Classificação

8
Interpretação
6.5
Realização
7.9
Argumento
7
Banda Sonora

[Contém spoilers]

No final, de facto, The Whole World Is Watching, mas terá sido o episódio desta semana de The Falcon and the Winter Soldier um ponto alto na temporada?

Na minha singela opinião, sim. Primeiro, porque, pela primeira vez desde a estreia, baixei as minhas defesas sobre o que esperar da série. Já me enganei/fui surpreendido demasiadas vezes pelo que os episódios me deram (a maior parte pela negativa), que acaba por ser um jogo de gato e do rato em que ninguém vence. Claramente esta não é apenas uma buddy comedy nem um mergulho sobre o pesar como foi Wandavision. Parece-me que nem a série encontrou, na verdade, o seu passo. Num momento, Bucky esclarece que os amigos são os Avengers e não os Nazis e arranca-nos um sorriso, no seguinte há conversas filosóficas sobre o papel dos super-heróis no mundo e depois momentos de tensão sobre crimes passados que teimam em não ser esquecidos. A mesma série que nos considera “infantis” ao ponto de explicar tudo o que acontece, é a mesma que decide acabar o episódio com a imagem chocante do escudo a escorrer sangue.

Este episódio focou-se mais em Karli (Erin Kellyman) e Walker e isso tornou-o melhor e pior. Continuo a ter um grave problema com a líder dos Flag Smashers, ou melhor, vários problemas:

  1. A conversa com Sam (Anthony Mackie) teria sido excelente, mas sofre de uma terrível sensação de timing. Deveria ter acontecido antes do atentado à bomba do episódio anterior, ou melhor, que não houvesse sequer atentado e fosse mantida a moralidade no cinzento. Mas esta necessidade incessante em marcar as personagens acaba por estragar a narrativa global. A série seria sempre melhor nos cinzentos, mas Marvel bate sempre no preto e branco. Outra prova disso é a ameaça a Sarah pelo telemóvel. Sam não precisava de qualquer incentivo extra para se encontrar com ela! Serve apenas para a vilanizar ainda mais à força.
  2. Não entendo o porquê de ela merecer a lealdade dos outros elementos e o porquê de a seguirem sem a questionar. Só porque faz uns discursos porreiros?
  3. Sam coloca as falhas do pensamento “supremacista” de Karli com argumentos simples. Ninguém antes a tinha questionado sobre eles? Limitaram-se a segui-la cegamente?
  4. No final acaba por traçar um plano para o resto da temporada: separar os heróis para os tornar mais fracos, que foi precisamente o plano de Zemo em Civil War.

Quanto a John Walker (Wyatt Russell), pergunto-me como é que alguém com sangue tão quente teve uma carreira militar tão distinguida. A sua frustração é, no entanto, perfeitamente compreensível. É apenas um homem entre gigantes. Não tem nem a força, nem a experiência para jogar nesta liga. Dar autógrafos é giro e tal, mas rapidamente perde a piada. O que sobra é a sensação de fraude a um homem que queria voar tão alto quanto Steve Rogers, mas que foi incapaz de perceber o que Sam e Ícaro entenderam: o escudo é demasiado “pesado” e é perigoso tentar voar perto de uma luz tão forte. As Dora Milaje podem não ser super-soldados, mas combateram o exército de Thanos. Walker é (era) só um homem.

“O soro amplifica tudo o que está lá dentro. O bom torna-se ótimo. O mau torna-se pior. Por isso foste escolhido. Porque um homem forte, que sempre conheceu o poder, pode perder o respeito por esse poder. Mas um homem fraco reconhece o valor da força e conhece a compaixão… O que quer que aconteça amanhã, promete-me uma coisa: sê fiel a ti próprio. Não um soldado perfeito, mas um bom homem.” – Dr. Abraham Erskine

Foi assim que nos apresentaram Steve Rogers e foi por isso que Walker falhou. O soro realça tudo; em John, realçou ainda mais a impetuosidade e insegurança. O final acaba por ser previsível e explicar o porquê de Sam eventualmente herdar o escudo. Veremos como o soldado por trás da máscara irá lidar com isso, ainda para mais agora que perdeu a muleta moral, com a morte de Battlestar.

No geral, apesar dos momentos demasiado parados que envolveram principalmente Karli, The Whole World Is Watching agradou-me mais do que o episódio anterior e lança bem os dois que faltam. Não porque tenha imensas dúvidas para onde a história vai, mas porque quero ver como se irá desenrolar e que surpresas nos vão dar.

O Melhor:
– A cena em que Bucky purga finalmente o Winter Soldier do sistema com a ajuda de Ayo (Florence Kasumba) é o ponto alto da temporada em termos de representação. Um grande momento de Sebastian Stan.
– Sam argumenta com uma supremacista… provando que ela não é uma supremacista. Smart move!
– O verdadeiro protagonista do episódio é o escudo de Steve Rogers. O sangue a pingar no final e a cena em que as Dora Milaje o envergam, depois de humilharem completamente a condescendência de Walker… São dois grande momentos!
– O facto de Zemo ter eliminado a possibilidade de mais uma dúzia de super-soldados com a sola do sapato encaixa perfeitamente dentro dos ideais do personagem. Seria fácil injetar-se e aumentar o poder, mas o princípio de acabar com super-soldados é mais forte.
– “O meu mundo não interessa para a América, porque me hei de importar com a sua mascote?” – Uma grandíssima frase de Sarah (Adepero Oduye), que, depois do piloto, continua a participar na série apenas por telemóvel.
– Zemo a ser comparado a El Chapo.

Pior:
– Continua a fixação por câmara handheld em certas cenas (a cena no pátio das crianças) sem nada que o justifique, a não ser provocar-nos enjoos, talvez.
– Sharon (Emily VanCamp) regressa para uma ajuda e para avisar que Mandipoor está perto de um estado de sítio. Não sei se este cameo alimenta mais a hipótese de ela ser a Power Broker ou não. Sinceramente, não sei se é pior que seja ela ou que revelem uma personagem nova como cliffhanger no final de temporada.
– Sharon tem um par de satélites à mão para os ajudar. Nas séries e nos filmes, o pessoal tem satélites como quem tem drones…
– Ficou por explicar como é que John Walker encontrou o grupo no final do episódio.
– Onde estavam as asas de Sam anteriormente? Pensei que estivessem sobre a alçada do governo ou danificadas depois do resgate a Bucky. Mas não, só regressam agora porque sim.
– Será que a série se está a preparar para tornar John o grande combate do final? É suposto ele ser o big boss da temporada? Depois de oito super-soldados serem neutralizados?

Vítor Rodrigues