de 250 mil euros por episódio.

O que primeiro me chamou a atenção para esta nova série foi, sem dúvida, o elenco. Daniela RuahDiogo Morgado, os dois atores nacionais mais internacionais, a contracenarem juntos? Bem, só pode ser bom. Maria João BastosAdriano Carvalho, Marco D’Almeida, Sisley Dias e António Capelo (só para dizer alguns)? “Promete”, pensei. Prometeu e cumpriu. Séries históricas são o meu ponto fraco – adoro tudo o que represente acontecimentos verídicos e que me transporte a outras épocas. Gosto especialmente se me ensinarem algo novo, que foi o caso d’A Espia, mas já lá vou.

Parece que os portugueses têm o dom de fazer muito com pouco. Apesar de 250 mil euros por episódio parecer uma conta choruda, todos sabemos que os orçamentos para produções deste género não se comparam minimamente com os de países como os EUA ou o Reino Unido, mas ainda assim conseguem trazer aos ecrãs cenários e caracterizações de fazer prender o olhar e não ser mais capaz de desviar. A Espia faz isto de forma inacreditável. Dá-se o acaso de estar a ler O Inverno do Mundo, de Ken Follett (segundo livro da trilogia O Século), que decorre durante a 2.ª Guerra Mundial, e ver este episódio foi como se aquilo que até então só tinha podido imaginar estivesse ali à minha frente. As descrições, presentes no livro, das roupas, dos penteados, dos carros, das casas, enfim, do ambiente em geral, refletem-se na série. Claro que os dois não estão relacionados, mas passam-se na mesma altura e foi-me impossível não comparar. A equipa responsável por recriar os anos 40 em Portugal só pode estar de parabéns. Tudo está perfeito até ao mais pequeno pormenor.

Quem vê a série tem de se colocar naquela altura e tem de saber um pouco da conjetura nacional de meados do século XX para ter mais ou menos noção dos interesses económicos e políticos que são enunciados. A série não tem como premissa ensinar passo a passo o pedaço de História que conta, mas sim revelar uma parte dela que é menos conhecida: a das redes de espionagem. Este é o ponto que a série me ensinou, o de que existiram espiões em Portugal a um nível bastante intrincado. Claro que se pensar um bocadinho nisto, chego à conclusão de que faz todo o sentido que assim tenha sido. Vivia-se uma ditadura em tempos de guerra. Espiões é a coisa mais natural nestas circunstâncias. Contudo, nunca me tinha debruçado sobre o assunto e não creio que este pormenor venha com muita relevância nos manuais de História da escola.

Quanto às personagens, confesso que tive alguma dificuldade em perceber quem é quem e de que lado se encontram. Este é o aspeto menos positivo que encontrei no primeiro episódio: decifrar qual o endgame, quais são os “bons” e os “maus”, que impacto vão ter na narrativa e, o que mais me deixou curiosa, se são personagens baseadas em pessoas reais ou não. Tanto quanto consegui perceber não existiram à letra figuras de seu nome Maria João Mascarenhas (personagem de Daniela Ruah), Rose Lawson (interpretada por Maria João Bastos) ou Siegfried Brenner (papel desempenhado por Diogo Morgado). Contudo, outras houve que de facto foram reais e que são incorporadas na série: o major Beevor (Pedro Lamares), líder do SIS (Secret Intelligence Service, conhecido como MI6) em Portugal na altura e adido militar da embaixada britânica em Lisboa; o capitão Ribeiro Casais (Joaquim Nicolau), da Legião Portuguesa; Cândido de Oliveira (Sisley Dias), seleccionador nacional de futebol, e Agostinho Lourenço (Adriano Luz), director da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, mais tarde substituída pela PIDE). Ainda assim, a narrativa baseia-se num pedaço da nossa História e é isso que verdadeiramente desperta o interesse.

A Espia apresenta-se assim com um potencial enorme para fazer cumprir a promessa de entregar uma das melhores ficções nacionais de sempre. Sim, leram bem, de sempre. Desde o elenco de luxo, cujas interpretações nos fazem crer naquelas personagens, aos cenários montados na perfeição e às caracterizações que nos demonstram as vivências dos anos 40, terminando nas referências históricas factuais e na abordagem da existência de redes de espiões em Portugal, esta minissérie tem tudo no sítio. Diria mesmo que é um must see.

Beatriz Caetano